
Atualizada às 08h50 Deolinda Vilhena
De Santos (SP)
Sempre gostei de uma frase de Artaud que dizia que "não é necessário fazer teatro, é necessário ser o teatro". Ela tornou-se um pouco minha divisa e desde então, a cada vez que vou ao teatro tento identificar se os que fazem o espetáculo "fazem teatro" ou "são o teatro". Na maioria das vezes eles não fazem e nem são teatro, nada além do mais puro divertissement, indústria do entretenimento, transformando os teatros em verdadeiros "espaços de inutilidade pública".
Veja também:
» Fotos do Amok Teatro 
» "O Dragão": outro olhar sobre Israel-Palestina
Mas às vezes o milagre do teatro acontece como aconteceu numa noite, há quase dez anos, quando assisti "Cartas de Rodez" (1998), direção de Ana Teixeira com Stéphane Brodt vivendo justamente Antonin Artaud, no teatro do SESC-Santos.
Foi em Santos - meu eterno porto de espera - que encontrei pela primeira vez a diretora paulista Ana Teixeira e o ator francês Stephan Brodt. A dupla se conheceu na Escola de Etienne Decroux, em 1989. Casaram-se. E da união nasceram o Amok Teatro e a Joana!
Na época da vinda a Santos, Ana estava gravídissima e muito me impressionou a força daquela mulher miúda. A vida que trazia no ventre não a impedia, pelo contrário, a impulsionava, a dar os últimos retoques no outro filho, o espetáculo brilhantemente concebido e que deu a dupla os primeiros de uma série de mais do que merecidos prêmios.
Após o espetáculo jantei com eles numa cantina italiana, em companhia da então diretora da Aliança Francesa local, Irène Kirsch, responsável pela vinda do espetáculo a esse porto não tão afeito ao bom teatro.
Graças a esse encontro, além de ter visto um dos mais emocionantes trabalhos de ator que vi na minha vida, consegui com Stéphane o vídeo de "Au Soleil même la nuit", registro dos ensaios da montagem de "Tartufo" de Molière pelo Théâtre du Soleil que me permitiu realizar um trabalho bem interessante para a disciplina do meu amigo Vendramini (na época eu cursava meu mestrado no Departamento de Artes cênicas da USP) e foi o empurrão que faltava para a escolha do tema do meu futuro doutorado. Nem Ana, nem Stéphane sabem o quanto a vinda deles a Santos foi decisiva na minha vida.
Naquela época fiz ainda um trabalho sobre "Cartas de Rodez" para a disciplina "Os espaços inusitados do espetáculo teatral", ministrada por Clóvis Garcia e tive a oportunidade de entrevistar Ana e Stéphane.
Relendo essa entrevista, até hoje inédita, concluo que Ana e Stéphane fazem parte daquela turma - da Ariane Mnouchkine, do Chico Buarque, do Antônio Araújo - que conjuga ética com excelência artística e coerência na vida e na arte...
Quando perguntei porque a escolha de criar "Cartas de Rodez" fora do edíficio teatral - a estréia foi no Pinel no Rio - vejam a resposta da dupla:
"Inicialmente pensamos em fazer a instalação dentro de um teatro, provavelmente em grandes palcos, que pudessem comportar as dimensões desta estrutura cênica. Mas as dificuldades que encontramos em dialogar com os administradores dos teatros, a falta de interesse pelo projeto, o pouco interesse comercial que sugeria o espetáculo, nos levou a perceber rapidamente que seria melhor abordar outros lugares. Temos a impressão que a questão não é o teatro enquanto edifício que impede o Teatro de existir. É a sua estrutura rígida e imutável, seu aspecto comercial, seu caráter de espaço isolado da sociedade e de divertimento burguês que fazem destes lugares 'espaços de inutilidade pública' e vazios de sentido e de cerimonial.
" Já os espaços alternativos são muito ricos pois o fato mesmo de fazer de um hospital, de um museu, de um galpão ou de uma velha fábrica um espaço teatral significa, de um lado, redimensionar os espaços urbanos e por outro lado, o próprio teatro. Jean Genet dizia que os espetáculos deveriam ser encenados nos cemitérios, pois isto faria com que a morte fosse mais leve e o teatro mais grave. Mas acreditamos também na possibilidade de subverter a ordem do teatro: apresentar nos camarins, no foyer, nos porões ou através de uma estrutura cênica que surpreenda o teatro (por exemplo, fazer um espetáculo 'intimista' em um teatro com capacidade para 800 espectadores, fazer teatro de arena sobre um palco italiano, ignorar o palco e colocar a ação somente na platéia, perto do público, etc)"
Insisti na questão e perguntei: se houve uma opção consciente pelo espaço inusitado. Se houve também uma opção por um teatro não comercial. Esta é uma filosofia de trabalho ou apenas um momento do trabalho de vocês? A resposta veio na lata: "esta é uma filosofia radical de nosso trabalho."
Fundamental ver que, dez anos, cinco espetáculos e diversos prêmios depois eles seguem firmes. Talvez porque a gastar em futilidade o dinheiro dos prêmios recebidos eles prefiram usá-lo para comprar um casarão antigo na rua das Palmeiras, em Botafogo, sede do Amok. Eles sabem que uma trupe que tem seu espaço garante a continuidade de seu trabalho. Como Mnouchkine eles sabem que "ter um abrigo significa poder experimentar, formar, pesquisar, sem compromisso com prazos ou imposições do mercado. Significa constituir um acervo, uma história, um percurso."
Talvez porque eles mantenham-se fiéis à teatralidade da companhia nascida do encontro de Etienne Decroux e de Antonin Artaud. Talvez porque como eles, Ana e Stéphane recusem o teatro comercial e digestivo e porque eles sabem que não podemos pensar em vida de companhia sem levar em conta o projeto ético do grupo.
Leia continuação da coluna aqui.
Terra Magazine