
Amilcar Bettega
De Paris
O dia amanhece em algum lugar entre Madrid e Barcelona. Sou acordado pelo sol, que já desponta acima da linha do horizonte, enorme e amarelo. A planície é extensa, um mar de terra onde a vista se perde. Sinto uma terrível vontade de tomar café. E uma luz pastosa invade a cabine do trem que rasga a Espanha ao meio.
Outra vez nas primeiras horas que seguem o amanhecer, o sol parece atrasado, confuso por trás de uma névoa estranha e avermelhada: a visibilidade é a mesma de uma manhã cristalina de outono no sul, mas o ar é excessivamente espesso. Avançamos em silêncio por uma estrada deserta, levantando um rastro de poeira à passagem do automóvel. Tudo em torno é cor de terra. Uma extensa paisagem cor de terra com sucessivas elevações povoadas por baobás gigantes que mais parecem fantasmas insones recém-saídos do ventre da noite africana.
O trem parece subir sempre, buscando vilarejos impossíveis. Lá embaixo o Douro é quase um fiapo. O resto são as vinhas encarapitadas na montanha, o sol e o calor descomunal de agosto. Alguma coisa nela - suas roupas, creio - indica que é dali, de um daqueles buracos de algumas dezenas de habitantes perdidos no meio das montanhas. A saia e uma blusa em tecido ordinário deixam adivinhar umas formas redondas e firmes. Ela tem duas pequenas manchas de suor abaixo dos seios, cujos mamilos se arrepiam sob a blusa.
Hora mágica na praça Djemaa el Fna, em Marrakech, o sol morre por trás de uma fumaça nervosa que se ergue das brasas que assam infinitos pedaços de carneiro espalhados sobre uma trempe de ferro. Uma música alucinante enlouquece as serpentes. A temperatura cai um pouco. E o sol se retarda, não vai, preso na fumaça.
Valparaíso se apresentou assim. De repente, do alto, a baía deserta sob um céu cinza e gelado e uma revoada de gaivotas a coroar a primeira visão do Pacífico. As várias colinas desabam em direção ao mar. Apenas as casas são coloridas.
Terra Magazine