Atualizada às 20h29 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Gentlemen of the Road, Michael Chabon. Nova York: Ballantine Books, 2007, 204 páginas. Capa-dura, ilustrado por Gary Gianni.
Michael Chabon é um premiado autor americano, cujo primeiro livro, Usina de Sonhos (The Mysteries of Pittsburg; 1988), lançado quando ele tinha apenas 25 anos, já foi publicado no Brasil com tradução der Lia Wyler. Um dos escritores mais prestigiosos de sua geração, recebeu com seu romance As Aventuras de Kavalier e Clay (The Amazing Adventures of Kavalier & Clay) o Prêmio Pulitzer 2001. Tratando das atividades de artistas e escritores judeus no mundo dos quadrinhos de super-herói, esse livro abriu o caminho para outras explorações literárias semelhantes, como Fortaleza da Solidão (The Fortress of Solitude; 2003), de Jonathan Lethem, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. De fato, o romance premiado de Chabon pode ter pavimentado o caminho para a vitória, na mesma premiação, de Junot Diaz com The Brief Wondrous Life of Oscar Wao (2007), romance que narra a vida de um fã de ficção científica descendentes de dominicanos vivendo nos Estados Unidos e que sonha em ser o Tolkien da República Dominicana.
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Em anos recentes Chabon vem se interessando pela literatura de gênero. Em 2003 ele organizou duas edições especiais da revista McSweeney: McSweene's Mammoth Treasury of Thrilling Tales, e em 2004, McSweeney's Enchanted Chamber of Astonishing Stories, ambas dedicadas a resgatar a importância da ficção de gênero, misturando autores mainstream com gente consagrada na literatura popular, como Stephen King, Elmore Leonard, Michael Moorcock e Michael Crichton, entre outros. A última realização do autor, no campo da ficção de gênero, é The Yiddish Policemen's Union (2007), que acaba de receber o Prêmio Nebula de Melhor Romance.
Gentlemen of the Road é outra investida nesse campo, tanto no conteúdo, quanto na forma - foi publicado como um seriado na The New York Times Magazine em 15 partes, recordando a era de ouro das revistas pulp, antes de ser impresso em livro.
Esse romance curto trai a influência de Fritz Leiber na dupla de heróis que apresenta, o gigante Amram, e o magriço franco (francês) Zelikman. O romance, porém, pertence ao gênero da aventura, pois não traz nenhum momento sobrenatural ou de magia, nem é ambientado num mundo secundário. A ação se dá na Kazária, Ásia Central, durante a alta idade média.
Abre com a dupla encenando um falso duelo para engabelar os caravaneiros da região. Situação similar aparece na HQ "O Círculo Maldito", em Fritz Leiber: Crônicas de Lankhmar: As Aventuras de Fafhrd & Gatuno. Mas um caravaneiro detecta a farsa e tenta recrutar os dois para escoltarem o temperamental e irrequieto príncipe Filaq até um porto seguro. Filaq é vítima de um usurpador do Império Kazaque, e, ao fim e ao cabo, Amram e Zelikman acabam presos a ele em seu retorno até a capital Atil, às margens do Mar Cáspio.
Onde Fafhrd era nórdico e ruivo, Amaram é africano e grisalho, e onde Gatuno era franzino e escuro, Zelikman é ainda mais franzino e pálido. Os dois são judeus, Amram um ex-soldado e mercenário de muitas campanhas, Zelikman um médico e cirurgião (Gatuno era adepto da magia), educado em Regenburg, na França.
Michael Moorcock também é influência, nessa obra, e o livro é dedicado a ele. Um aspecto típico de Moorcock - por exemplo, na série protagonizada pelo albino Elric (a brancura de Zelikman lembra o personagem) - é seu pendor para os anti-heróis. Sua narrativa é também mais violenta, e Chabon mistura uma certa comicidade herdada de Leiber, com o cinismo e a aspereza de Moorcock. A violência é mais explícita, a motivação dos heróis tende a ser mais venal.
O estilo é convoluto e de léxico precioso, mas Chabon foje do ritmo shakespeariano de Leiber e imprime a sua própria dicção. Nem sempre a sua aventura de capa e espada avança com facilidade, e ele tem o hábito desconcertante de separar duas míseras linhas de diálogo de um mesmo personagem por enormes inserções descritivas. Suas sentenças são de "fôlego comprido", como dizem os americanos, e delas freqüentemente emana um certo humor, pois o caminho tortuoso tende a desembocar em alguma observação irônica ou deslocada. A narrativa tende a progredir em cenas bem constituídas e relativamente estanques (uma estratégia de seriado?), o que implica sempre numa sensação de recomeço que também não a torna escorreita. Um ponto a favor dessa técnica está no fato de que ela permite uma apreciação melhor da composição original dessas cenas, com, por exemplo, o usurpador Buljan tramando a morte de Filiq cercado por sua esposa e filhos pequenos - ou em diversas situações envolvendo elefantes, que é um motivo central do livro.
Não há tanto calor humano em Amram e Zelikman quanto há em Fafhrd e Gatuno, nem o mesmo espírito brincalhão da literatura de Leiber. Há porém surpresas e reviravoltas, ação e feitos heróicos suficientes em Gentlemen of the Road para prender a atenção até o fim.
No posfácio, feito especialmente para essa edição, Chabon afirma que o conceito do livro surgiu em sua mente como "judeus com espadas", e certamente este seu exercício de ficção de gênero tem o caráter particular de investigar o judaísmo pelo viés da aventura, ao contrário da tendência intimista e existencialista comum na literatura judeo-americana mainstream. Nesse sentido, a caracterização sorumbática de Zelikman, o médico ascético, melancólico e virgem pode ser uma piscadela dirigida a essa outra literatura.
O livro é ilustrado por Gary Gianni, que apareceu bem recentemente no Brasil, ilustrando os dois volumes de Conan: O Cimério, lançados pela Conrad. Aqui suas artes são apenas em bico de pena, excelentes, econômicas e virtuosas no traço, na anatomia e na representação das paisagens. O livro todo, a propósito, busca emular aquelas edições ilustradas de antigamente, com direito a títulos e legendas em tinta vermelha.