
Atualizada às 22h19 Maria Alice Rocha
Do Recife
Coincidência ou não, dois eventos relacionados com a cadeia produtiva do jeans acontecem quase que simultaneamente em pólos globais. De um lado, tem-se o 7º Festival do Jeans de Toritama, cidade localizada a 170 quilômetros do Recife, em pleno agreste pernambucano. Do outro lado, o Denim by Première Vision, em Paris, França.
O que essas localidades têm em comum? Significativa participação nas decisões empresariais que se materializam na peça considerada como a mais democrática da roupas: a calça jeans. É certo que Toritama e Paris pertencem a diferentes contextos e atuam em âmbitos distintos nesse sistema.
Explicando melhor, a quase desconhecida Toritama surpreende. A sua participação na produção brasileira da moda jeans gira em torno de 16%, por meio de suas aproximadamente 2.500 microempresas, que ocupam mais de mais de 25 mil pessoas. De acordo com o Sebrae-PE, lá se produz 60 milhões de peças em jeans/ano, o que corresponde a um faturamento anual de R$ 453 milhões, colocando a localidade em segundo lugar nacional, perdendo apenas para a região do Brás, em São Paulo.
Somente para lembrar, a cadeia produtiva do jeans inclui não somente as empresas de confecções, mas também os fabricantes dos tecidos e aviamentos (zíperes, botões, linhas de costura, etc.), além do importante setor de lavanderia e os seus produtos químicos.
E nesse ponto, a Denim by Première Vision também compreende com clareza a grandeza dos números. Vale lembrar que a marca Première Vision é bem conhecida de quem trabalha com pesquisa de moda. Durante muito tempo, suas duas edições anuais em Paris têm sido a referência em termos de confirmação de tendências. Mais recentemente, e talvez como estratégia decorrente da globalização de mercados, tem ocorrido feiras e seminários da marca em cidades como Nova Iorque, Moscou, Xangai e Tóquio.
A segunda edição dedicada exclusivamente ao jeans promete oferecer uma possibilidade ímpar em conectar as principais direções da moda atual: a indústria e o artesanato, o ecologicamente correto com a tecnologia, e a imagem com o material.
E mais, o evento promete reunir as empresas Premium em nível mundial para o lançamento das tendências e coleções do setor para o Outono-Inverno 2009-10 (tendo como referência o hemisfério norte). Para tanto, 60 empresas de tecelagem, lavanderia, confecções e acessórios de 14 países já confirmaram a sua participação no evento, a se realizar na primeira semana de junho.
Voltando à Toritama, o 7º Festival do Jeans ocorre num dos maiores centros de confecções do Nordeste, com mais de 900 lojas: o Parque das Feiras. Quem já visitou as edições passadas confirma a previsão de o evento atrair um público em torno de 100 mil pessoas durante os seus oito dias de realização.
Mesmo com um formato mais frenético que a feira de Paris devido às caravanas de compradores de peças já confeccionadas, o evento em Pernambuco conta ainda com 30 stands para exposição de produtos de empresas de componentes têxteis e de software para automação comercial e industrial. Considerando a sede por moda e o poder de consumo da emergente classe C brasileira, as vendas deste ano devem facilmente bater novos recordes.
Se forem levadas em conta as distâncias que separam o glamur da feira parisiense com a diversidade de modelos ofertados na feira pernambucana, a tese do poder inerente ao jeans como roupa universal se confirma, inclusive transcendendo classes econômicas. Enquanto que em Paris o único participante brasileiro, a Vicunha, se apresenta como empresa européia, por meio de seu escritório na Suíça; em Toritama é raro encontrar uma marca com um nome regional, ou até, em português.
Na verdade, a palavra jeans é aceita e compreendida como uma calça feita de sarja nos quatro cantos do mundo. Só para lembrar, apesar de ser pronunciada no Brasil como "jins", ainda não há uma versão nacional para a sua escrita.
Terra Magazine