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Segunda, 2 de junho de 2008, 08h04 Atualizada às 11h29

Adeus ao senador

Milton Hatoum
De São Paulo

O poder é o lugar privilegiado da mentira. A mão do político que hoje afaga é mesma que amanhã trai e apunhala. Um amigo certa vez me disse que sentia algo semelhante a um calafrio quando um político o abraçava. Até hoje não sei como traduzir esse avatar de calafrio, mas não devia ser uma sensação agradável, muito menos uma sensação de confiança e honradez. Calafrio e tremedeira de febre, talvez.

Lembrei desse amigo quando Jefferson Péres morreu. O senador do Amazonas não gostava de afagos nem costumava mentir. Tinha horror a todos os vícios e hábitos populistas e demagógicos. Durante uma campanha eleitoral ele não fazia comícios com trio elétrico, não se afogava em abraços com crianças, mães e avós, não distribuía cédulas de dez ou dois reais aos miseráveis da imensa periferia de Manaus e aos não menos miseráveis ribeirinhos do interior do Amazonas. Nada de rancho para pobres, nem de brinquedos para crianças, nem de medicamentos e cadeiras de roda para enfermos e paraplégicos. A campanha de Péres era austera como a personalidade do senador.

Ele falava nos meios de comunicação sobre seus projetos sociais e sua atuação política, e apontava problemas gravíssimos em Manaus e no interior do Amazonas. Sério, carrancudo, não vendia simpatia nem risos, nem rifava votos. Sua aparente antipatia ocultava a pessoa afável e culta do professor de economia da Universidade Federal do Amazonas. Péres trocou o magistério pela política e foi eleito vereador de Manaus e senador da república com uma campanha sóbria, sem qualquer estardalhaço. Defendia a ética na política, mas seu discurso não era meramente retórico; ou seja, não era o efeito das palavras que movia o discurso, e sim a prática cotidiana do homem público, cuja vida não foi manchada por falcatruas e negócios escusos.

Às vezes, por preconceito ou excesso de desencanto, pensamos que as pessoas humildes não assimilam a mensagem de um político ético. Também neste sentido Jefferson Péres surpreendeu. Porque muita gente não esperava que ele fosse reeleito senador.

Manaus era sua casa. Até o último dia de vida ele lutou para restaurar edifícios do centro histórico e melhorar a infra-estrutura de uma cidade castigada pelo crescimento vertiginoso e pela falta de planejamento, agravados pela desigualdade social. É tão grande o desplante de certos políticos amazonenses, que um ex-governador, na década de 1960, construiu um prédio em plena praça da Saudade, uma das mais belas de Manaus. Péres empenhou-se na demolição desse disparate urbano, que finalmente foi demolido no ano passado.

Não há dúvida de que o senador vai fazer falta num ambiente político tão desacreditado. Resta ainda um punhado de homens públicos que, de fato, representam com dignidade seus respectivos Estados. Espero que seu nome não sirva apenas para batizar uma rua, praça ou escola. Um vida pública exemplar é a maior herança para os jovens que pretendem aventurar-se no perigoso jogo do poder.

Não me lembro de nenhum político do Amazonas que tenha atraído tanto respeito e admiração dos brasileiros como ele.

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br

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