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Quinta, 8 de maio de 2008, 07h51

Ronaldo, travestis e preconceitos

Milton Hatoum
De São Paulo

I

Causou escândalo a notícia de que Ronaldo, o Fenômeno, divertiu-se com três travestis.

Um só não bastava, perguntou um amigo moralista.

Não sei, respondi. Por que não quatro? Ou cinco? A pele, a carne, o desejo e a grana pertencem ao Fenômeno, e não a mim ou a você.

Uma reportagem do New York Times atribuiu a reação do público a um fato supostamente machista: no país da tolerância sexual, um jogador de futebol tem que mostrar virilidade fora do campo e dentro da vida. Bom, não sei se isso é verdade. Talvez seja. Ao menos fora do campo de futebol. Mas dentro, quando a bola estufa a rede, a virilidade e o machismo vão para o espaço. Às vezes, o autor de um gol decisivo é beijado e abraçado mais do que mulher em lua-de-mel. Há pouco tempo, quando assistia ao jogo Flamengo e Botafogo, uma amiga solitária desabafou:

Ah, como eu queria ser o Obina.

Referia-se aos abraços e outros apertos carnais que o flamenguista recebeu dos colegas quando marcou o gol que daria o título ao Mengão.

Que os onze jogadores de um time sejam viris, não duvido. Quer dizer, não duvido muito. Mas que a virilidade no momento da comemoração de um gol seja relativa, não tenho dúvida. O caso de Ronaldo com os travestis é totalmente pessoal. E se o Fenômeno foi extorquido, o problema é também dele. Torço para que se recupere da lesão no joelho e que jogue no Flamengo, por acaso meu time desde os cinco anos de idade.

II

Muito mais grave - e inadmissível - foi a declaração do coordenador do curso de medicina da Universidade Federal da Bahia. Perplexo, revoltado (ou talvez ferido moral e intelectualmente) com o baixo desempenho dos estudantes de medicina da UFBA nas provas da Enade de 2007, o professor recorreu a Silvestre de Sacy e a Gobineau para justificar o resultado negativo do curso que ele próprio coordena. Claro que ele não citou os dois escritores de língua francesa, nata do racismo europeu no século XIX. Mas afirmar que "o baiano tem um baixo QI" ou "que (baiano) toca berimbau porque só tem uma corda" é algo típico do discurso racista do século retrasado. Não se trata apenas de uma distração ou de um ato falho. Porque esta é ainda a visão de alguns "doutores" da nossa elite sobre o povo brasileiro. Faz alguns meses, um alto executivo de uma multinacional tentou desqualificar o Piauí. Que ironia! De acordo com os resultados do Enade, um dos melhores cursos de medicina do país é o da Universidade Federal do Piauí.

Há alguma coisa errada com esses dois senhores. Aliás, com muitos senhores que não aprenderam o ABC da tolerância; é bem provável que nunca aprendam a conviver com a diferença. Infelizmente não há vacina contra o preconceito, uma das maiores taras do ser humano. Mas o racismo e o preconceito podem e devem ser combatidos em qualquer lugar e circunstância.

No caso das notas baixas nos exames da Enade, não adianta culpar os estudantes negros, mulatos, caboclos e pobres, sejam eles paulistas, paraenses ou baianos. Convém lembrar que o coordenador do curso de medicina da UFBA era um dos responsáveis pelo desempenho acadêmico do mesmo. Mas a culpa, como quase sempre, cai na cabeça dos mais fracos.

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br

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