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Quinta, 15 de maio de 2008, 07h57

Erros básicos

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, disse coisas bem suspeitas em entrevista concedida em Lisboa sobre o acordo ortográfico no dia 09 de abril. Claro, sempre é bom levar em conta que reportagens publicam frases destacadas. Mesmo assim, pode-se apostar que algumas de suas opiniões são um pouco estranhas, que nenhum contexto as salvaria.

Por exemplo, diz que os portugueses "são mais cuidadosos com a língua". O que será mesmo ser cuidadoso com a língua? Preservar? Se é isso, Gil está enganado. É sabido que o português do Brasil, em termos gerais, é mais conservador - mais parecido com o português antigo, de Portugal - do que o falado hoje em Portugal. Se, ao contrário, ser cuidadoso é mudar mais, então eles poderiam aceitar mais facilmente as novas mudanças ortográficas.

Depois, Gil disse algo no mínimo enigmático: que o acordo ortográfico "é uma boa oportunidade para que a língua se resguarde relativamente aos impactos que vai sofrendo das outras línguas, aquelas que internacionalmente são mais dominantes". O que a ortografia pode fazer para preservar uma língua dos impactos de outras? Nada, nada mesmo. A ortografia pode preservar mais ou menos aspectos da história das palavras, ser mais ou menos fonológica ou fonética etc. Mas preservar uma língua dos impactos vindos de fora? Isso ela não consegue fazer.

Suponhamos que o impacto venha do inglês, ou do francês, ou do espanhol. Um novo acordo ortográfico será obviamente irrelevante neste particular, porque ou as novas palavras (impactantes?) serão grafadas após alguma adaptação inevitável (digamos, para simplificar, serão grafadas "em português") ou circularão na grafia original, como ocorre hoje com muitas. Em nenhum caso a reforma será relevante.

Mas suponhamos que se trate de palavras oriundas do chinês, ou do árabe: o argumento do ministro é ainda mais estranho, porque não resistiremos nem mais nem menos do que agora à grafia chinesa, que é impossível de ser incorporada à nossa e à qual, por isso, não é necessário resistir.

Mas ele disse mesmo barbaridade da grossa (hoje estou gentil...) quando se referiu a reformas anteriores, pelas quais já passou: "de alguma forma, desorganizaram todo o mundo referencial que acompanhava a linguagem do cotidiano, organizando-o de maneira diferente". O que será que é, para ele, o mundo referencial? Se for o que normalmente se considera como tal, nos estudos de semântica ou de filosofia da linguagem, a escrita não o altera em nada, nada mesmo. Continuamos nos referindo às mesmas coisas (ou a coisa nenhuma). Mas pode ser que "mundo referencial" seja apenas uma daquelas expressões meio ocas (no discurso dele) das quais ele gosta tanto, que repete pela sonoridade, e que os humoristas captam bem quando o imitam.

Disse mais. E, sejamos francos, foi ficando menos esperto à medida que mais falava: "É isso que vai voltar a acontecer. Interfere nas questões propriamente técnicas e formais da língua, como a acentuação ou a pontuação. Cria problemas novos, como o desaparecimento do trema. Os usuários da língua vão estranhar várias coisas, sobretudo as relacionadas com a sonoridade, a fonética da língua".

Será mesmo possível que Gil ache, do alto de sua cultura letrada, que, se o trema cair, a pronúncia das palavras vai mudar? Nunca imaginei que ele chegaria a tanto. Mas parece que chegou, ou quem chegou foi Caetano? Vejamos...

Segundo a matéria, Gil comentou que Caetano Veloso "fez críticas muito contundentes ao acordo em relação a questões de pontuação e acentuação. Ele acha que muitas confusões vão surgir, como, por exemplo, no caso da letra 'u' sem o trema. Na palavra distinguir, por exemplo, vamos ler ou não o 'u'?".

Gil concluiu as declarações dizendo que "é natural que, de tempos a tempos, os usuários da língua e, sobretudo os mais exigentes, requeiram uma necessária revisão ortográfica. Que implica também uma saudável revisão da fala".

As duas declarações finais merecem comentário à parte. Todo mundo sabe que ler não é ler as letras, soletrando. É claro que, em uma fase determinada do aprendizado do alfabeto, ou diante de uma palavra estranha, esse procedimento pode às vezes ocorrer.

Se uma criança (de qualquer idade) se depara com uma palavra como "delinqüente" - e se não a conhece - é bem possível que a soletre. E, se o trema cair, pode ser que ela leia (delinkente) e não (delinkuente). Mas também pode ser que ela não tenha aprendido o que vale um trema e erre a pronúncia da mesma sílaba ou de outra qualquer. Mas isso nada tem a ver com problemas que decorreriam da queda do trema. Tem a ver com letramento ou alfabetização deficiente.

Outro exemplo: de que adianta uma palavra como "fluido" não ter acento gráfico? Mesmo assim, quanta gente diz (fuído)? A verdade é que, na maior parte dos casos, lemos palavras que já conhecemos e as pronunciamos como se falássemos (e não como se lêssemos, no sentido de soletrar).

Quem lê nunca lê letra a letra, ou sílaba a sílaba. Quem lê vê as palavras quase como se fossem ideogramas. E quem não lê não vai ter no futuro mais dificuldades do que tem hoje ou do que teria com qualquer solução ortográfica. Você acha que quem fala "calipe" teria sua vida mais facilitada se a grafia fosse "eucalípito" em vez de "eucalipto"?

Gil e Caetano: por que até vocês confirmam que os intelectuais brasileiros não conseguem entender uma coisa tão básica como a relação ortográfica entre as letras e os sons?


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Lingüística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua e de Os limites do discurso.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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