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Segunda, 12 de maio de 2008, 09h01 Atualizada às 19h27

Sete samurais & um Nelson Rodrigues

Paulo Scott
De Porto Alegre

Dia desses, perguntei-me quem entraria verdadeiramente na lista dos responsáveis pela identidade da literatura brasileira recente, pela sua promoção, pelo seu estudo, vivacidade et cetera.

Após listar alguns agentes literários, jornalistas, editores e vários autores, cheguei a um número próximo de cem nomes, o que seria impossível de tratar, mesmo com alguma moderação, nesta coluna. Tenho certeza que não seria mais justo citar esses quase cem nomes (com possibilidade enorme de erro da minha parte) do que escolher, mesmo sob um critério sem maior rigor (a título mesmo do exercício) alguns e em seguida justificar minha escolha.

Inicialmente, imaginei adequado escolher dez nomes, mas depois pensei que sete nomes teriam maior apelo, talvez porque o sete ainda seja o numeral de mística pop mais expressiva - e eu estivesse buscando agregar à lista justamente os nomes que na atualidade mais têm contribuído para tornar, no bom sentido (sei que o termo é encarado com maus olhos por alguns, eu próprio quando fui chamado de pop por uma de nossas revistas semanais não fiquei muito animado), a literatura uma referência um pouco mais pop, menos rançosa ao público em geral.

O pop (este meu pop) nada teria a ver com moda, com modismo.

Ainda por esse critério restariam acima de vinte nomes. Então, agreguei outro critério: o critério da idade. Tomei como referência a idade de quarenta anos, por ser um marco inegável da idade adulta, por acomodar anos suficientes para alguma avaliação biográfica que seja.

Daí, quem, dentro dos parâmetros apontados, seriam os sete jovens senhores mais importantes do meio literário hoje? Permitam-me arriscar os seguintes nomes: Fabrício Carpinejar, Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Nelson de Oliveira, Paulo Roberto Pires e Rodrigo Garcia Lopes.

Sei que há outros nomes tão importantes quanto estes (dependendo do critério, até bem mais importantes), mas que, digamos, ainda não fizeram a curva dos trinta e cinco ou, do outro lado, já viraram os quarenta e cinco.

Proponho este exercício muito pessoal de cognição para entender o que está acontecendo hoje. Não descarto a possibilidade de equívoco na seleção, mas quando busco o perfil da nova literatura brasileira, da sua notícia, das suas idiossincrasias, esses que para mim são os nomes mais relevantes. Não é só uma questão de escrever bem, mas de interagir com o meio literário e exultá-lo (há componentes de abnegação, seletividade e generosidade inegáveis em suas condutas).

Justifico.

Fabrício Carpinejar, 37, tem levado a poesia contemporânea a um patamar de popularidade (sem descuidar da qualidade) que a tem feito concorrer quase de igual para igual com a prosa. Há também, não posso esquecer, todos os seus esforços para encontrar novas formas de diálogo entre a academia e o ofício da escrita em si.

Joca Reiners Terron, 40, foi o editor de uma das editoras mais influentes do cenário nacional na última virada de século: a Ciência do Acidente. Apesar de ter sido uma pequena editora inspirou várias outras (pequenas, médias e grandes) do mercado editorial, provando que valia a pena investir num tipo de leitura que, usualmente, só era admita para publicação quando estivessem envolvidos nomes (mesmo sendo malditos) já consagrados.

Marcelino Freire, 40, ganhou o prêmio Jabuti, com o livro "Contos Negreiros" (Rio de Janeiro: Record, 2006), é, sob todos os ângulos, o maior agitador do meio literário brasileiro. Sua criação mais recente foi o "Baladas Literárias", evento de expressão nacional e que já se dirige para a terceira edição. Seu blog é grande referência para quem deseja estar informado a respeito de lançamentos, novidades e por aí vai.

Mário Bortolotto, 43, dramaturgo (poeta e prosador também), alicerçou um lugar peculiar no meio literário, promoveu e promove, de forma generosa, vários nomes importantes que já começam a ganhar espaço e respeitabilidade Brasil a fora, como é o caso de Marcelo Montenegro, Sergio Mello e André Kitagawa. Tem adaptado as obras de vários novos autores para o teatro.

Nelson de Oliveira, 41, talvez o mais completo de todos justamente porque, além de escritor e agregador, reflete criticamente sobre o que é a literatura brasileira hoje. Nelson, que acaba de lançar o livro "A oficina do escritor: sobre ler, escrever e publicar" (São Paulo: Ateliê Editorial, 2008), tem o humor que às vezes falta no universo literário, onde muitos se levam a sério demais, a sério do modo mais errado.

Paulo Roberto Pires, 39, escritor e editor, o primeiro nome a ocupar uma posição de peso no restrito clube das grandes editoras do país. Já coordenou coletâneas e encontros com novos autores e é um dos sujeitos mais atentos ao que efetivamente há de novo quando se trata de novos talentos literários - sem perder de vista a necessidade de responder, no que diz respeito ao potencial do autor e da obra, às exigências do mercado.

Rodrigo Garcia Lopes, 42, é um dos editores da Coyote, uma das revistas literárias mais importantes do Brasil. A exemplo de vários escritores da atualidade, Rodrigo tem combinado literatura com outros meios de expressão artística, como música, cinema, além de ser uma referência importante na poesia e nos campos das traduções e pesquisa da literatura contemporânea mundial.

Se me fosse possível citar um oitavo nome, eu acrescentaria o Mirisola.

Marcelo Mirisola, 41, foi o primeiro nome a ganhar popularidade entre os novos escritores - escrevendo do jeito que achava que era certo, sem concessões, sem descontos, escrevendo bem. Além disso, há todo o pitoresco das suas crônicas bombásticas (na minha opinião, um contraponto necessário). Notável por ser desastroso? Não vou julgá-lo. Fato é que sem ele, na biografia geral, muito autor audacioso aí teria passado despercebido aos olhos das grandes editoras.

Pronto, e já quebrei minha própria regra.

Selecionar é sempre um processo frágil, os critérios mudam e provam como é difícil eleger, sem o distanciamento da história, o que há de melhor em nosso tempo.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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