
Atualizada às 14h38 Luciano Borges
De São Paulo

Foto: Associated Press
Madrugada de sexta-feira. O time já tinha deixado o campo da Vila Belmiro com a vitória por 1 a 0 sobre o América, do México. O resultado foi insuficiente para evitar a eliminação nas quartas-de-final da Copa Libertadores da América. No vestiário do Santos, Maurício Molina chorou.
Quem descreveu a cena foi o goleiro Fábio Costa. "Está todo mundo muito triste. O Molina chorou bastante. Está revoltado com o que fizeram com a gente", disse. O capitão santista se referia à reclamação dos atletas e do técnico Emerson Leão contra a arbitragem nos dois jogos contra o América.
Ainda no gramado, Molina reclamou de um pênalti sobre Kleber Pereira, não marcado pelo juiz uruguaio Jorge Larrionda. Depois, junto com os companheiros e com o técnico Leão, desabafou no vestiário.
Se servir de consolo, o treinador santista elogiou a atuação de Molina na partida. "Esta semana, precisei motivá-lo e ele respondeu. Molina esteve muito bem ontem", disse.
A boa notícia anima o jogador nascido em Medellin, na Colômbia, há 28 anos. Mauricio Alejandro Molina Uribe quer voltar à seleção de seu país.
Aos 19 anos, quando era atleta da equipe Envigado, ele começou uma passagem bem sucedida pela equipe Sub-20. Foi campeão no Torneio de Jovens de Toulon e do Campeonato Bolivariano.
Em 2001, participou da seleção colombiana que conquistou a Copa América. Foi titular da Colômbia na Copa de Ouro de 2004. A esta altura, já tinha sido vice-campeão da Libertadores, como atleta do Independiente Medellín e foi negociado com o Morelia, do México.
Nos últimos quatro anos, ele virou um nômade do futebol. Do México, se transferiu para o Al-Ain da Arábia Saudita. Voltou à América do Sul a convite do San Lorenzo, da Argentina. Em 2006, assinou contrato com o Olímpia do Paraguai e, na temporada passada, disputou o torneio da Sérvia pelo Estrela Vermelha.
Esse período tirou Molina da equipe nacional da Colômbia. No Santos desde o início da temporada, Mau Molina (como o nome está grafado na camisa) precisou convencer o treinador Leão de que era uma boa contratação.
Depois foi a vez de ganhar a torcida. Com gols (já marcou sete pelo Santos) e uma dose de garra, ele virou ídolo. Mesmo vestindo a camiseta número 21, ele é tratado como o 10 do Peixe. Canhoto e habilidoso, Molina já jogou com estiramento na coxa, com ferimento na testa e sem estar na melhor condição física.
Na conversa com Terra Magazine, ele fala da vontade de vestir outra vez a camisa da Colômbia e da dificuldade em agradar ao técnico Leão. Diz também que nunca jogou e treinou tanto quanto agora. Mas se recusou a fazer propaganda de seu futebol para o técnico Jorge Luis Pinto, que dirige o time colombiano nas eliminatórias (a Colômbia é quarta colocada com 8 pontos).
Terra Magazine - Há cinco anos você joga fora da Colômbia e passou por cinco equipes antes de chegar ao Santos. Estas mudanças atrapalharam sua permanência na seleção?
Molina - Acho que um pouco. Mas ainda participei das eliminatórias da Copa em 2003 e 2004, quando estava no Morelia, do México. Fui titular na Copa de Ouro. Depois sim, tive um pouco de dificuldade. Mas no Olímpia (Paraguai) e no Estrela Vermelha (Sérvia), eu fui titular e pude jogar.
Agora no Santos, você acha que ganha mais visibilidade?
Eu acho. O Santos é mais visto. É uma equipe com história muito grande, com importância internacional. A vitrine aumentou mais. Mas jogar na seleção depende muito do treinador da Colômbia (Jorge Luis Pinto).
O que você vem fazendo no Santos é divulgado em seu país?
Acho que sim. Minha mãe, Silvia, e meu irmão sempre conversam comigo sobre o que passa lá pela televisão e jornais. Sempre o que faço aqui é notícia na Colômbia.
Você quer voltar para a seleção?
Tenho muita vontade, desejo de jogar na seleção colombiana. Tenho uma história com a seleção sub-20 e um título da Copa América na equipe principal. Mas sei que preciso focar meu trabalho aqui no Santos. Se eu cair de rendimento, não vou jogar na seleção.
Quando você foi contratado, o técnico Emerson Leão deixou claro que não o conhecia bem. Vocês conversaram?
Quando cheguei aqui soube que ele tinha dito essas coisas. Mas ele me chamou no meio do campo, no primeiro treino, e disse o que pensava. Garantiu que se eu jogasse bem teria lugar no time dele. Creio que está tudo bem agora. Tenho jogado bem. Estou tranqüilo. Acho que posso ter um alto rendimento no Santos.
É difícil agradar ao técnico Leão?
Ele é sempre exigente. Mas é um futebolista que ganhou muita coisa. Fez isso como jogador e como treinador. Ele tem muito nome. Por isso exige alto rendimento. Vai ser sempre difícil cair na graça da torcida, do treinador. O futebol é assim. Por isso, estou tranqüilo, fazendo o meu melhor.
Antes do jogo contra o América, ele cobrou mais desempenho do Molina. Como você reagiu?
A gente conversou antes do jogo. Eu expliquei que ainda estava procurando a melhor forma física. Mas acredito que mostrei empenho contra o América. Uma pena que o Santos tenha sido eliminado por causa da arbitragem. Foram erros incríveis, terríveis, que nos tiraram a Libertadores.
No final da partida, o time do Santos foi aplaudido pela torcida. Foi o reconhecimento do esforço dos jogadores?
Para jogar a Libertadores tem que ser assim, com o coração quente. É uma competição difícil, principalmente nesta fase de confronto direto. Mas o que os árbitros fizeram foi terrível. O gol anulado do Kleber lá no México impediu nossa classificação.
Como você define seu modo de jogar?
Sou um meio do tipo clássico. Sou técnico, gosto de jogar sempre com a bola. E gosto de ir à área e fazer gols. Apesar de ser meia, gosto de marcar meus gols.
Aos 28 anos, você joga melhor do que jogava quando tinha 19 e já servia a seleção colombiana?
Estou mais experiente, mais tranqüilo. Isso ajuda a ser mais eficiente. Hoje sirvo mais os companheiros que estão em condições de fazer gols. Penso que posso fazer gols e dar assistências com mais precisão.
No jogo contra o Cucuta, no final da primeira fase, você ganhou o torcedor porque jogou com uma lesão e um corte. Isso combina com a imagem de um armador clássico?
É algo natural que faço. Tenho esta vontade de me entregar em campo. Era um momento muito importante para o clube, que corria o risco de ser eliminado da Libertadores. Comecei com uma lesão na coxa, mas quis ficar em campo. Depois sofri um corte na testa, mas isso não me incomodou. São coisas que acontecem em um jogo de futebol.
Você notou diferenças do futebol brasileiro para os mercados onde você já jogou?
É muito diferente. A carga de jogos aqui é alta. Você está sempre muito mais cansado do que em outro lugar. Diminui até o tempo para se passar com a família, porque jogamos domingo, quarta, quinta, sábado e domingo. Essa rotina deixa o jogador um pouco mais fatigado. Aqui no Santos, os treinos até variam para aliviar um pouco. Mas estou feliz de estar aqui.
O que você faz quando não está trabalhando?
Fico com minha família, vou ao cinema, a um centro comercial e, quando dá, vou à praia. É a primeira vez que moro numa cidade de praia. Minha mulher e meu filho estão muito contentes.
Qual o jogador brasileiro que você admira?
Ronaldo, o Fenômeno. Ele é um cara que, sozinho, ganha partidas. É um cara de grande potencial técnico, um definidor. Ele é determinante. Joga muito.
Ele anda numa fase turbulenta.
É, mas não quero falar sobre os problemas dele. Seria errado. Torço para que volte a jogar como sabe.
E qual o jogador colombiano que você admira?
Faustino Asprila e Valderrama. Eles jogaram na seleção colombiana. Sempre gostei deles.
Quais as chances da Colômbia conseguir uma vaga na Copa do Mundo de 2014?
Vai ser uma tarefa difícil. As eliminatórias são muito longas. Mas temos grandes possibilidades, com uma equipe renovada. Mas ainda falta bastante para sabermos quais as reais possibilidades da Colômbia. O time começou muito bem estas eliminatórias, não perdeu ainda e acho que deve melhorar na medida em que o tempo passar.
Se você pudesse "vender" o Molina para o técnico da seleção colombiana, o que você diria?
Não é desta forma que se faz. Acredito que o importante é jogar bem. O que faço no terreno de jogo é o único caminho para voltar à seleção. Vou seguir jogando aqui no Santos e, se for bem, posso despertar o interesse do treinador.
Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br
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