
Atualizada às 15h30 Paulo Scott
De Santa Catarina
Estou em Santa Catarina, teclando num laptop, sem as familiaridades do lugar onde tradicionalmente escrevo.
Há pouco e usando uma conexão discada entrei na página do jornal Inglês Guardian, fui direto pra seção chamada Writers' rooms, onde a cada edição se escolhe um escritor em atividade e se publica uma foto do lugar onde ele trabalha, encaixando uma crônica de sua autoria sobre o seu espaço.
A idéia não é original. Experiência parecida já foi produzida pelo Eder Chiodetto (O lugar do escritor. São Paulo: Cosac Naify, 2003) que visitou trinta e seis escritores brasileiros, colhendo seus depoimentos e fotografando detalhes dos ambientes de trabalho.
É interessante a desmitificação (ou a mitificação ainda maior) que a revelação de um espaço privado pode causar. Sob certo aspecto tudo isso não passa de bisbilhotice, mas também é uma forma de incitar o corriqueiro, a normalidade num contexto mais amplo no qual a literatura ainda pertence só aos eleitos.
O fato é que, neste momento, estou necessitado do gabinete onde tradicionalmente escrevo, é de lá que melhor vejo o mundo (sei que é a ilusão do mirante, imprópria neste mundo virtual). De lá tenho a saudável sensação de estabelecimento, de ponto fixo, de permanência e constância no que produzo. Isso que, convenhamos, não é mais necessário, quase não existe.
Arquivos são estocados em outros lugares, informações são tiradas de outros lugares. Nada mais está aqui, de modo corpóreo na palma da mão (embora o mundo esteja à mão). Nós mesmos somos incorpóreos no second life, por exemplo.
Somos deuses e podemos estar imediatamente em qualquer lugar. Temos nossos próprios templos (nossos blogs, nossas comunidades, nossos álbuns de fotos, nossas pastas no youtube, no my space) e estamos à disposição de quem se disponha a nos idolatrar.
Os arquivos com os textos dos livros que estou escrevendo estão estocados em lugares onde posso acessá-los a qualquer momento. Estarei imediatamente diante deles se quiser. Então por que tenho a impressão de que, longe do meu gabinete, também estou longe do sofrimento do processo criativo (que parece ter ficado lá em Porto Alegre)?
Meu lugar é, portanto, este laptop, é onde quer que eu pare para ligá-lo à rede, e fica a ilusão de haver um lugar, o lugar, quando tragicamente temos todos.
Terra Magazine