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Quarta, 28 de maio de 2008, 08h02 Atualizada às 21h02

Diário de uma viagem ao Amazonas (V)

José Cláudio
Do Recife (PE)


Basco Pesqueiro no rio Madeira

06.11.75. Tivemos uma noite esplêndida, sem carapanãs. A felicidade é isto, uma noite com, outra sem mosquitos. Ontem ao escurecer atracamos numa margem baixa e lamacenta e foi a maior surra de mosquitos que levei em toda a minha vida. Os bichos parecia que tinham bico de aço. Entrei debaixo do chuveiro para tomar banho e bastava botar um braço de fora que levava ferroadas, quatro ou cinco de uma vez. Mordem por cima do corpo molhado, não tem problema. E como o dorso ou a bunda estava sempre fora do chuvisco, ou a barriga, era espetado de todo lado. Cobri-me e eles varavam o cobertor. Botei Autan, Repelex, mas não respeitavam, deviam ser suicidas e a cada ferroada certamente caíam mortos, ou mordiam e só depois é que iam embora por causa do remédio. Também não se importam que a gente se mexa, pegam e ficam colados, é preciso matá-los sempre. Tanger não adianta: ficam tentando até que você se canse e aí furam. Pingando de suor, era abrir uma pontinha do cobertor para respirar, e entravam em bando. Não dormi um minuto. Vanzolini disse que também não, quando cuidou da vida o mosquiteiro estava cheio. Da cintura até o toitiço nele era só calombo. A noite de ontem para hoje preparamo-nos para a batalha, porque o dia todo o barco estava cheio de carapanãs. Meio-dia, o sol tinindo, os bichos revoando em torno de nós e mordendo. Eu dava uma pincelada no quadro e uma rabanada com o pincel. O carapanã é a mesma muriçoca, sendo que mais preta e a picada mais pronta e mais queimativa. Hoje de noite o barco foi amarrado perto da terra firme, um barranco alto e enxuto, num pau no meio do rio. Os carapanãs surpresamente desembarcaram e a noite foi tranqüila. Já deviam estar de barriga cheia. Abrir a janela do camarotinho de proa, que é para onde Vanzolini me passou porque disse que lá junto deles eu fazia barulho demais. Não explicou que barulhos, acho que é porque eu ronco, não sei. Corria brisa agradável. Armei a rede e só acordei com dia claro, depois voltei para a rede até Vanzolini me acordar dizendo "Sete horas, o café está na mesa". Depois do café, Alonso, que estava no leme, me deu uma pequena aula de navegação, ele e Filomeno. Quando tem praia dum lado, o canal é do outro, perto do barranco. As ilhas formam ponta para baixo, a jusante. Nas curvas o canal quase sempre é por fora, mas pode ser rente. Quando tem redemunho perto do barranco pode ser pedra. O jantar ontem foi pirarucu. Assado em tabletes e desfiado, comprado em Novo Aripuanã. O quilo do pirarucu, doze cruzeiros. Uma galinha, vinte. Um pato grande, trinta.

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Vanzolini joga paciência, um tipo que quem ensinou foi Arnaldo.

Quando raspamos o fundo no lugar chamado Ganchos, Vanzolini estava dormindo e eu limpando o casco de tracajá que ele me deu. Ele pulou da rede e disse: "Encalhamos". Mas tinha sido só uma raspada. Mais adiante raspamos de novo. Os marinheiros desceram e o prático João, quando o barco saiu, ficou para trás, lá no meio do rio gritando desesperadamente "traz a canoa!" Estava com medo da arraia.

Vimos uma moça e uma meninazinha numa canoa. Vanzolini disse: "E vê quem está pilotando!" Era a menina. Cortaram a estria do barco que nem parecia. Ele disse que estava na ilha do Marajó, num lugar que não se via terra de nenhum lado, aí avistou duas crianças numa canoa. Aproximou o barco pensando que tinha acontecido alguma coisa. Era uma menina e um menino. "Que foi que houve? Estão perdidos por aqui?", perguntou. "Foi mãe que mandou a gente comprar café", um deles respondeu.


Mulheres na beira do rio Madeira. Novo Aripuanã, Amazonas

Vanzolini anda com um sapatinho de Maria Eugênia no bolso "porque Deus guia os passos dos inocentes". Falando de superstição, nenhum barco aceita passageiro para embarcar com um jabuti. Acho que é porque o bicho anda em terra de casco para cima. Não fazem restrições aos bichos-de-casco d'água.

Depois de grande chuva que fez sumir as margens, estamos chegando a Manicoré. Vanzolini canta: "Mas não demore que a outra pode lhe encontrar".

As únicas frutas que temos encontrado são melancia e limão.

Barco em perigo, qualquer Paraná é abrigo.

Noite ótima em Manicoré. Barranco firme, mais alto ainda talvez de que o de Novo Aripuanã. Alonso completou cinqüenta e dois anos. Tomamos algumas cervejas e jogamos uma partida de sinuca. Depois inventaram de procurar a zona. Andaram a noite toda, em cada pé um quilo de barro, e foram terminar a noite debaixo duma mangueira onde informaram que aparecia mulher. Finalmente de madrugada apareceu uma mas tinha vindo apanhar mangas.

Hoje no mercado de Manicoré tinha carne. Mataram um boi porque ia chegar uma deputada. Chica voltou irritada: dois quilos, da pior qualidade e mais dois de peles postos ostensivamente depois. Quem quiser saber o que é o Amazonas vá ao mercado, a começar pelo de Manaus, comprar carne. Nas outras cidades, nem se fala: falta tudo. Mesmo peixe, não é chegar e encontrar não. Parece que cada um pesca por si. Vanzolini disse que se acha a zona do seguinte modo. Pergunta-se onde é a casa do padre. Quando a pessoa ensina a gente se espanta: "Mas bem no meio da zona?" Aí a pessoa diz: "Não! A zona é ali!", e mostra.

Os meninos de Borba se encheram de pegar papa-vento, calango tamaqüaré, a quinhentos, isto é, cinqüenta centavos.

Ás vezes se encontra abacate. Isto é, encontramos em Borba.

Hoje de tarde tinha na mesa: refresco de maracujá, banana, maçã, abacate e melancia para quem quisesse merendar.

Chica pinta aquarela. Vanzolini joga paciência.

A cuia que eu comprei em Borba é pintada com esmalte. A verdadeira é curtida com mijo, fica pretinha da cor de preto-marfim sem perder a textura natural, como informou Vanzolini, e me lembro de ter visto: minha vó Mãe Joaquina tinha uma assim. Este verso do folheto "As proezas de João Grilo" criou outro relevo: "João Grilo disse: danou-se!/ Misericórdia, São Bento!/Com isto mamãe se dana/ Me mil e quinhentos/Essa coité, seu vigário/ É de mamãe mijar dentro!"

***

Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em abril de 2007.


José Cláudio é pintor, autor dos livros Meu pai não viu minha glória e Bem dentro. Reside em Olinda.

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