Atualizada às 09h14 Daniel Milazzo
Yoani Sánchez é cubana. Vive em Havana. Tem 32 anos, é formada em Filologia, mãe e blogueira. Há pouco mais de um ano, ela mantém o blog Generación Y, onde expressa críticas, divagações, impressões e relatos da realidade cubana. Apesar das tentativas do governo cubano em frear a visibilidade do blog, mediante filtros e censura, a iniciativa de Yoani foi reconhecida, e em abril ela recebeu o prêmio "Ortega y Gasset" do jornal espanhol El País. A cerimônia foi realizada na noite de 7 de maio, em Madri, porém, Yoani não pôde comparecer. O motivo? O governo cubano não autorizou sua saída do país.
De acordo com a revista Time, Yoani Sánchez é uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Ela está na categoria heróis e pioneiros. Em entrevista a Terra Magazine, a blogueira fala do fenômeno de audiência de Generación Y - que acumula milhões de acessos - ressalta a importância que o mercado negro ainda representa na vida dos cubanos e qualifica as últimas medidas de Raúl Castro como tentativa de "atenuar a pressão social para preservar o poder".
Leia a entrevista completa com Yoani Sánchez:
Terra Magazine - Como você explica o sucesso do Generación Y?
Yoani Sánchez - Especificamente sobre o meu blog, houve uma série de elementos que confluíram para o êxito obtido com cubanos dentro e fora da ilha. Por um lado, há o fato de uma pessoa da minha geração, que em geral optou ou pelo silêncio ou pela imigração, estar transmitindo suas próprias opiniões e sua versão da realidade. Além disso, eu ponho meu nome e meu rosto à mostra, é muito fácil de me identificar. Vários blogs usam pseudônimos dentro de Cuba. Por outro lado, está a maneira de narrar. Em Cuba temos uma saturação do discurso político, então essa maneira fresca, pessoal e emotiva de narrar minha realidade conseguiu cativar a muitas pessoas. Também o fato de ser uma mulher, mãe, sensibiliza muito aqueles que me lêem. Além disso, há uma conjuntura de expectativa em torno da realidade vivida hoje por Cuba e a nova tecnologia, a tecnologia blogger que começou a entrar na vida cubana com muita intensidade.
Como está o acesso a seu blog hoje?
Ainda há dificuldades. O acesso a partir de Cuba está bloqueado, está filtrado, é impossível acessá-lo nos servidores que permitem o acesso à Internet nos locais públicos, ou seja, não é possível acessá-lo dos cafés de Havana ou dos hotéis. Sei que outros servidores permitem o acesso, mas dos lugares públicos o acesso ainda é impossível.
O servidor de seu blog está na Alemanha?
Sim, o servidor é da Alemanha porque lamentavelmente nós os cubanos não podemos comprar um domínio no nosso próprio país e hospedá-lo num servidor cubano. Não é uma decisão minha, senão a única possibilidade de ter um site independente.
E mesmo assim seu blog continua tendo muitos acesos.
Sim, primeiro porque há muitas formar de burlar a censura. Os que têm algum conhecimento em informática, sabem de software, conseguem entrar nas páginas bloqueadas. Por outro lado, há servidores nos quais o blog não está bloqueado, então, os que têm acesso a ele fazem cópias e as distribuem aos amigos e conhecidos que estão interessados em saber de seu conteúdo.
Há quanto tempo o blog existe?
É recente, acabou de completar um ano. Começou em abril de 2007.
Tudo isso pode representar uma pressão maior sobre o governo para que a Internet seja totalmente liberada e para que este seja um fator determinante rumo à maior abertura do país?
O governo vive um grande dilema agora. Um, controlar a Internet. Outro, liberá-la a toda a população. O controle não está funcionando, porque as pessoas encontram meios de acessar a internet, a pesar de todas as barreiras, as limitações e a censura. Os cubanos estão usando a internet para se expressar. Um cubano não pode imprimir e distribuir um jornal porque isso é um delito que se chama propaganda inimiga. Tampouco há muitas possibilidades de ter um espaço alternativo e independente na TV ou na rádio nacional. Por isso a internet tornou-se o terreno para se ter opiniões críticas ou pessoais. O governo sabe disso. É inevitável que os cubanos se contagiem com essa nova febre de pôr suas opiniões na internet. Se o governo cubano não abrir o acesso livre, então encontraremos um terceiro caminho para acessar a internet, através de outros países ou através de telefones celulares. O grande perigo da Internet é que ela nos traz notícias de um mundo que nos chega de forma muito distorcida através da imprensa nacional. Muito em branco e preto.
E aqueles que têm acesso à internet, estes podem visitar qualquer site?
Não, tem muitos sites bloqueados. Por exemplo, uma boa parte daqueles que tratam de temáticas cubanas a partir do exterior, que são críticas ao governo cubano, que fazem denúncias de direitos humanos, que analisam a realidade de outra ótica estão bloqueados.
Então, há liberdade de expressão em Cuba hoje?
Eu acredito que estamos muito longe disso, o que me preocupa, pois as medidas tomadas pelo governo caminham mais no sentido material e econômico da vida cotidiana, mas não vejo avanços claros no que diz respeito à liberdade de expressão e de associação.
Qual é sua opinião sobre as últimas medidas de Raúl Castro (permitir que se compre geladeiras, celulares, computadores, etc)
Na verdade, isso é aceitar o inevitável. Os cubanos já tinham acesso às novas tecnologias através de meios ilegais. Porém, pouco a pouco a sociedade cubana já vinha se informatizando apesar das limitações. Portanto, o governo só aceitou um fato sem passo atrás. O impedimento dos cubanos hospedarem-se em hotéis era algo muito humilhante, uma regulação que sujava muito a imagem do governo frente aos países estrangeiros e aos turistas. Aceitar que os cubanos possam entrar nos hotéis não mudou muito a penúria cotidiana, pois quem poderá pagar 60 ou 100 pesos convertíveis por uma noite num hotel quando o salário mínimo está em torno de 15 ou 17 pesos convertíveis no mês? Até agora não foram medidas que gerem qualquer alívio popular. As medidas necessárias para isso são erradicar a igualdade monetária - esta esquizofrenia econômica entre o peso convertível e o peso cubano que já dura 15 anos - cancelar de uma vez todas as limitações para viajar fora de Cuba e no tema da terra e da agricultura, o que é básico, dar independência aos camponeses, autonomia e, sobretudo, permitir a pequena empresa privada. Essas sim seriam medidas de transformação.
A sociedade cubana pode tornar-se uma sociedade capitalista? Qual seria a nova elite da sociedade cubana?
O objetivo claro dessas medidas do governo é atenuar a pressão social para conservar o poder. Mas as coisas não vão acontecer como o governo quer. Estas medidas podem elevar o apetite social por mudanças e pela economia capitalista, e a pressão em si pode levar até uma situação que o governo não prevê. Acredito que vai surgir uma classe de novos ricos e penso que eles serão fundamentalmente militares reformados que agora estão vinculados com o setor de turismo, com corporações mistas, com capital estrangeiro. Ou seja, os que estão vinculados tanto com o poder político como com o poder econômico. Acredito que a elite que vai surgir será de pessoas que estão vinculados a empresas estatais e que continuam acumulando recursos. Isso me preocupa porque é um caminho muito parecido com o da Rússia. Cuba tem que seguir rumo a uma economia mais liberalizada, uma economia de mercado, rumo ao capitalismo. Não podemos viver sob o controle da estatização, porque está comprovado que isso não funciona. Me preocupa entrarmos no capitalismo ainda com o férreo controle ideológico e sem dar oportunidade aos que pensam diferente a aportar suas idéias, seu talento e sua criatividade para a revolução e o desenvolvimento do país.
Você tem medo de que Cuba se transforme no novo Haiti?
Realmente não creio nessa possibilidade. Penso, por exemplo, que a população cubana tem um alto nível de instrução, tem uma necessidade de produzir que esteve latente durante muitos anos, amarrada com a camisa de força do controle estatal. Temos uma infra-estrutura que, apesar de sua deterioração, pode se recuperar em pouco tempo. Penso na questão arquitetônica, na rede ferroviária, que agora mesmo está em situação catastrófica, mas a qual pode reativar-se em pouco tempo se houver investimentos. Os primeiros momentos da transformação serão muito caóticos, claro. Quando tivermos um governo democrático a tarefa será ajudar aos menos favorecidos, manter as ajudas sociais aos que não possam ter acesso por seu próprio esforço a um bom salário. Acho que a direção que Cuba segue não é ser um novo Haiti.
O que pensa da uma aproximação mais intensa de Cuba com o regime de Higo Chávez?
Na verdade, o que está acontecendo é um ligeiro distanciamento. Primeiro porque Chávez é um homem que já tem os dias contados no poder, e já está claro que provavelmente ele não será eleito em 2013. Segundo, porque os cubanos em geral não são simpáticos a essa aproximação, pois são pessoas muito ligadas à idéia de soberania, e a sombra, a ameaça que Venezuela representa preocupa a muita gente. Além disso, acredito que não haja intenção do governo atual em aproximar-se, porque ele está mais preocupado em prover uma imagem mais plural e aberta em suas relações internacionais, enquanto Hugo Chávez é uma pessoa que gera conflitos demais e é bastante torpe em suas relações internacionais. Daí a intenção de distanciar-se um pouco, é isso que eu noto com o governo de Raúl.
O sistema eleitoral de Cuba é o centralismo democrático, que elege os políticos de maneira indireta. O que pensa sobre esse sistema?
O exemplo claro de que as pessoas não confiam no sistema eleitoral é que ninguém se pergunta, para ninguém é motivo de conversa o que vai acontecer na Assembléia Nacional, o que houve com as novas leis aprovadas. O parlamento cubano, desde que existe há 30 anos, votou todas as leis por unanimidade. Jamais houve um debate, ou um confronto entre os parlamentares para se votar uma lei. Ainda que se diga que qualquer um pode postular e chegar à Assembléia Nacional, há filtros que impedem as pessoas com uma pré-disposição diferente à do governo cheguem a ocupar uma cadeira do parlamento cubano. As pessoas têm muita apatia e muito desinteresse pelos temas do parlamento, porque não confiam nos mecanismo eleitorais, ainda que assistam massivamente aos discursos, por diversos motivos, como o temor de destacar-se publicamente por não assistir.
Então, por um lado há o desinteresse e por outro um distanciamento muito grande da sociedade com os parlamentares.
Nós os cubanos não nos sentimos representados pelos congressistas, não sentimos que nossos problemas são contemplados. A Assembléia Nacional não tem poder real de debater os problemas. Tudo isso gera muita frustração e enfastio, desinteresse a todos assuntos parlamentares.
Se pode pensar que Cuba está mais próxima de ter maior mobilização social rumo a uma resistência mais clara e a uma oposição mais direta ao regime? Como está o clima em Cuba nesse sentido?
Eu confio não tanto nas iniciativas políticas, só que mais nas iniciativas cidadãs de cada dia. É essa capacidade que têm as pessoas de se organizar espontaneamente para essas coisas mais ingênuas, como fazer uma fila, buscar algo para comprar ou vender... Até o mercado negro é em Cuba uma mostra da sociedade civil. Creio que a sociedade cubana está se reconstruindo muito lentamente, ainda com muito medo, com muitas paranóias, mas pouco a pouco. Não creio que a solução dos problemas de Cuba passará pela ação heróica de uns poucos, senão pelo constante acionar de muitos. A crítica popular, o processo de sentir-nos donos do país já está em curso, talvez demore, mas está claro que não se pode manter a situação atual de verticalidade de poder. Isso não pode continuar, e me parece que a sociedade civil está se reconstruindo.
Qual é a atual importância do mercado negro para se viver em Cuba hoje?
Um cubano simplesmente não pode viver sem o mercado negro. As medidas de Raúl Castro não ainda melhoraram a quantidade de comida nem o preço da comida que podemos colocar sobre a mesa, portanto, nós dependemos de toda uma rede alternativa e clandestina de distribuição de produtos, a maioria roubados ao Estado, que nos provêm de todas essas coisas a um preço muito mais econômico que o mercado em pesos convertíveis. O preço também é muito maior que no mercado racional, mas o mercado racional tem porções muito pequenas para cada pessoa e não é suficiente alimentar-se decentemente. Não falo de luxo, mas de poder comer a cada dia um prato de arroz e feijão, uma salada ou alguma carne. Para isso, tem-se que apelar ao mercado negro. Os garotos maiores de 7 anos não recebem leite pelo mercado racional. No mercado convertível, um litro de leite custa 1,50 pesos convertíveis. O salário médio é de 15 pesos convertíveis, ou seja, comprar leite nesse mercado é impossível para a maioria das pessoas. No mercado negro, o litro de leite custa 10 pesos cubanos. Um peso convertível equivale 24 pesos cubanos. Um peso cubano é igual a cerca de 40 centavos de peso convertível. O mercado negro é o terceiro mais importante de Cuba, o mais flexível e quase todos estão envolvidos com ele.
Ajudar os camponeses a investir na produção rural é a melhor saída?
Estas novas medidas de Raúl, de dar pequenas parcelas de terra aos camponeses para que trabalhem ainda está numa etapa muito embrionária, e ainda não têm resultados. Precisa de tempo e garantias, pois os camponeses cubanos estão muito desconfiados, porque viveram processos de flexibilização e de fechar todas as aberturas. Além disso, os preços que o governo ainda coloca nos produtos que vão aos camponeses estão muito abaixo daquilo que poderia ser cotizado. O camponês ainda está trabalhando fundamentalmente para o mercado negro. Um objetivo do governo é elevar os preços para que seja mais atrativo a eles venderem para o Estado. Estão vendendo aos camponeses instrumentos para lavrar a terra, mas são necessários tratores, máquinas de maior envergadura, para suprir o que a demanda pede, e não o que o governo quer. É um largo processo e acredito que vá demorar a ter resultados.
Você saiu de Cuba por uns anos. Por que resolveu voltar?
Por motivos familiares e de responsabilidade cívica. Já que tinha que voltar, decidi regressar mas não no mesmo ponto de onde tinha saído, deveria começar a fazer algo para fazer de Cuba meu país, para não ter que exilar-me atrás de sonhos e expectativas. Tem um livro muito bom, de Milan Kundera (escritor tcheco) que se chama "A vida está em outro lugar", e sempre digo que para mim a vida não está noutro lugar senão em Cuba.
Quais são seus planos para o futuro?
Meu plano imediato é ajudar a blogosfera cubana a crescer. Levar outros bloggers a escreverem seus pontos de vista. Ajudar o jornalismo cidadão, não feito por especialistas nem por pessoas que tenham uma linha política partidarista, mas pelos cidadãos que estão no epicentro dos fatos. Por outro lado, quero ajudar com todas minhas forças a reconstruir a sociedade cubana. Toda iniciativa civil, qualquer que seja, por mais ingênua que pareça poderá contar com meu apoio.
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