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Sábado, 31 de maio de 2008, 07h52 Atualizada às 07h28

Um velho herói, que ainda dá no couro

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull). Dirigido por Steven Spielberg. Produção de George Lucas, Frank Marshal & Kathleen Kennedy, e Denis L. Stewart. Escrito por David Koepp, com argumetno de George Lucas & Jeff Nathanson. Lucasfilm/Paramount Pictures. EUA, 2008. 124 minutos. Com Harrison Ford, Cate Blanchet, Karen Allen, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent e Shia LaBeouf.

O quarto filme da série "Indiana Jones", realizado quase 20 anos depois do terceiro, abre com um hot rod com quatro garotos dentro correndo no meio do deserto, depois disputando um racha com um Ford à testa de um comboio militar.

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A imagem da charanga envenenada caracteriza de pronto o contexto do pós-guerra, quando os primeiros filmes ambientavam-se nos anos derradeiros da década de 1930. É o ano de 1957, e o hot rod não é apenas um elemento de caracterização temporal, mas uma ligação de George Lucas, produtor e argumentista, com sua própria história pessoal, já que seu primeiro grande sucesso, Loucuras de Verão (American Graffiti; 1973), foi um filme sobre a cultura dos hot rods e street machines.

O destino do comboio, ficamos sabendo, é uma vasta instalação militar no meio do deserto. Os militares não são o que aparentam, e depois de ganharem acesso à base, abrem o porta-malas do Ford para retirarem lá de dentro o herói que o mundo conheceu primeiro com Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida (Indiana Jones and the Raiders of the Lost Ark; 1981). A tomada que o apresenta mostra apenas da sua silhueta contra a lateral do Ford, colocando o famoso chapéu (fabricado em Campinas-SP), na cabeça. Tomada típica dos filmes das décadas de 30 e 40, especialmente os seriados de matinês, que a série homenageia.

Por sua vez, as ações no interior de um imenso hangar começam uma série de referências que apontam mais para o diretor Steven Spielberg, e seu uso da mitologia ufológica mundial e da mania de conspirações internacionais. Referências a Roswell, Hangar 51, lutas paranormais, discos-voadores, cidades perdidas e deuses astronautas se encadeiam. No meio do caminho, o Dr. Henry Jones Junior (Harrison Ford), professor de arqueologia e aventureiro internacional, conhece o jovem motoqueiro "Mutt" Williams (Shia LaBeouf), que o informa do desaparecimento de seu amigo, o Prof. Oxley (John Hurt), e de sua mãe, Marion Ravenwood (Karen Allen). Depois de uma movimentadíssima perseguição que começa num bar e termina na cidade universitária, a dupla recém-formada vai para o Peru, na pista dos dois, e terminam nas selvas amazônicas do Brasil.

O filme tenta ajustar o envelhecimento dos atores à linha histórica da narrativa. Há um reencontro - e a chance de finalizar negócios há muito não resolvidos. Também desse modo, enquanto os vilões de Caçadores da Arca Perdida eram os nazistas em ascensão na Europa, em busca de segredos místicos para aumentar seu poder, os vilões de Reino da Caverna de Cristal são agentes soviéticos (liderados por uma Cate Blanchet de olhos estalados e acentuado sotaque ucraniano) atrás de tecnologias alienígenas que lhes dessem vantagem na suposta corrida paranormal que teria envolvido as duas superpotências, durante a Guerra Fria. O fato do herói ter perdido seu emprego acadêmico por causa da perseguição do FBI (uma linha de enredo que desaparece rapidamente) permite um comentário sobre a paranóia macartista da década de 50 - e talvez um aceno dirigido à situação atual nos EUA da Era Bush... Evocações da tecnologia daquela década também aparecem - em um teste de artefato nuclear, e num trenó-foguete do qual o herói (e um dos vilões) escapa miraculosamente livre dos efeitos de 40 Gs de força.

Esse, a propósito, é apenas um dos exageros que o filme apresenta e que, ao fim e ao cabo, terminam por minar o envolvimento do espectador com a aventura. Levaram os escritores Howard Waldrop & Lawrence Person, em sua resenha do filme em http://www.locusmag.com/2008/WaldropPerson_IndianaJones.html: "Essa gente nunca se esfola?" Uma pergunta que sublinha o contraste marcante entre as situações deste filme, e aquela cena de Caçadores da Arca Perdida em que Marion tenta expressar sua gratidão ao herói, mas não consegue encontrar nele um ponto não dolorido para beijar.

Talvez o fato de se ter dublês realizando proezas reais, como nos primeiros filmes, lembre os realizadores que freqüentemente há dor envolvida nas filmagens, enquanto a atual tendência de se filmar tudo em tela azul (ou verde) e depois inserir espaços e efeitos gerados por computador os livre dessa constatação, enfraquecendo o realismo. E também enfraquecendo a interação entre os atores, aparentemente entediados ao descerem os sucessivos lances de cachoeira em Cataratas do Iguaçú, nos quais se pressente as atrações do novo parque temático dedicado ao herói - ou os estágios do novo videogame.

Harrison Ford está bem, como de hábito, mas há instantes em que ele mesmo não parece acreditar muito na invulnerabilidade do herói que representa - afinal, o ator já tem 66 anos e deve estar muito ciente das suas limitações. Shia LeBeoulf se esforça para não parecer apenas o sidekick do herói, e Karen Allen pelo jeito saiu da aposentadoria para não trazer nada de especial ao papel. John Hurt está ótimo como o insano Oxley. O filme, com todas as falhas que se possa apontar, não deixa de empolgar em alguns momentos e de criar algumas imagens memoráveis, como o instante em que a geografia do Rio Amazonas é remodelada.

Sendo não apenas uma homenagem aos seriados antigos, mas também à própria série Indiana Jones, o quarto filme não falha em evocar nos seus admiradores um senso de nostalgia e de interesse, mesmo que destituído da vibração do primeiro. Todo o enredo ufológico me atraiu especialmente, e ele sugere uma transição direta entre a estética aventuresca dos seriados para aquela dos filmes B da década de 50 - e que, segundo o brasileiro Heitor Capuzzo (no livro Cinema Além da Imaginação; 1990), estrutura muito das cinematografias de Spielberg & Lucas.

E--scritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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