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Quinta, 15 de maio de 2008, 07h58

Marina cansou de colocar ordem no progresso

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Pois um dos meus amigos foi do alto escalão do Ibama por uns tempos, no primeiro governo Lula. Das nossas conversas ficou a sensação de que ele tinha o segundo pior emprego do mundo, e isto somente porque havia ao menos um pior do que o dele, e que até ontem pertencia à Marina Silva.

Marina Silva é daquelas pessoas tão raras que a gente deveria tombar (e por favor, não no sentido dado ao termo no interior do Pará). A gente deveria transformar a Marina em estátua e tratar como monumento nacional. Cuidar dela e oferecer a ela paz e tranqüilidade, em troca das suas falas iluminadas. (Como ninguém é perfeito, parece que a Marina se converteu a alguma religião fundamentalista e andava defendendo o lamentável criacionismo. Mas devemos amar as pessoas pelo conjunto da obra, esquisitices incluídas, ou como alguém iria gostar de mim, por exemplo?).

Essa seringueira maravilhosa e infelizmente contaminada por mercúrio construiu a sua trajetória de maneira tão pura e bela que merecia muito mais do que fenecer no seu emprego impossível, à frente de um ministério da impossibilidade, também chamado de Meio-Ambiente. Chamam de Meio, dão verba para algo como um décimo de ministério, e pedem a ele que mantenha o ambiente inteiro. Impossível, até mesmo pra Marina.

À frente do Ministério da Impossibilidade, Marina era, na verdade, um sistema de proteção para o governo. Um verdadeiro certificado de validade ambiental para uso no mundo lá fora. Agora mesmo eu estava lendo no Der Spiegel alemão uma matéria sobre ela, e como ela era a avalista do programa de etanol brasileiro. Vindo dela, eles acreditavam. Vindo do Mangabeira Unger, eles vão olhar pra aquele cara com jeito de almofadinha e sotaque de Cambridge e vão pensar, em bom alemão: hã?

Eu conheço ambientalistas e conheço alguns anti-ambientalistas (mesmo que no discurso todo mundo adore os pandas, a arara azul e o miquinho-leão). A maior diferença é que o lado ambientalista monopoliza a preocupação com o ambiente, por vezes de maneira romântica e excessiva; e o outro lado monopoliza a ausência de escrúpulos. Imaginem conversar sobre preservação com um kid motoserra no Mato Grosso, feliz em colocar abaixo o que houver, para ganhar nada ele mesmo e muito para o posseiro que o emprega, assim por dizer?

Porque o mais triste de boa parte da devastação de que a Marina tanto conhece é que ela oferece muito pouco a muitos, e muito a muito poucos. Basta olhar pro jeitão daqueles madeireiros no Pará e arrozeiros em Roraima pra ver que dali não pode sair coisa boa a não ser tiros em gente que tenta tornar a selva menos selvagem e não menos selva.

Eu sou um sulista típico, no momento vivendo no Norte, aqui em São Paulo. Reconheço que meus conhecimentos do Brasil são limitados a pouco do que acontece acima do Extremo Norte, que pra mim é ali, ao redor do Rio de Janeiro. Deve haver muito de preconceito no que falo, embora tema que a maior parte seja pós-conceito mesmo.

Gostaria de deixar a Amazônia quieta, fabricando oxigênio e sabonete Phebo e pouca coisa mais, noves fora a Vale do Rio Doce. O Brasil sobra. Para que ficar explorando o que não precisamos? Nossa riqueza, trocentos por cento dela, é produzida nos nossos campos que já são campos, nos pastos que vão virar campos, nas nossas cidades do Sul-Sudeste, no litoral do Nordeste e pronto. Poderíamos levar as coisas com mais calma e deixar o resto ser o que ele se propõe a ser. Reserva de algo que podemos nos dar ao luxo de deixar como reserva.

Marina Silva tentou dar ordem ao progresso e se desgastou até o limite. Ela olhou bem para o teto, imagino, pensou melhor, pensou na vida, na Dilma e no tal Mangabeira e pediu as contas. Sorte dela, azar o nosso.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que será publicado em setembro pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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