Terra Magazine

 

Segunda, 2 de junho de 2008, 08h03 Atualizada às 16h35

Jorge Furtado: "O cinema está numa sinuca de bico"

Fernando Eichenberg
De Paris

Antes da exibição de "Saneamento Básico, o Filme" no 10° Festival de Cinema Brasileiro de Paris (de 7 a 27 maio 2008), o diretor Jorge Furtado alertou os espectadores presentes na sala Arlequin de que veriam algo diferente do que normalmente esperariam de um filme brasileiro. A tela não mostraria favela, miséria, violência, praia ou índio, mas revelaria uma história passada em uma aldeia de colonização italiana, no frio do sul do país, sobre o esforço da comunidade local para a construção de uma fossa pública. O júri francês do festival não recompensou a obra, mas Furtado acabou levando para casa mais um troféu para a sua coleção: o prêmio do público de melhor filme.

Na capital francesa, antes de embarcar no vôo de volta para casa, em Porto Alegre, o diretor e roteirista de cinema e de televisão ("Ilha das Flores", "Meu Tio Matou um Cara", "O Homem que Copiava" ou "Houve uma Vez Dois Verões"), conversou com Terra Magazine em um dos cafés do bairro Montparnasse. Durante mais de uma hora, falou sobre cinema, tevê, internet, literatura, HQ, política e seus novos projetos.

Terra Magazine - Como você vê o cinema hoje? Está entre os pessimistas que acham que o cinema acabou?
Jorge Furtado -
Não sei se o cinema acabou, mas que ele está numa sinuca de bico, está. Estava vendo hoje os cartazes do último Indiana Jones aqui no metrô de Paris. A publicidade desse filme deve ser muito mais cara do que o próprio filme. Tem o tipo de filme que vira uma coisa que você meio que tem de ver ou então é um negócio que é quase um clube de aeromodelismo, pelo qual meia dúzia de gente se interessa. Não tem mais aquele filme médio. Tem aquela teoria da Cauda Longa (de Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired). No Brasil, por exemplo, temos filmes de 3 milhões de espectadores, um outro de 2 milhões, e o próximo tem 100 mil. É uma cauda curtíssima. Há os blockbusters e os outros filmes lá embaixo.

Segundo essa teoria, a internet e o sistema digital fariam com que essa cauda ficasse mais longa. Mas isso não aconteceu. Estamos quase sem cauda. E agora esse mesmo cara escreveu outro livro que se chama "Free", no qual diz que só sobreviverá na internet o que for totalmente grátis. Já há tanta coisa grátis e ninguém mais vai querer pagar nada. E o cinema está numa situação estranhíssima, e no caso do cinema brasileiro, então, nem se fala. Ou você faz um filme que seja um grande sucesso, para 3 milhões de espectadores, ou faz um para 50 mil espectadores.

Quais são as perspectivas para o cinema brasileiro?
Acho que está indo bem principalmente pela diversidade, por ter deixado de ser um gênero. Há filmes de muitos jeitos. Hoje quem diz que não gosta de cinema brasileiro é porque não conhece. Não é possível que não goste de nenhum filme. Há filmes tão diferentes um do outro. Nesse sentido de diversidade vai muito bem. Mas não está conseguindo chegar muito no público. O público não está querendo saber muito de cinema brasileiro. Há dois ou três filmes que acontecem e um monte de filmes que pouquíssima gente vê. Os filmes existem. Aqui mesmo na rua do meu hotel há uns seis ou sete filmes sendo exibidos, filmes dos quais nunca ouvi falar e provavelmente não vou ouvir falar. E Los Angeles têm quase 3 mil salas exibindo apenas seis filmes.

No Brasil, chegou um momento em que havia três filmes sendo exibidos em 1.600 salas, um deles lembro que era "O Homem-Aranha". Quando estreamos "Saneamento Básico", fui num cinema num shopping de São Paulo que tinha seis ou sete salas, e o nosso era o único filme com pessoas. Os outros eram "Ratatouille" (rato), "Transformers" (carros) ou filmes com super-heróis. Éramos o único filme em cartaz em que os personagens eram pessoas, uma loucura. E a gente só sabe fazer filme com gente. A tradição do cinema brasileiro e de toda a minha geração é a de um cinema humanista. Indiana Jones é teoricamente uma pessoa, mas é um super-herói. Ou então têm essas coisas de bichos.

Uma das atrações do Festival de Cannes deste ano é o filme de animação "Kung Fu Panda".
O Festival de Cannes ainda sobrevive, mas é um clube. Amigos me dizem: "Filme premiado em Cannes eu não assisto, não passo nem perto, é garantia de que é chato". Ficou essa coisa de que em filme de festival a gente vai para se incomodar. Mas o cinema humanista está realmente com pouco espaço. Felizmente não vivo disso, senão estaria apavorado. O mercado está cada vez mais difícil.

O cd está com os seus dias contados. A internet pode afetar também a sobrevivência do cinema?
Não há mais loja de disco. Procurei por Paris inteira e não encontrei. Quero comprar cds e não têm para vender. A Virgin fechou em Boston agora. Com a internet, tudo se encaminha para uma convergência digital em uma tela, e você faz tudo ali. Pesquisa na internet, baixa filme, lê. O (Noam) Chomsky já falava disso, do projeto "um homem, uma tela". É algo triste, porque o cinema era uma atividade pública, coletiva. Ver um filme com outras pessoas te motiva. Os outros riem, você ri junto. Você não tem o poder de parar o filme.

Nesse sentido, coisas como o teatro, por exemplo, que é uma experiência humana irrepetível - ou você está lá e vê ou não vê mais -, e o livro, que é uma experiência particular total, completamente individual, sobrevivem. Acho que o teatro vai sobreviver mais do que o cinema. O livro resiste. O jornal de papel acho que vai acabar. Ainda leio jornal em casa, porque assino, mas leio muito na internet. Cinema ainda gosto muito de assistir. Quando vejo, não me arrependo. É aquela tela grande, horário para começar, sem telefone. A gente presta muita atenção no filme.

O público de cinema hoje em geral parece não ter essa mesma reverência.
As pessoas nem se dão mais conta de que estão numa sala de cinema, se sentem em casa. Quando se reclama do barulho, da conversa, as pessoas nem entendem por que se está reclamando. E outra coisa que esse mundo digital está provocando é o seguinte: eu vejo muito filme velho. Está saindo tudo em dvd. Eu me lembro das sessões do Bristol (antigo cinema de Porto Alegre que exibia filmes de arte). Era a última chance de ver o filme. Vi "Barbarella" (1968), "Woodstock" (1970), "Taking Off" (1971), um filme do Milos Forman que adoro. Naquela época, se pensava: "Eu nunca mais vou ver esse filme". Era como uma peça de teatro na última sessão. Você saía de casa de uma forma quase religiosa para ir assistir ao filme. E hoje, como diz um amigo meu, o bom do dvd é que você compra e não precisa ver o filme. Você compra e guarda. "Não preciso mais ver esse filme, pois já comprei" (risos).

A coisa inverteu: filme se tornou algo que você pode ver a qualquer hora, em qualquer lugar, de qualquer jeito. Fico trabalhando pelo skype com o Guel (Arraes), e às vezes a gente fala: "Você viu aquele filme, aquele curta? Não? Espera aí que vou achar para você". Aí acho o filme no youtube, passo o link para ele no Rio, ele entra lá e vê o filme sobre o qual eu estava falando naquele segundo. Isso mudou 100%. Antes o filme era um objeto, tinha peso, era uma lata. Eu ainda não tenho ipod, não consigo me acostumar com aquilo, ouço vinil até hoje, compro agulha. O disco era a obra do cara naquele ano. "O Chico lançou este ano esse disco. O Caetano lançou...". Aquilo era como uma exposição de arte. Mesmo uma coletânea já é uma coisa meio estranha. Uma coletânea do Caetano que reúna Tropicália e Leãozinho não tem nada a ver, cada uma é de uma época. Filme também.

Antes do "Manhattan", Woody Allen fez "Annie Hall". Ver antes "Manhattan" não faz sentido. No ipod se coloca trinta músicas do Chico Buarque, uma é Construção e a outra é Meu Guri, são quinze anos de diferença. Como é que você vai comparar o Bob Dylan dos anos 1960 com o dos anos 1990? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Essa lógica se perdeu completamente. As pessoas dizem: "Baixei várias músicas do Bob Dylan". Mas está baixando de que época? O cara foi cristão, deixou de ser cristão, voltou a ser judeu... Sei lá, pode ser que surja alguma outra coisa daí.

O que mais vai sobreviver nessa era da internet?
Eu adoro história em quadrinhos. Hoje saí caminhando e fui numa livraria perto do Centro Georges Pompidou que tem um monte de HQ, para comprar uns álbuns que não tinha. HQ é uma coisa que vai sobreviver e que está bombando. Porque é um objeto. Não adianta ver HQ na internet. É um livro, é gráfico, é papel, é desenho. Algumas coisas vão sobreviver. Acho que o livro também vai sobreviver. Filmei agora com a Alice Braga. Ela usa aqueles - como é o nome? - BlackBerry? Vive recebendo email o dia inteiro. Você está numa praia e uma pessoa te mandando email, coisa maluca. É uma idéia de que a tecnologia é sempre boa.

A gente viveu milhões de anos sem email. O que vai acontecer disso? Talvez volte, as coisas vão para frente e para trás. O objeto livro tem dois mil anos, não é o ipod ou o e-book que vai mudar isso assim. Tem essa coisa de que as coisas são duráveis. Não vi o filme agora, mas posso ver mais tarde, baixar na internet. Nunca baixei, mas posso vir a fazer, não sei. E na questão da diversidade, por exemplo, no jornalismo acabou o monopólio. Claro que no Brasil ainda há quatro grandes famílias que mandam em 80%, 90% da mídia. Mas com esses 10% você desmonta qualquer coisa. É que nem a história do atentado na Espanha. Pelo celular derrubaram a teoria de que era o ETA o autor. Não há mais como esconder algo. Nesse sentido, me sinto mais bem informado hoje do que sempre fui. De manhã, acesso a internet, leio qualquer jornal e leio o blog do carinha que diz que aquilo é tudo mentira, que o The New York Times está mentindo. Você tem essa informação.

Tem um filósofo italiano, Perniola (Mario), que fala do "sensacionismo". As pessoas dizem hoje: "Eu não gosto do Chávez", mas não sabem explicar o por quê. Todo o mundo fala mal, mas ninguém lê nada. As pessoas simplesmente dizem que não gostam porque a mídia fala mal o tempo inteiro dele. Vai perguntar o que o Bush fez de ruim? As pessoas não sabem. No caso do Bush ainda tem o caso da guerra no Iraque, que marcou, mas também é só isso, porque ninguém sabe mais nada. As pessoas dizem: "Eu gosto do Obama, ele é bacana". Por quê? "Porque é simpático, um cara legal". É uma coisa de sensação, todo o mundo meio achando que é isso, porque ninguém sabe direito. As pessoas não lêem mais a notícia, só a manchete, a legenda da foto. O texto é cada vez mais curto. A média de permanência de uma página na internet é de oito segundos. Outro dia ouvi um cara dizendo que esse era o mesmo tempo de concentração de um peixe de aquário.

E o que você acha da prática da interatividade, cada vez mais presente hoje?
Eu não suporto isso. Ouvi uma vez o George Lucas dizer algo que acho interessante, sobre o jogo e o teatro. São duas coisas diferentes. O jogo é aquela coisa em que a minha interferência muda o resultado, é um game. No teatro, não posso fazer nada, e isso faz parte do prazer. Hamlet vai morrer no final, não posso impedir isso. Essa idéia de que o cara vai decidir o final é o contrário da dramaturgia. É a mesma coisa que chegar no dentista e ele me perguntar: "Você quer que eu obture ou faça um canal?". Eu não sei, não me pergunte isso, faça o seu trabalho. Não é uma coisa de não querer saber o que o público acha, mas não vou me guiar pelo que o público quer, senão não estarei fazendo o meu serviço. Senão vamos ficar sempre na média.

Essa é uma outra questão no cinema. Eles fazem tanta pesquisa, tantas sessões prévias para saber o que o público acha, que o filme vai ficando médio, medíocre. O cinema americano virou isso. Já se sabe de tudo o que vai acontecer, você vê a capinha e já sabe de toda a história. Não vai ter uma coisa estranha, porque o estranho é ruim, é para pouca gente. E assim não avançamos. A história da humanidade é a história da desobediência, de alguém que chegou e disse que ia fazer diferente. Desde Giotto, que pintou Nossa Senhora e São Francisco modelo de gente, e todo o mundo achou genial. E Shakespeare que quebrou todas as regras da dramaturgia. E "Cidadão Kane". Toda a evolução da arte é assim. Pode dar certo e pode dar errado. Mas se Shakespeare fosse fazer uma pesquisa antes e perguntar: "Vem cá, você acha que Romeu e Julieta devem ficar juntos no final?" (risos). Esses dias eu ouvi alguém na tevê dizer uma coisa que me fez morrer de rir. Era uma entrevista, e a moça dizia assim: "A gente sempre sonha com aquela coisa de amor eterno, viveram felizes para sempre, tipo Romeu e Julieta". Acho que ela estava mal informada, eles morreram e foram infelizes rapidamente.

Romeu e Julieta também virou sensacionismo. Eu e uma amiga, Liziane Kugland, minha professora de inglês há anos, lançamos agora uma tradução de Alice no País das Maravilhas. Adoro o texto, já tinha feito uma adaptação para o teatro, e agora fizemos uma tradução integral do livro, atualizando para uma criança brasileira de hoje. Eu falo para as pessoas de Alice e vejo que ninguém leu o livro. Todo o mundo conhece mais ou menos a história, mas não encontrei ninguém até agora que tenha lido o livro.

É o caso clássico também de Ulisses, de James Joyce.
Ulisses é um exemplo interessante. Eu li nos anos 1980 a tradução do Antonio Houaiss, e não entendi nada. Mas nada mesmo. Li porque foi a minha namorada que me deu, tinha de ler, aquelas coisas. E agora, no ano passado, li uma nova tradução, feita por uma senhora de mais de 80 anos, Bernardina Pinheiro, e entendi tudo. O livro não é tão complicado assim. O Gerbase (Carlos) até me disse: "Pô, mas não tem graça entender tudo". Claro, é meio tentar traduzir Guimarães Rosa, é impossível, alguma coisa se perde. A não ser que você explique toda a hora com notas de pé de página, e fica uma chatice. Às vezes, acho que a gente é meio elitista defendendo a leitura e o livro.

Tenho uns amigos, como o próprio Hermano Vianna, que é um cara muito inteligente, que dizem que a juventude aprende de outras maneiras, pela música, por exemplo. Ele defende a cultura hip hop, a cultura popular, e acha que a leitura não é algo fundamental. Já eu, não sei, tenho muita dúvida em relação a isso, acho que a leitura cria imaginação mais do que qualquer outra coisa. É algo totalmente pessoal, no seu tempo, no seu ritmo. Cinema é algo muito mais superficial, é algo que alguém já imaginou para você. Já está imaginado. A leitura não, ela desenvolve muito mais a capacidade de imaginar. Para criar "criadores" tem de obrigar as pessoas a ler. Nada substitui a leitura nesse sentido.

Nesses tempos de assimilação cultural em ritmo de fast food, a leitura não é prejudicada?
Tem essa coisa de prazer e de satisfação imediata. Quando se encontra alguma dificuldade, já se recua, porque se tem outras opções. O Fellini já dizia isso da televisão. Dizia que a televisão criou uma geração de digitadores, porque as pessoas mudam de canal. Começa a ficar chato, troca. Por que agüentar uma coisa de que não estou gostando naquele momento? Mudo para outra de que vou gostar logo. Cinema, livro, poesia, ficou assim. Ao mesmo tempo dizem que nunca se vendeu tanto livro. Mas é só merda, acho. No aeroporto, fico apavorado com tanta besteira, uma prateleira inteira de "como ganhar dinheiro", "como ficar milionário em três dias", livros de auto-ajuda de negócios ou pessoais, de misticismo. Literatura mesmo tem muito pouca, lá num cantinho. E teve essa onda de livros de Cabul, no Afeganistão. Todo o mundo queria saber o que estava acontecendo em Cabul. Existe aquele prazer mórbido de ver um lugar muito pior do que o seu.

Não sei se você tem acompanhado daqui, mas agora no Brasil tem o caso Isabella. É algo que comove as pessoas de uma maneira tipo: "Puxa, que pais desgraçados, horrorosos, assassinos; eu pelo menos nunca joguei meus filhos pela janela". E elas pensam também: "Ah, no Afeganistão é muito pior do que a aqui, a situação das mulheres é terrível, ainda bem que não estou lá". Você se sente aliviado porque não faz parte daquilo. O cinema tem isso também. Ouvi alguém falando de uma mulher nos EUA que saiu de uma sessão de "Central do Brasil" dizendo: "Mas que filme lindo! Já vi três vezes. A cada vez que vejo, penso: ainda bem que não moro lá!" (risos). E tem esse cinema de pobres chorando, que eu não suporto mais. Ricos que filmam pobres chorando. É a expiação da culpa, a miséria, os coitadinhos, os famintos, a guerra. Você sai de casa, paga, purga aquela culpa, e depois pode sair para jantar. Ou é um Indiana Jones ou cai na desgraceira. Aquele cinema tipo Ettore Scola, Woody Allen, Visconti, Antonioni, Bergman, o cinema como investigação dos sentimentos e das relações humanas está mal. Aqui na França tem o velho Alain Resnais, que ainda continua fazendo isso. Woody Allen também.

Você defende o humor como indispensável para compreender o ser humano, e gosta de citar o escritor francês Georges Bataille (1897-1962): "O riso situa-se para além do conhecimento, para além do saber. Ele encerra uma situação extrema da atividade filosófica: permite pensar o que não pode ser pensado".
Sou a favor total da comédia. Em festival nem inscrevo mais meus filmes, porque eles detestam comédia. Mas o público gosta. A comédia e a tragédia são na verdade a mesma coisa, é só uma questão de tom. O assunto é o mesmo, a relação que é outra. Os personagens da tragédia são perfeitos, só têm um defeito, que é a falha trágica, que provoca o problema. E os da comédia são o contrário, são horríveis. A comédia acentua o que as pessoas têm de pior. Em um filme como "Saneamento Básico", todos os personagens são bizarros, bobos. Mas, ao mesmo tempo, são humanos. Acho a comédia muito mais realista. Um personagem como Indiana Jones não existiria na vida real, seria morto na primeira esquina, na primeira flechada. Mas os personagens da comédia existem, é a tia da gente, o vizinho, a mãe, aquele primo que é humano, ridículo, bizarro, mas real . Eu não acredito em herói de jeito nenhum. Jamais filmaria aquele herói gaúcho a cavalo, que age pela honra. Isso não existe. Ele está ali defendendo a terra dele, a vaca dele. No fim ele está traindo a mulher com a escrava, querendo vender o gado mais caro, é isso. Mas se criam os heróis.

A comédia é até mais realista do que o filme sério, o drama. O Sábato (Ernesto, escritor argentino) perguntou: para que criar um personagem bom, justo? Mas muita gente acha que a comédia é algo menor. Eu acho que o humor é também uma forma de filosofar. Borges (Jorge Luis, escritor argentino), a alta literatura, é engraçada, tem humor. Shakespeare é engraçado. Nunca tinha visto "Esperando Godot", de Beckett, e outro dia fui ver uma montagem e morri de rir, é muito engraçado. Se você pensa muito e vai fundo nas coisas, acaba achando graça. É divertido. E a comédia diz, rindo, coisas que a tragédia não diz. Ela revela muito. Voltaire disse que "As Bodas de Fígaro" (ópera de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, 1784) já era a revolução em marcha, porque se alguém podia debochar daquele jeito dos nobres é porque a coisa já estava fazendo água. O Woody Allen fala de coisas terríveis nos filmes dele, sobre o que as pessoas são capazes de fazer. Eu defendo totalmente a comédia.

O clichê para o cinema brasileiro é ainda forte?
A Europa e o Primeiro Mundo não esperam que o filme do Terceiro Mundo fale da relação de um casal. Eles não querem ver um filme brasileiro sobre a relação de pai e filho, mas um filme que se passa na praia, na floresta amazônica. E no Brasil se sabe disso, então as pessoas já fazem um filme sobre isso, sobre favela. Fiz um curta agora chamado "Rummikub", que é o nome de um joguinho. Foram chamados quatro diretores latino-americanos, um do México, outro da Argentina, eu do Brasil e mais um da Colômbia para fazer um filme. A encomenda do filme foi para se falar de qualquer coisa, menos de prostituição, droga, violência, miséria, etc. Todos os filmes da América Latina que chegam nos EUA são sobre isso. Parece que no Brasil só tem isso.

Veja a lista dos filmes exibidos aqui no festival brasileiro em Paris e leia a sinopse de cada um: droga, tráfico, favela, morte, assassinato. Claro que pode falar disso, o assunto é importante. Mas qualquer um que conhece o Brasil sabe que nós não vivemos no meio do tiroteio, existem muitos outros assuntos que é o nosso dia-a-dia, e isso inclusive na favela. Mas é uma pena que esse clichê se imponha. Nós estamos meio na contramão. Esse novo filme do Guel, com roteiro meu e do Guel, é Tristão e Isolda. É o romance de um diretor de teatro apaixonado por uma atriz, eles estão montando "Tristão e Isolda". Os europeus olham e dizem: "Tristão e Isolda? Essa história é nossa!". Talvez tenhamos de escapar disso de uma outra maneira, não sei.

Você está também escrevendo um roteiro para um filme que será dirigido pelo Fernando Meirelles?
Estou adaptando o meu romance baseado no Shakespeare, Trabalhos de Amor Perdidos. É a história de um estudante brasileiro que ganha uma bolsa de três meses para estudar Shakespeare. O Fernando leu meu livro e disse que queria filmar. A história se passa toda em Londres e Nova York, e eu disse: "Pode filmar. Eu não tenho bala na agulha para fazer esse filme, que é uma produção caríssima". Ele me convidou para fazer o roteiro, e antes de vir para cá entreguei o primeiro tratamento. Mas está enorme, com 220 páginas, tem de cortar a metade. É uma comédia romântica, e para o Fernando será uma virada total. Ele mesmo disse: "Estou cansado de filmar desgraça". Até hoje ele só filmou desgraça. Acho que vai ficar bem legal. Ele vai fazer agora uma minissérie canadense genial, se chama "Slings and Arrows", as fundas e as flechas, sobre uma companhia que monta Shakespeare no Canadá. No Brasil vai se chamar "O Som e a Fúria". É ótimo. Ele vai entrar numa trip Shakespeare direto. É engraçado porque Shakespeare é muito um símbolo do multiculturalismo. Ele viveu na Inglaterra mas é montado no Japão, em qualquer lugar. Ele trata dos assuntos básicos.

Você critica a tendência de se reduzir o cinema dos países a uma coisa só: só um tipo de cinema chinês, um tipo de cinema iraniano, um tipo de cinema brasileiro.
Nós também fazemos um pouco isso. Quando se fala de cinema francês, você pensa logo num drama intimista ou numa comédia, dentro de um apartamento, as pessoas conversando o tempo inteiro. Filme italiano se acha que vai ter uma palhaçada. Filme asiático vai ter sexo e coisas estranhas. O Shakespeare, por exemplo, passa por cima de tudo isso, e é mais durável. Billy Wilder, que é meu diretor preferido, é totalmente durável. "Se Meu Apartamento Falasse" é perfeito, continua maravilhoso hoje. O cinema americano do ano passado já é velho. É a coisa da moda. O negócio é a câmera sacudindo, então todo o mundo faz aquilo. Depois de dois anos aquilo fica ridículo. O cinema clássico, dos anos 1940-50, americano, esse dura para sempre. Hitchcock é eterno.

E na música?
Eu parei no Velvet, depois não sei mais o que aconteceu. Oasis não é nada, é só pose, não tem substância nenhuma, nada para dizer. A música talvez tenha sofrido mais do que o cinema. Com a coisa digital, qualquer um faz. Mas é difícil acontecer algo realmente novo.

Leia também:
» Segunda parte da entrevista com Jorge Furtado


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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