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Quinta, 22 de maio de 2008, 09h00 Atualizada às 19h23

O começo do fim da Amazônia peruana

José Carlos dos Reis Meirelles Jr./Reprodução
Índios ashaninka andam armados na região da Amazônia peruana. Segundo o sertanista José Meirelles Júnior, eles não podem mais subir o rio Amônea, com ...
Índios ashaninka andam armados na região da Amazônia peruana. Segundo o sertanista José Meirelles Júnior, eles "não podem mais subir o rio Amônea, com medo de serem mortos".

José Carlos dos Reis Meirelles Júnior*

Fui convidado pelos índios ashaninka do rio Amônea para participar de uma reunião na aldeia Sawawo, nas cabeceiras do Rio Amônea, em território peruano, praticamente a alguns metros além da linha de fronteira Brasil-Peru. Entre outras coisas seriam discutidas formas de desenvolvimento sustentável dos povos indígenas da fronteira, maneira delicada de dizer aos índios ashaninka do Peru para deixarem de explorar madeira em suas terras.

Já sabia de antemão da presença de madeireiras legais e ilegais explorando mogno nas cabeceiras dos rios Juruá, Envira, Purus e seus afluentes. Mas tudo de ruim que imaginava não chega nem perto da realidade. O que ocorre naquela região é um crime monumental contra a natureza, índios, fauna, além de um atestado da mais pura irracionalidade de como nós, civilizados, tratamos o mundo, casa de todos nós.

Vamos por partes:

1. A maioria das comunidades indígenas da Amazônia Peruana está envolvida com a exploração de madeira. De duas formas. Primeiro, cedem suas terras para um plano de manejo sustentável, em troca da regularização fundiária. O governo peruano reconhece as terras, mas não dá um tostão para regularizá-las. Os madeireiros fazem isso em troca de um plano de manejo. Segundo, são usados como mão-de-obra no serviço pesado da localização e corte da madeira.

2. Os madeireiros plantam comunidades indígenas em pontos estratégicos, solicitam o reconhecimento das terras e as regularizam "para os índios" com o plano de manejo imediatamente após. Tudo de acordo com as leis peruanas.

3. Existem muito poucas madeireiras legais na região, como a Venao, por exemplo, que faz exploração na comunidade Sawawo. Acontece que a maioria das madeireiras é ilegal. Como quase 100% da madeira é exportada e quem é ilegal não pode exportar, quem está comprando toda esta madeira? As madeireiras legais, que fazem um plano de manejo bonitinho em uma comunidade, obtêm certificação e exportam uma quantidade enorme de madeira certificada.

4. Além da madeira, os madeireiros ilegais exploram carne de caça e peixe, que são vendidos em Pucalpa. Toneladas de carne de caça, jabotis, couros e peixe, abastecem a cidade. O peixe é pescado com dinamite nas cabeceiras dos rios. Por lá, nada parece ser proibido.

5. Da aldeia Sawawo, como exemplo, vai-se de caminhão até Nova Itália, na beira do rio Ucayali, e de lá para Pucalpa. A região está toda cortada por "carreteras", o que facilita o transporte de madeira, caça e o que mais se quiser saquear.

6. É tamanha a retirada de madeira que os exploradores ilegais estavam roubando madeira do plano de manejo da aldeia Sawawo. Alguns ashaninka se reuniram e parece que mataram alguns "ilegales", que também eram índios. Agora vigiam sua aldeia com uma guarda armada 24 horas por dia, com medo de retaliação e não podem mais subir o rio Amônea, nas cabeceiras, para pescar, com medo de serem mortos.

7. Os índios da Amazônia Peruana estão metidos na exploração madeireira por pura falta de alternativa econômica e abandono do governo peruano. Estão sendo algozes deles mesmos. Os madeireiros são o Estado na região. Esta é a triste verdade.

8. As cabeceiras do Juruá, Purus e Envira, alem de abrigar várias comunidades indígenas conhecidas, abrigam, ou melhor, abrigavam vários povos indígenas isolados, que, em defesa de seu território, atacam os invasores e estão sendo sistematicamente mortos pelos madeireiros, que também são índios contratados e bem armados pelas firmas madeireiras.

9. Os povos isolados da região estão migrando para o território brasileiro, que na faixa de fronteira com o Peru é uma faixa contínua de áreas preservadas, a maioria terras indígenas. E do lado de cá, além dos índios contratados e dos moradores de reservas extrativistas, existem índios isolados. Os migrantes vão encontrar então os mesmos personagens do lado de cá que mataram seus parentes de onde vieram. Por não saber distinguí-los, vão atacá-los e vão sofrer retaliações. De novo índios vão matar índios.

10. No final do ano passado e início deste algumas agressões de grupos isolados a índios em território brasileiro já ocorreram. Além de ataques ao pessoal da Funai que cuida das terras dos isolados, no lado brasileiro.

11. O governo brasileiro e o governo peruano sabem de tudo isso, mas não movem uma palha ao menos para tentar solucionar a questão. Tudo fica nos protocolos de intenção, em atas de reuniões, em salas refrigeradas de encontros binacionais. Nada além disso.

Para que os europeus ou japoneses tenham seus móveis de madeira nobre e para que os norte-americanos enterrem seus mortos em caixões de mogno, uma das regiões mais belas e de maior biodiversidade da Amazônia se tornou violenta. Índios matam índios e a paz é uma lembrança distante. Naquela região estão as cabeceiras dos grandes tributários do Amazonas, os rios Juruá, Purus e Madeira (no Peru e Bolívia), nas terras firmes, que eram reservas intocadas até bem pouco tempo.

Senhor europeu, embutido em seu lindo móvel de mogno estão vários índios mortos.

Senhor japonês, em sua linda casa de madeira-de-lei vagam fantasmas de povos isolados que morreram sem saber o porquê.

Senhor norte-americano, em seu caixão de mogno, além do cadáver do seu querido familiar, estão sendo enterrados juntos outros tantos, de povos que não sabem da sua existência.

Quem sabe se a gente deixar de considerar "chic" um móvel de mogno, de imburana, de ipê, de cedro rosa... Deixar de fazer varandas com esteios de maçaranduba e não se escandalizar com uma mesa de plástico, um pedaço considerável da Amazônia ainda possa ser preservado e os índios que restaram possam recolher os sobreviventes, refazer suas vidas e ser de novo um povo feliz.

Está em suas mãos.

*O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles chefia a Frente de Proteção Etno-Ambiental do Rio Envira, mantida pela Funai na fronteira do Brasil com o Peru.

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