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Quarta, 14 de maio de 2008, 07h44 Atualizada às 11h05

Diário de uma viagem ao Amazonas (IV)

José Cláudio
Do Recife

Hoje de manhã, dia 3, já às seis da manhã começou a rotina. Os meninos trazendo papa-ventos para vender a Paulo a cinqüenta centavos por cabeça. Os americanos trabalhando as rãs que pegaram ontem. O empregado do flutuante em que estamos abastecendo de óleo vendeu uma iaçá, em outros lugares chamada pitiú e em outros cambeva, que em tupi significa "cabeça chata". "Pitiú" é principalmente no Trombetas e significa "mau cheiro". É parecida com o tracajá, a cabeça um pouco mais larga, o desenho das placas do casco ligeiramente diferente, as do meio menosres. A pele embaixo mais amarelada. O americano ontem pegou uma cobrinha meio rara, alarnjada, cujo nome Vanzolini não sabe: disse que só quando botar embaixo do microscópio. "Pode ser um filhote de Tripanurgos", diz ele. Sugeri que levasse uma lata de querosene para troca, mas ele disse que não, que o povo fica pensando que é barco de assistência, que estamos trocando as coisas do governo, que trocou com um e por que não trocou com outro. Antigamente ainda arrancava dente, dava um remédio, mas agora que tem mais comunicação o máximo que faz num caso grave é dar antibiótico e mandar para a cidade mais próxima.

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O nome "Garbe" é do primeiro paulista a estudar a Amazônia. No Museu Paulista tem cabeças mumificadas ainda encontradas por ele entre os Mundurucu no princípio do século.

Vanzolini canta: "A umbigada que Sabino mandou dar".

Ronald, a comida que mais gosta é tartaruga na castanha e Míriam de espetinho de porco com molho de amendoim, chama-se "moo satay" e é da Tailândia. Mas a primeira coisa que responderm foi "ice cream".

Vanzolini canta: "Tu solo tu".

Vanzolini canta: "Olho da minha janela/ Rua Epitácio Pessoa/ Bairro chamado Lagoa/ Rio de Janeiro, GB". Eu disse: "Que letra arretada!" Ele: "Mas isso é de um grande poeta, é de Billy Blanco!" "É coisa para Manuel Bandeira". "Desculpe" - ele disse - "não quero parecer grosso nem original, mas eu acho Billy melhor".

O Santo Antônio da Amazônia é o boto, o olho do boto. Tira-se o olho dele, põe-se para secar e leva para uma mãe-de-santo benzer. Vanzolini informa que precisa ser de sexo certo, porque senão acontece como o americano que andava com uma fila de marinheiros atrás dele. Quando chega um boto no INPA as vitalinas ficam assanhadas.

O macho de qualquer bicho-de-casco d'água se chama capitari, e de jabuti, carumbé.

Ninguém gosta do boto porque tem pitiú e a carne derrete que vira água.

Vanzolini canta: "Perfídia". Em espanhol. "Solo tu" também foi em espanhol. E "Jalisco".

O boto tucuxi, o pretinho, bota a pessoa para a beira. O laranja ou vermelho é agressivo, só quer saber de comer.

Vanzolini e Chica foram ver um mágico e entraram, pensando que era o clube aonde ia se apresentar, em casa do promotor. O promotor ficou uma fera. Disse que esperasse no barco uma intimação. Hoje. O caso foi ontem de noite. Em lugar disso o prefeito, que não tinha entrado na história, mandou uma enorme tracajoa de presente para o "engenheiro", um homem veio trazer esta manhã. Eu disse: "Que beleza!" Ele me deu o casco, porque não era bicho da expedição. Há dois dias eu só faltei implorar para comprar um tracajá para ficar com o casco: ele não deixou. Eu também queria comprar uma bola de pele de borracha de seringueira, cheia de ar como bola de futebol, dura, perfeitamente esférica e quase do tamanho de basquete, que bastava soltar no chão, subia e batia no teto, toda inteiriça, sem pito. Essa não passa na alfândega. Ontem um menino estava com uma pequenininha, tamanho de uma laranja, que dava para esconder no bolso mas eu nem falei.

Qualquer criança joga uma tarrafa meio fechada, porque não tem força de jogar aberta, junto do trapiche e quando puxa vem peixe. Ontem um menino jogou, ou melhor, soltou a tarrafa, cuja boca não estava mais aberta do que um saco e quando levantou tinha seis peixes! O menor, de mais de palmo, aracu. Aracu e piau são o mesmo.

Vanzolini côa formol com um filtro Melita de coar café. Já o café é coado num saquinho de pano.

Vanzolini canta: "O facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio, eu falei pra baiana que o trem tá feio".

Vanzolini canta: "O facão guarani quebrou na ponta, quebrou no meio, eu falei pra baiana que o trem tá feio".

Quem nasce em Manaus é jaraqui, quem nasce em Manicoré é bacurau, quem nasce em Borba é camaleão, em Nova Olinda é ossada e em Itacoatiara, acari.

O tracajá que o prefeito mandou não era para Vanzolini e sim para o engenheiro que veio fiscalizar a estrada, cujo barco estava amarrado junto do nosso. Vanzolini à noite foi agradecer. O prefeito jogava baralho. Vanzolini chegou, deu boa-noite, ele não conheceu, disse "Pode dizer", Vanzolini disse "Eu vim agradecer o bicho-de-casco que o Sr. nos mandou..." Ele não entendeu, entendeu, se recompôs, Vanzolini conheceu, ele disse "De nada", Vanzolini perguntou se queria alguma coisa para Porto Velho, ele disse "Não. Boa vaigem".

Quanto ao promotor, bebe e toda noite faz uma cena. Não mandou intimação nenhuma e hoje de manhã saímos, quer dizer dois dias depois.

Filomeno matou a iaçá. Ovada. Para a mesa vieram quinze ovos já prontos para serem postos, com casca. É quase do comprimento do ovo de galinha mas a casca é mole e a clara não coagula, mesmo no ovo cozido continua líquida e o diâmetro é menor. O gosto é parecido com o da gema do ovo cozido de galinha mas é mais massento. Matou também a tracajá. Os machos são menores. Vanzolini disse que não têm massa cinzenta, logo não sentem dor. Mata-se cortando em baixo dos lados, ao comprido com o serrote. Nem se preocupam em cortar a cabeça, serram o bicho vivo. Eu passei a manhã limpando a cabeça, que Vanzolini, quando já havia tirdo uma parte d carne, mandou cozinhar e terminou de limpar e me botou para limpar o casco. O almoço foi iaçá, a carne, asada, e o sarapatel. Eu não acredito nessa história que o bicho não sente dor. Ele esperneia, tenta tirar o serrote com as patas, morde.

***

Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em abril de 2007.


José Cláudio é pintor, autor dos livros Meu pai não viu minha glória e Bem dentro. Reside em Olinda.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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