
Atualizada às 15h15 João Carlos Salles
De Salvador
Yosuke Nakamura conseguiu voltar para casa. Repetiu seu nome e endereço (segundo uma reportagem, "insistentemente") para os policiais que o resgataram, e a repetição surtiu efeito. Deu informações oportunas para as pessoas certas, considerando-se que estava perdido. Para a polícia japonesa, foi fácil conferir que, de fato, há uma família Nakamura no endereço tão repetido, e também que tal família havia mesmo perdido um papagaio.
Por comovente que o seja, não fiquei lá muito impressionado com a história desse papagaio cinza. Tampouco acho que, além de oportuno, o comportamento de Yosuke seja um ato de fala, de sorte que possa ser considerado bem sucedido pelo reencontro de sua casa. Afinal, sua "família" o havia ensinado a repetir nome e endereço por cerca de dois anos - o que ele, portanto, já fazia fora de qualquer contexto.
Um significado não se determina apenas por seus resultados, como se travado por relações de causa e efeito. Assim, um soco no estômago que, pela dor, faça cessar uma fome não cifra o que desejávamos no início. Por outro lado, nenhum gesto pode determinar seu significado fora de um contexto, nunca decidindo sozinho seu sentido, como se pudéssemos ser senhores de nossas intenções sem que elas mesmas se reconhecessem no mundo.
Lembro-me bem de uma das figuras bizarras do quadro "Fora de série" apresentado pelo finado Flávio Cavalcanti, em um programa dos primórdios de nossa televisão. Tendo sobrevivido sem parte do cérebro, o infeliz decorara a lista telefônica do Estado de São Paulo para provar que era inteligente, apesar do vazio confirmado por radiografias. E se exibia dizendo nome e endereço da lista a partir do número, ou vice-versa. Mas, convenhamos, por mais que acertasse, apenas fracassava em seu propósito, não podendo haver gesto mais destituído de inteligência que o de decorar uma lista telefônica.
Estou adestrado o suficiente com nomes e endereços, mas pouco impressionado com a fala de papagaios, exceto pelo caso do papagaio de Olga. Não os conheci (Olga, uma tia-avó, e seu papagaio), pois creio que faleceram antes mesmo de eu ter nascido, mas conta a lenda familiar que tal papagaio supostamente falava de tudo. E todos se compraziam com seus gracejos, sendo exibido aos visitantes como ser falante, capaz de um número infreqüente de palavras.
Com tanto entusiasmo à sua volta, quero crer, o papagaio convenceu-se cada vez mais de que falava. Pedia comida, e lhe davam; chamava os ausentes, xingava os presentes, cantava, dizia impropérios, e todos se divertiam com isso... Mas talvez exatamente por jamais acreditarem no que ouviam. Ou seja, não estabeleciam com ele uma autêntica relação de comunicação, assim como não nos comunicamos com uma máquina, tendo pouco sentido pedir desculpas a um computador se digitamos algo errado.
O pobre papagaio, porém, sonhava ser gente. E em seu sonho, estando sozinho na cozinha, caiu em uma grande tina cheia d'água. Por longos minutos, todos em casa o ouviram gritar de seu vasto vocabulário o repetido "Socorro, Olga! Socorro, Olga!". Ninguém lhe deu atenção.
Se não é claro que o papagaio de Olga tenha falado alguma vez, falou certamente nesse único e derradeiro momento. Essa história familiar sim sempre me calou, como se fora similar ao ato incompleto do jovem monge que, em 1962, se imolou em protesto contra a guerra no Vietnã:
Contada com dor pelo marido de Olga (um tio a vida toda arrependido de ter furado os olhos de um porco em criança), ela sempre me serviu para mostrar como um ato de fala autêntico, ainda que isolado ou mal sucedido, pode ser mesmo impressionante.
Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br
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