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Sexta, 30 de maio de 2008, 07h51 Atualizada às 09h13

"O dragão": outro olhar sobre Israel-Palestina

Deolinda Vilhena
De Santos (SP)

A mais recente criação do Amok chama-se "O dragão", uma peça que em lugar de debater a guerra interminável entre os palestinos e os israelenses, apresenta o problema pelo ponto de vista do sofrimento humano, carregado de imensa carga emocional por meio de uma coletânea de depoimentos de quem viveu essa guerra dentro dos territórios em litígio.

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Foram oito meses de pesquisa e trabalho corporal. No Amok, a preparação requintada do elenco é ponto de honra e a relação entre pesquisa teatral e arte do ator é pressuposto básico. Afinal, segundo a diretora "o Amok é um grupo que forma atores" e existe na base do trabalho "a preocupação de transmitir nossa técnica aos jovens".

Isso explica a necessidade do longo processo de pesquisa. Em recente entrevista, Ana Teixeira diz: "precisamos nos dar o tempo do erro. É como Picasso, que fazia um esboço e ficava pintando e consertando por cima. A pergunta não é o que nós vamos fazer da obra, mas o que a obra vai fazer de nós". Uma vez, nas minhas inúmeras pesquisas, li uma declaração de Ariane Mnouchkine onde ela dizia a mesma coisa, Copeau dizia o mesmo... Ou seja Ana descende de uma linhagem mais do que nobre.

A idéia de "O dragão" surgiu em 2006 durante o Encontro Mundial de Artes Cênicas (Ecum), do qual Ana Teixeira é uma das curadoras. O tema do Ecum na época, "O teatro em tempos de guerra", era uma tentativa de repensar o papel do teatro e qual sua importância diante das transformações do século 21.

"O dragão" marca o reencontro com Carlos Bernardo - músico que já havia trabalhado com o Amok - e o encontro com Fabiana de Mello e Souza, ambos ex-integrantes do Théâtre du Soleil, que dispensa apresentações.

As críticas, mais uma vez, rasgam elogios, seja ao trabalho dos atores, com destaque para Stéphane: "um ator no domínio de seus melhores instrumentos" seja para o espetáculo "a cena final, com o israelense tocando cello e o palestino tambor, numa pungente sonoridade complementar, é arrebatadora. O contraponto entre reflexão e emoção - o verdadeiro jogo de "O dragão", que evita "tomar partido" de qualquer um dos lados - é dado pelos quadros que se armam para "desvendar" a engenharia teatral e desarmam para retratar sentimentos explodidos."

Não sei se há algum estudo acadêmico sobre o trabalho do Amok, mas quem o fizer encontrará na fortuna crítica da companhia um importante elemento de pesquisa, além de uma leitura coerente com os espetáculos criados pelo grupo cujo depuramento artesanal transforma a beleza em elemento decisivo para ampliar a comunicação e, ainda, em poderoso instrumento de reflexão.

Dez anos depois reencontro Ana Teixeira em Belo Horizonte, em março desse ano, mais uma vez no Ecum...uma reunião básica, composta de sonhos e projetos que transformados em realidade serão um alento aos que, como ela, ainda fazem teatro graças ao "espírito da perseverança. À convicção de que defender um certo tipo de teatro de grupo é uma forma de resistência contra a degradação do ser humano."

Impossível não me lembrar da estréia de "Cartas de Rodez". Guradei uma crítica do Lionel Fischer, publicada na Tribuna da Imprensa na qual ele dizia : "Trata-se, sob todos os pontos de vista, de uma montagem irretocável e que nos leva a acreditar que estamos diante de uma encenadora com belíssima trajetória a sua frente".

E, penso comigo, bela previsão. Ana ganhou o Prêmio Shell de melhor direção com o espetáculo, mas mais do que isso construiu a belíssima trajetória da previsão do Lionel. Quanto a Stéphane Brodt, disse dele Macksen Luiz no Jornal do Brasil : "o público carioca tem a rara oportunidade de ver em cena um ator, na plena acepção do termo. Possuidor de vastíssimos recursos, tanto vocais como corporais, Brodt os utiliza não como veículos para mera exibição de virtuosismo, mas sempre buscando materializar os conteúdos propostos. E se a isso tudo somarmos uma impressionante capacidade de entrega, o resultado só poderia ser uma atuação que o espectador jamais esquecerá. Simplesmente imperdível."

Stéphane ganhou o Prêmio Shell de Melhor ator, por seu magnífico Artaud... Acho que foi a primeira e única vez que um ator estrangeiro, recém-chegado no Brasil ganhou um prêmio dessa envergadura. É verdade que minha adorada Jacqueline Laurence ganhou quatro vezes o prêmio Molière mas ela não conta, afinal chegou ao Brasil em 1950.

Ana Teixeira e Stéphane Brodt, que dupla!

Por tudo isso sinto muito ainda não ter ido ao Rio de Janeiro ver "O dragão", o que não me impede de indicá-lo de olhos fechados aos que podem bater ponto esse final de semana e no próximo no Teatro Nelson Rodrigues. De quebra ainda rola uma mini-retrospectiva festiva.

Nesses tempos bicudos, em que começo meus dias com notícias do tipo "o MinC bate no show business mas quem leva a pior são os pequenos produtores. O Centro Cultural Banco do Brasil já admite fazer readequações em sua programação por conta de problemas na aprovação de projetos na Lei Rouanet. A Petrobras ameaça cancelar cerca de 30 projetos selecionados por edital até 31 de maio se estes não aprovarem seus projetos; empresas privadas reavaliam estratégias e pensam em abolir editais por causa da insegurança jurídica provocada pela má gestão do MinC e pela operação tartaruga da Funarte", tenho mais é que dar os parabéns a turma do Amok. Verdadeira lição de vida. Porque eles tiram leite de pedra para poder fazer o teatro que fazem num país como o Brasil. A Ana eu até entendo, afinal ela é brasileira, mas o Stéphane é parisiense, nasceu no país que mais investe em Cultura no mundo, onde desde Luís XIV a cultura é um negócio de Estado e veio se meter por aqui. O que o amor não faz!

Quanto a mim, só resta agradecer. Obrigada por essa devoção sacerdotal. Obrigada pela paixão e pela disciplina. Obrigada por esse modo de encarar o fazer teatral com uma dedicação digna da mais fina ourivesaria.

Desejo a Ana, ao Stéphane e ao Amok longa vida. Espero merecer estar ao lado dessa turma no próximo espetáculo. Pois acabo de decidir que quando eu crescer quero trabalhar no Amok!

SERVIÇO:
Mini-retrospectiva do Amok Teatro de 29 de maio a 8 de junho: "Cartas de Rodez", monólogo baseado nas cartas escritas por Antonin Artaud a seu psiquiatra, doutor Ferdière, durante o período em que esteve internado no manicômio de Rodez (60min). "Savina » (2006) é um drama que se serve dos costumes e da cultura ciganos (80min). "O Dragão" (2008), enfoca o conflito árabe-israelense (80min). Maiores informações:

Teatro Nelson Rodrigues
Endereço: Av. República do Chile ,230
Bairro: Centro
Telefone: (21) 2262-0942


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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