Terra Magazine

 

Sexta, 23 de maio de 2008, 09h23 Atualizada às 12h05

Como Meirelles matou índio em "situação dramática"

Altino Machado/Terra Magazine
O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que nos anos 80 viu-se obrigado a matar um índio isolado para salvar a vida do sogro.
O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que nos anos 80 viu-se obrigado a matar um índio isolado para salvar a vida do sogro.

Altino Machado
De Rio Branco (Acre)

O sertanista José Carlos Meirelles está há quase 40 anos trabalhando na Funai. Dono de um texto primoroso, em breve, tão logo seja demarcada a nova área dos índios isolados, pretende se aposentar. Vai deixar a tarefa de proteção ao casal de filhos que já atua em postos de fiscalização no Rio Envira e se dedicar a escrever um livro de memórias.

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Além de ter quase morrido por causa de uma flechada, o maior defensor dos índios isolados na fronteira Brasil-Peru viveu um drama no final dos anos 80. As circunstâncias o levaram a matar um índio desconhecido antes que assumisse a coordenação da proteção dos isolados no Acre.

Meirelles e sua equipe caminhavam numa praia do rio Iaco quando foram atacados. Durante a fuga, o sogro dele, um homem sexagenário, ficou para trás. Um índio isolado se aproximou e ia flechá-lo pelas costas, quando o sertanista apontou o rifle e atirou. O lema "morrer se preciso for, matar jamais", do marechal Cândido Mariano Rondon, não valeu naquela ocasião.

O sertanista fez um relatório do caso à direção da Funai, viveu anos em crise, mas conseguiu superá-la com um trabalho que já mereceu até premiação dos governos do Acre e do Brasil.

Leia a entrevista que José Reis Meirelles Jr. concedeu a Terra Magazine:

Terra Magazine - Como superou aquele episódio tão marcante?
José Meirelles -
Aquilo foi um acidente de percurso, quando eu ainda nem trabalhava com índio isolado. Posso dizer que não é uma coisa que a gente supera com facilidade porque é um acidente grave. Numa circunstância como aquela a racionalidade se perde e fica apenas o instinto de sobrevivência. Mas eu não nego e nunca neguei que fiz isso. O que aconteceu é de domínio público, pos fiz relatório do ocorrido.

Como foi naquele dia?
Aquilo foi uma loucura. Você imagina o que é ser se ver surpreendido e cercado por um monte de índios? Eu estava com o pai de minha ex-mulher, um senhor idoso. A gente não podia correr e deixá-lo sozinho. Com que cara eu iria voltar pra casa e dizer: "Mulher, deixei teu pai lá e os índios mataram ele"? Foi como conseguimos escapar. Após aquele fato, os índios ficaram mais afastados da gente. Eram índios Masko, um povo nômade que não costuma passar mais de uma semana num mesmo lugar. Eles andam pelas cabeceiras do Purus, do Envira e do Juruá.

Lembro que no relatório você fazia contraponto com o slogan "morrer se preciso for, matar jamais", do marechal Rondon.
Isso funciona muito na literatura, mas não sei se na realidade funciona. Pelo menos comigo não funcionou porque eu realmente preferi viver. E sobrevivi com uma certa dose de consciência, pois, se fosse uma pessoa qualquer, na situação que eu estava, poderia ter matado um monte de índios. Eu estava armado e apenas um morreu. Aquilo tinha que acontecer. Tanto que se não tivesse acontecido, eu não estaria aqui, agora, sendo entrevistado por você. Com certeza tem acontecido muita coisa semelhante dentro da floresta, mas as pessoas têm medo de contar. Quando se está numa frente isso não pode acontecer e isso hoje não acontece porque já sabemos onde estamos metidos. Já aconteceu dos isolados cercarem nosso acampamento e até de me flecharem, mas não reagi. Já flecharam meus peões e nenhum deles jamais reagiu. Só trabalha na Frente de Proteção Etnoambiental quem aceita não reagir na eventualidade de um ataque.

Para saber mais sobre o sertanista José Meirelles Reis, clique aqui.

 

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