
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Pois um dos meus amigos foi do alto escalão do Ibama por uns tempos, no primeiro governo Lula. Das nossas conversas ficou a sensação de que ele tinha o segundo pior emprego do mundo, e isto somente porque havia ao menos um pior do que o dele, e que até ontem pertencia à Marina Silva.
Marina Silva é daquelas pessoas tão raras que a gente deveria tombar (e por favor, não no sentido dado ao termo no interior do Pará). A gente deveria transformar a Marina em estátua e tratar como monumento nacional. Cuidar dela e oferecer a ela paz e tranqüilidade, em troca das suas falas iluminadas. (Como ninguém é perfeito, parece que a Marina se converteu a alguma religião fundamentalista e andava defendendo o lamentável criacionismo. Mas devemos amar as pessoas pelo conjunto da obra, esquisitices incluídas, ou como alguém iria gostar de mim, por exemplo?).
Essa seringueira maravilhosa e infelizmente contaminada por mercúrio construiu a sua trajetória de maneira tão pura e bela que merecia muito mais do que fenecer no seu emprego impossível, à frente de um ministério da impossibilidade, também chamado de Meio-Ambiente. Chamam de Meio, dão verba para algo como um décimo de ministério, e pedem a ele que mantenha o ambiente inteiro. Impossível, até mesmo pra Marina.
À frente do Ministério da Impossibilidade, Marina era, na verdade, um sistema de proteção para o governo. Um verdadeiro certificado de validade ambiental para uso no mundo lá fora. Agora mesmo eu estava lendo no Der Spiegel alemão uma matéria sobre ela, e como ela era a avalista do programa de etanol brasileiro. Vindo dela, eles acreditavam. Vindo do Mangabeira Unger, eles vão olhar pra aquele cara com jeito de almofadinha e sotaque de Cambridge e vão pensar, em bom alemão: hã?
Eu conheço ambientalistas e conheço alguns anti-ambientalistas (mesmo que no discurso todo mundo adore os pandas, a arara azul e o miquinho-leão). A maior diferença é que o lado ambientalista monopoliza a preocupação com o ambiente, por vezes de maneira romântica e excessiva; e o outro lado monopoliza a ausência de escrúpulos. Imaginem conversar sobre preservação com um kid motoserra no Mato Grosso, feliz em colocar abaixo o que houver, para ganhar nada ele mesmo e muito para o posseiro que o emprega, assim por dizer?
Porque o mais triste de boa parte da devastação de que a Marina tanto conhece é que ela oferece muito pouco a muitos, e muito a muito poucos. Basta olhar pro jeitão daqueles madeireiros no Pará e arrozeiros em Roraima pra ver que dali não pode sair coisa boa a não ser tiros em gente que tenta tornar a selva menos selvagem e não menos selva.
Eu sou um sulista típico, no momento vivendo no Norte, aqui em São Paulo. Reconheço que meus conhecimentos do Brasil são limitados a pouco do que acontece acima do Extremo Norte, que pra mim é ali, ao redor do Rio de Janeiro. Deve haver muito de preconceito no que falo, embora tema que a maior parte seja pós-conceito mesmo.
Gostaria de deixar a Amazônia quieta, fabricando oxigênio e sabonete Phebo e pouca coisa mais, noves fora a Vale do Rio Doce. O Brasil sobra. Para que ficar explorando o que não precisamos? Nossa riqueza, trocentos por cento dela, é produzida nos nossos campos que já são campos, nos pastos que vão virar campos, nas nossas cidades do Sul-Sudeste, no litoral do Nordeste e pronto. Poderíamos levar as coisas com mais calma e deixar o resto ser o que ele se propõe a ser. Reserva de algo que podemos nos dar ao luxo de deixar como reserva.
Marina Silva tentou dar ordem ao progresso e se desgastou até o limite. Ela olhou bem para o teto, imagino, pensou melhor, pensou na vida, na Dilma e no tal Mangabeira e pediu as contas. Sorte dela, azar o nosso.
Terra Magazine