
Amilcar Bettega
De Paris
Era um dia como os outros dias e, consultando a planilha na pasta cheia de documentos, viu que lhe faltavam apenas duas visitas para finalizar a jornada e voltar para casa. Nunca conseguiria precisar o momento em que tudo aquilo começou, mas trazia muito viva a percepção da quase felicidade e do prazer que experimentava pela iminência de terminar mais um dia quando se abaixou para repor a planilha dentro da pasta e sentiu o sol do meio da tarde aquecer-lhe as costas e, ainda, quando se ergueu novamente e seu olhar acompanhou as duas bicicletas que deslizaram à sua frente como em câmera lenta, enquanto ele esperava o sinal fechar para atravessar a rua.
A moça ia na frente, e justo no instante em que cruzou diante dele, ela voltou o corpo para dizer alguma coisa ao rapaz que pedalava logo atrás. Foi nesse momento que uma grande mecha de cabelo cobriu inteiramente o rosto dela, invadindo-lhe o canto da boca, que sorria. O rapaz que pedalava logo atrás sorriu também. Quando ela tornou outra vez o tronco, retomando a posição anterior para se endireitar sobre o banco da bicicleta, e fez um movimento brusco com a cabeça a fim de livrar o rosto da mecha de cabelo que invadia-lhe o canto da boca, ele, o homem que esperava o sinal fechar para atravessar a rua e acompanhava com o olhar as duas bicicletas passando à sua frente como em câmera lenta, começou a sentir aquela bolha crescendo na garganta.
Ele atravessou a rua e já na outra calçada a bolha era insuportável. Entrou na primeira porta que viu aberta e, por sorte, não precisou explicar nada a ninguém, porque o lugar onde entrara era um cinema e uma sessão estava prestes a iniciar. Ao cruzar pela senhora que recolhia os bilhetes, já duas grossas lágrimas escapavam pelo canto dos olhos. Agradeceu aos céus pelas luzes da sala já estarem apagadas e o filme começando. Sentou-se na primeira fila, de costas para os outros espectadores. Quase ao mesmo instante, encostou o queixo no peito e deixou que as lágrimas viessem com força. Não fazia barulho, era um choro abundante mas silencioso, ainda que os ombros sacudissem com uma insistência maior do que ele gostaria.
Chorou sem parar, silenciosamente, durante todo o filme. E continuou chorando mesmo quando as luzes se acenderam e as pessoas começaram a deixar a sala. Já não se importava que vissem que chorava e agora até se permitia emitir alguns sons abafados. Continuou chorando e sacudindo os ombros até que a senhora, a mesma que recolhia os bilhetes, tocou-lhe o braço e, ajudando-o a levantar, disse "nós vamos fechar agora". Ela apanhou a pasta que ele pusera sobre a cadeira ao lado e o acompanhou até a porta.
Ele continuava chorando.
A mulher se adiantou para abrir-lhe a porta e ele disse a si mesmo que deveria agradecer a gentileza daquela senhora, cujo vestido exalava um leve cheiro de naftalina quando ela se movimentava.
Mas não falou nada. Nem mesmo pensou muito naquilo. Porque a sua única vontade era de chorar. Nem olhou para a senhora. Pegou a pasta e limitou-se a sacudir a cabeça como se concordasse com alguma coisa ou como se tentasse um sorriso que não viria. Pegou a pasta e foi embora, chorando, e os ombros sendo sacudidos de quando em quando pelos soluços, que pareciam se intensificar.
Terra Magazine