
Atualizada às 19h39 Tito Guarniere
De Porto Alegre
Somos todos mentirosos. E quem não mente, que atire a primeira pedra. Mas que ninguém se sinta ofendido. Estudos sérios garantem que mentir não somente permeia a grande aventura do homem sobre a terra, como trouxe aos mentirosos uma vantagem evolutiva. Ou seja, a mentira pode ser um pecado e um vício, mas sem ela não teríamos chegado ao nosso estágio de evolução.
Vejam nossos ancestrais caçadores. Para caçar precisavam "mentir", proceder como felinos, se esconder, agir em silêncio. Emboscar, se valer de todos os truques para enganar a presa e abatê-la. Imaginem nossos antepassados, baixinhos como pigmeus, enfrentando em campo aberto um bisonte...
A mentira esteve com a bola cheia desde os mais remotos tempos, mesmo que você prefira a versão bíblica sobre a origem do homem. Lembram? Adão e Eva, depois de comer a maçã proibida, se envergonharam da própria nudez e tentaram se esconder de Deus. Logo de Quem!. Se Ele tudo vê e tudo fiscaliza hoje em dia, imaginem naquele tempo, em que havia muito menos gente para vigiar. Na mesma época, e no mesmo Livro, ficamos sabendo que Caim matou Abel, e quando lhe perguntaram sobre o mano, Caim respondeu na maior cara de pau: "Por acaso serei eu guarda do meu irmão?".
E o que seria da literatura universal e das artes de todos os tempos, se proibissem a mentira no livro, no drama teatral, na comédia de costumes, na cinematografia? A obra de Shakespeare, por exemplo, toda ela repleta de traições e intrigas, ficaria irreconhecível, e sem ela - a mentira - a fama do bardo jamais passaria dos acanhados limites de Stratford-upon-Avon.
Toda a ficção é, por definição e natureza, uma forma de mentira. Vargas Llosa diz a mesma coisa de forma mais elegante: "Todos os romances refazem a realidade (mentem) - embelezando-a ou piorando-a".
Nas guerras, a primeira vítima é a verdade. O cavalo de Tróia é a mais espetacular - e lendária - manobra de guerra para iludir os inimigos. E o pacto de não agressão entre a União Soviética e a Alemanha de 1939? A mentira perfeita, em que Hitler não acreditava que Stalin fosse cumprir, Stalin pensava exatamente a mesma coisa de Hitler, e nenhum dos signatários tinha a menor intenção de levá-lo a sério.
Não mentimos só com palavras. Usamos perfumes para inibir nossos odores menos agradáveis. Vestimos roupas de grife, nos enfeitamos com jóias e bijuterias, gastamos os tubos em moda e glamour, tudo que nos permita parecer mais jovens, esbeltos, fortes e belos. Tudo vale a pena para que nos mostremos melhor do que realmente somos.
Mente-se em todos os campos: nos negócios, na publicidade, na diplomacia, na política, nos livros, na mídia, nas cátedras, nos púlpitos e nas tribunas. Onde existem dois seres humanos, um deles estará mentindo: o que estiver com a palavra.
Há profissões inteiramente devotadas à mentira. Não, não estou falando de políticos. Mas vejam os mágicos: com seus dedos mais rápidos do que podem ver os nossos olhos, nos enganam com o truque magistral, e nós ainda os aplaudimos, cheios de admiração.
Dá para falar horas e horas sobre o uso e o abuso dessa "habilidade que brota das profundezas do nosso ser". As pesquisas acadêmicas, por exemplo, demonstram que a mulher mente para que o interlocutor se sinta bem, enquanto o homem mente para contar vantagem. Em pesquisas específicas sobre sexo, os homens são propensos (de novo) a contar vantagem, enquanto a mulher, ao invés, tende a minimizar as suas experiências sexuais.
Termino por aqui. Quem fala demais cai em contradição, uma forma clássica de se pilhar o mentiroso.
PARECE MENTIRA (I)
O presidente Lula, em recente ato de inauguração de uma fábrica de "plástico verde", da empresa Braskem, feita com bagaço de cana, citou as marcas Velho Barreiro e 51, como o possível gosto do novo produto. E fez uma previsão otimista: "é capaz de eles começarem a lamber nossos carros por fora". Ou seja, se lhe contassem que o presidente previu que americanos e europeus lamberão nossos carros como se lambe um picolé de cachaça, você não acreditaria. Mas é a mais pura verdade.
PARECE MENTIRA (II)
Se lhe contassem que o ministro Gilberto Gil, da Cultura, pedirá o reconhecimento do chá ayahuasca, alucinógeno usado em rituais de seitas como o Santo Daime, como patrimônio cultural da nação brasileira, você não acreditaria. Mas é a mais pura verdade.
SE MELHORAR, ESTRAGA
O presidente George Bush não sabe bem o que vai fazer depois que terminar o mandato. "Quem sabe ganhe um prêmio na loteria?", arrisca. Já Lula nada de braçadas nas ondas da fortuna: ganha uma loteria todos os dias, sob a forma de avanços na economia - como o grade investment - e de índices imbatíveis de popularidade e prestígio.SANTO ANTÔNIO
Lula, cada vez mais livre, leve e solto, enveredou pelo delicado universo da condição feminina, para nos dar conta que a mulher gosta de quatro coisas: "Ela quer uma casa, quer casar com um cara bonito e trabalhador, quer ter um carro e um computador". E do palanque prometeu a casa, o carro e computador, que virão com o crescimento da economia. Só não garantiu o marido. Não sou de dar conselhos, mas Lula deveria deixar de lado a modéstia e a prudência. Tudo no seu governo dá certo. Por que não prometer logo o marido no pacote?
Terra Magazine