Terra Magazine

 

Quinta, 8 de maio de 2008, 09h10 Atualizada às 18h47

Erwin Kräutler: governo deve usar a "força" em RR

Diego Salmen

O governo deve recorrer à "força coercitiva" para retirar os arrozeiros da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, afirma Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade que atua em defesa dos índios na região.

- Se tem gente lá dentro que não quer sair, o governo tem que usar suas forças coercitivas para retirar esses invasores. Eles (os arrozeiros) têm que sair da área. Eles são invasores - protesta.

Na última segunda-feira, nove índios saíram feridos após ataque de pistoleiros na Fazenda Depósito, de propriedade do prefeito de Pacaraima (RR), Paulo César Quartiero (DEM). Quartiero acusa os índios de terem invadido sua fazenda, que fica dentro da reserva Raposa/Serra do Sol.

Ele foi preso em flagrante depois de a Polícia Federal ter encontrado explosivos no local.

Em entrevista a Terra Magazine, D. Erwin também comenta a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ter encomendado a morte da irmã Dorothy Stang, em fevereiro de 2005.

No primeiro julgamento, em maio de 2007, Bida havia sido condenado a 30 anos de prisão pelo tribunal do júri. Um novo júri foi marcado devido à imputação da pena máxima de 30 anos, como manda a legislação; desta vez o fazendeiro foi absolvido.

- Eu estou estarrecido, indignado e revoltado. Eu não posso admitir e me recuso a aceitar uma decisão desse tipo - critica.

Dorothy iniciou suas atividades na região sob os auspícios do bispo, que autorizou os trabalhos da missionária no sul do Pará.

- Ela chegou comigo à prelazia - relata.

Brasileiro nascido na Áustria e naturalizado há 30 anos, D. Erwin está há 43 anos no país, dos quais 27 como bispo. Chegou ao Xingu em 1975. Hoje está ameaçado de morte, e anda com segurança 24 horas por dia com medo de sofrer alguma espécie de atentado.

- Se você assume uma posição a favor dos povos indígenas você contraria interesses de latifundiários, mineradoras, madeireiras, de gente que quer se apoderar da terra habitada pelos índios.

Leia a seguir a entrevista com o bispo Erwin:

Terra Magazine - O senhor disse que está sendo ameaçado de morte e que sua situação está chegando ao limite. Ao que atribui isso?
D. Erwin -
Por que alguém é ameaçado? Porque alguém toma uma posição, e essa posição contraria interesses que podem ser traduzidos em somas astronômicos. Se você assume uma posição a favor dos povos indígenas você contraria interesses de latifundiários, mineradoras, madeireiras, de gente que quer se apoderar da terra habitada pelos índios.

O senhor vem tomando alguma medida para se prevenir? O governo lhe dá algum apoio?
Eu estou com proteção policial de 2006 até hoje. Isso começou em 2006 e se intensificou a partir de dezembro. Estou sob proteção 24 horas e é uma decisão que foi tomada porque o governo entende ser responsável pela integridade física do bispo.

Um jornalista do jornal O Liberal ameaçou o senhor?
Não é um jornalista, é um articulista que se chama Armando Soares. É a opinião dele, do jornal. Mas consta um artigo do dia 4 de junho de 2006 em que ele fala que existe um religioso em Altamira que precisa ser eliminado.

Mudando um pouco de assunto, bispo, como o senhor avalia a absolvição do fazendeiro Bida, que foi acusado de ser o mandante do assassinato da irmã Dorothy Stang?
Eu estou estarrecido, indignado e revoltado. Eu não posso admitir e me recuso a aceitar uma decisão desse tipo. Eu não sei qual lógica está por trás quando alguém é condenado na forma da lei a 30 anos de reclusão, essa condenação se corrobora em provas irrefutáveis, que foram admitidas e em conseqüência dessas provas o tribunal do júri decidiu por 5 a 2 condená-lo a trinta anos.

E agora o resultado se inverteu.
Agora no segundo julgamento não se questionou o número de anos a que ele seria condenado; poderia se imaginar que ao invés de 30 ele ganharia 35 ou por algum atenuante ter o número de anos diminuído para 20, 25, 18, seja lá o que for. Mas ele foi absolvido. Totalmente absolvido, está em plena liberdade e está festejando a vitória. Aliás, o festejo começou antes da promulgação da sentença.

Como o senhor acha que se deu essa inversão no placar do júri?
Eu acho que qualquer um suspeita que houve manobra, maracutaia. Claro, isso inclusive consta dos autos do processo. O réu confesso, aquele que matou, agora fala exatamente o contrário do que afimara antes. O outro, que foi condenado como intermediário entre os mandantes e o criminoso que executou a irmã, ele simplesmente assume. Enquanto o Bida está simplesmente sendo liberado. Então houve alguma coisa.

Qual a avaliação que o senhor faz do conflito na reserva Raposo Serra do Sol?
Essa área é homologada pelo governo. Se tem gente lá dentro que não quer sair, o governo tem que usar suas forças coercitivas para retirar esses invasores. Eles (os arrozeiros) têm que sair da área. Eles são invasores. Se você tem um sítio em qualquer canto desse país, de repente alguém chega e acampa lá. Você vai para a polícia e a polícia vai tirar esse povo. Você tem o título permitindo ter o pedaço de terra e alguém entra e invade essa terra? Você constitucionalmente é ajudado pela polícia para retomar um terreno que é seu.

O que o senhor acha que vai acontecer na reserva e o que deve ser feito para resolver o conflito?
Essa gente que tá lá e que se nega a sair se julga acima da lei.

Que são os arrozeiros.
Mas é claro. Eu sequer faria mais essa pergunta. Eles são invasores, existe lei nesse país e se existe lei essa lei tem que ser cumprida. Quando alguém se nega a cumprir a lei, o governo dispõe de seu aparato para fazer cumprir a lei.

Eles argumentam que a presença exclusiva de indígenas nessas áreas ameaça a soberania nacional.
Isso é um absurdo. Isso é um argumento falacioso. Primeiro, as áreas indígenas são áreas da União, não se fala em soberania. O Brasil não perde nunca soberania sobre área indígena. (esse argumento) É falacioso. É simplesmente para chamar a atenção, mas não tem consistência. Essas áreas não são enclaves no Brasil, de jeito nenhum. Quem diz isso não estudou a matéria. Isso é besteira. A soberania brasileira continua. Não é questão de soberania; nunca fui e nunca será.

 

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