Atualizada às 22h38 |
Getty Images/Reprodução
Osvaldo Ardiles, campeão do mundo pela seleção argentina em 1978, diz que devolveria sua medalha se fosse comprovado suborno em partida contra o Peru
|
Ezequiel Fernández Moores e Christian Rémoli
De Buenos Aires
Osvaldo Ardiles, um dos campeões mundiais com a seleção da Argentina em 1978, não sabia da possível realização da "Outra Final", partida que irá relembrar o trigésimo aniversário da Copa do Mundo vencida pela seleção dirigida por César Luis Menotti, na qual participaram algumas vitimas da sangrenta ditadura militar que assolava o país naqueles anos. De qualquer forma, ao ficar sabendo do evento por meio de Terra Magazine, aprovou a iniciativa.
Ardiles esclareceu que ainda não sabe "absolutamente nada" sobre a partida que organismos de direitos humanos realizarão no próximo dia 29 de junho no estádio do River Plate, cenário da final da Copa de 78, para manter viva a memória das vitimas da ditadura. "Continuo sentindo pena pelo fato de que o lado político ofuscou a vitória esportiva", disse Ardiles a Terra Magazine. O ex-jogador do Huracán (clube argentino, de Buenos Aires) e do Tottenham Hotspur inglês foi o membro do plantel com a visão mais crítica sobre a utilização que a ditadura fez da conquista da Copa de 78 a fim de ocultar graves violações aos direitos humanos e o seqüestro e desaparecimento de milhares de cidadãos.
A seguir, a entrevista com Osvaldo Ardiles, na qual ele falou também de seu novo trabalho como treinador do Cerro Porteño, um dos clubes mais populares do futebol paraguaio, que recentementa venceu o clássico contra o Olímpia.
Terra Magazine - Como você se vê num futebol que lhe é tão alheio como o paraguaio?
Osvaldo Ardiles - Muito bem. Faz pouco tempo que comecei. Embora seja uma vida bem diferente, me tratam maravilhosamente bem. Estou muito satisfeito.
Chegou ao Paraguai numa época de mudanças. Como encontrou o país?
A mudança ainda não foi sentida. O presidente Fernando Lugo ainda não assumiu plenamente, mas preferiria não me meter nesses assuntos que na verdade não conheço a fundo.
Futebolisticamente, o que você encontrou?
As pessoas têm um grande entusiasmo pois estão em primeiro lugar nas Eliminatórias, tudo está indo muito bem para eles... O que vejo no Paraguai é o mesmo problema que vejo na Argentina: os melhores jogadores estão no exterior. Por outro lado, nota-se muito a influência argentina aqui. Boa parte dos jogadores que fazem a difere nesse futebol são argentinos. Eu vim com a idéia de que havia brasileiros e jogadores de outros países, mas estava enganado, é tudo dos argentinos.
O que o motiva a mudar-se para dirigir um clube e não estar vivendo num lugar tranqüilo d Inglaterra com sua família?
De fato gostaria de estar com a minha família, mas não posso ficar quieto e apenas desfrutando do que consegui. Quando estou na Inglaterra comento alguns jogos para a TV, mas não gosto de ser um espectador das coisas, gosto de ser o ator. Me apareceu esta oportunidade e pensei muito. Podia ter esperado um pouco mais, mas decidi vir para o Paraguai.
Os jogadores o conhecem por ser o ex-técnico do Racing e do Huracán ou por ter sido campeão do mundo com a Argentina e ídolo do futebol inglês?
Os jogadores que tenho nem haviam nascido em 78, com isso te respondo a pergunta. Não têm muita idéia de quem sou. De qualquer forma, o futebol é igual de todos os lados. EU trabalho para impôs minhas idéias e vamos nos entendendo. Estamos muito satisfeitos por ter vencido o clássico contra o Olímpia, mas não temos chances no campeonato. A meta é nos reforçarmos bem para o ano que vem, ganhar o campeonato e ir para a Taça Libertadores, que é nosso objetivo máximo.
Vai jogar a "Outra Final" quando se complete 30 anos da conquista da Copa do Mundo?
Que é isso?
Uma iniciativa do Instituto de Espaço para a Memória (IEM) da Argentina organiza um jogo entre alguns jogadores campeões do mundo em 1978, jogadores atuais, famosos e filos de desaparecidos, em memória às vitimas do terrorismo do Estado. Estava sabendo?
Não, não sabia de nada.
E o que acha da idéia?
Me parece uma boa iniciativa.
E iria jogar se o convidassem?
Sim. Embora tivesse que ver bem como é a idéia e me interar um pouco mais.
Qual sua opinião sobre a aproximação entre jogadores e organismos de Direitos Humanos?
O que acontece é que depois de 30 anos tudo se confunde um pouco. Para nós, a lembrança continua sendo incrivelmente mágica, incrivelmente linda, para gente foi o máximo. Infelizmente, tudo foi muito politizado e nós, os jogadores e a comissão técnica, nunca tivemos a chance de festejar como deveríamos essa etapa. O que aconteceu no país é algo que não tinha nada a ver com a gente. Então, sinto um pouco de pena que se misture tudo. Repito, do ponto de vista pessoal continua sendo uma lembrança maravilhosa, foi uma conquista incrível e estamos orgulhosos disso. É esse o meu sentimento e presumo que seja o de todo os meus companheiros.
Há cinco anos, o senhor declarou que devolveria a medalha que ganhou na Copa do Mundo se fosse comprovado o suborno ao Peru. (A vitória de 6 a 0 da Argentina sobre o Peru teria sido comprada). Não arriscou demais tendo declarado isso?
Não, é o que eu sinto.
» Seleção de Zâmbia volta ao local de tragédia para ser campeã
» Elogiada pela Fifa, Rússia não cogita substituir Brasil em 2014
» Joel Santana inicia 15ª passagem por clubes grandes do Rio