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Sexta, 9 de maio de 2008, 07h57 Atualizada às 08h07

Um governo sob medida

Vera Gonçalves de Araújo
De Roma

O ministério da Paridade não é muito importante, mas a nova ministra é destinada a ser, sem dúvida alguma, a mais fotografada do terceiro gabinete italiano presidido por Silvio Berlusconi, empossado ontem em Roma. Porque - apesar da presença de só quatro mulheres no time, que classifica a Itália entre os países menos "rosas" e mais machistas da Europa - a senhorita Mara Carfagna, ex-candidata a miss Itália, ex-modelo, e ex-apresentadora de televisão, é realmente fotogênica.

Poucos blogueiros de esquerda resistiram à tentação de fazer piada com a nova ministra, que deverá zelar pela igualdade de oportunidades para homens e mulheres no país. A moça está acostumada a ser tratada mais como boazuda do que como política competente. Seu próprio chefe não perde ocasião para elogiar sua beleza. Aliás, ela quase provocou uma crise no casamento de Silvio e Veronica Berlusconi. No ano passado, ao ler uma declaração do marido que dizia "se eu não fosse casado, casaria imediatamente com a Mara", Veronica mandou uma carta melindrada ao principal jornal esquerdista italiano, para reclamar da atitude mesquinha de Silvio. Que foi obrigado a pedir desculpas públicas à mulher.

O novo governo italiano é um coquetel que mistura quatro ministros da separatista Liga do Norte, quatro herdeiros do partido fascista, hoje Aliança Nacional, um democrata cristão e doze representantes do partido de Berlusconi, Forza Italia, escolhidos a dedo entre os mais fiéis ao chefe. A pasta do Exterior ficou com Franco Frattini, que nos últimos anos trabalhou como embaixador do berlusconismo no mundo: com o seu ar de mauricinho, sua função principal era contornar as gafes diplomáticas do Cavaliere.

Ao ministério-chave da Economia volta Giulio Tremonti, que durante muitos anos acumulou uma fortuna explicando aos milionários italianos como pagar menos impostos, e que conquistou Berlusconi com suas fórmulas para diminuir a pressão fiscal. Inteligente, culto, é o rei do sarcasmo, capaz de irritar mesmo o adversário mais zen com seus trocadilhos.

O novo ministro da Defesa, Ignazio La Russa, parece uma caricatura do perfeito ex-fascista, mas mesmo assim é simpático, graças ao mais famoso apresentador da rádio e da televisão italiana, Fiorello, que imita seus trejeitos machistas e seu sotaque carregado de siciliano. Outro siciliano ganhou uma pasta importante, a da Justiça: aos 37 anos, Angelino Alfano até hoje demonstrou principalmente a qualidade de acatar e cumprir todas as ordens de Berlusconi. Dom que certamente vai poder exercer no futuro próximo.

O titular do Desenvolvimento Econômico Claudio Scajola foi um péssimo ministro do Interior no segundo governo de Berlusconi. Responsável pela repressão brutal da polícia durante a reunião do G8 em Gênova, em 2002, foi obrigado a se demitir quando comentou que o economista Marco Biagi, assassinado pelas Brigadas Vermelhas, era "um chato que enchia o saco porque tinha medo de atentados". O ministério do Interior foi o prêmio recebido pela Liga do Norte pelo êxito eleitoral e pela fidelidade ao chefe.

A cadeira de ministro é novamente de Roberto Maroni, que já a ocupou por poucos meses em 1994, no primeiro governo do "Cavaliere". Ex-advogado da Avon, é o mais razoável e menos violento entre os líderes da Liga, enquanto o fundador do partido separatista do norte, o caudilho Umberto Bossi, foi nomeado ministro das Reformas. Como diria Woody Allen, é Berlusconi quem manda, Bossi se limita a tomar decisões. Muita gente apostava que não ia entrar no governo, mesmo porque sofreu um derrame há alguns anos atrás e é bastante difícil entender o que diz.

Não é o "dream team" de direita que Berlusconi prometeu durante a campanha eleitoral; mas é um governo feito sob medida para um patrão forte, decidido a reinar pelos cinco anos que tem pela frente. Só em 2013, talvez, Berlusconi decidirá sair de campo, aos 76 anos de idade. O seu sonho é concluir a carreira como presidente da república, mas por enquanto, o cargo está nas mãos firmes e competentes de um ex-comunista.


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br

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