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Segunda, 2 de junho de 2008, 07h54 Atualizada às 19h46

Índios, Paulo Coelho, Literatura & Mercado

Gleison Miranda/Funai/Reprodução
Índios invisíveis avistados pela Funai na fronteira Brasil-Peru. Publicadas em primeira mão por Terra Magazine, fotos tomaram páginas de jornais em ...
Índios "invisíveis" avistados pela Funai na fronteira Brasil-Peru. Publicadas em primeira mão por Terra Magazine, fotos tomaram páginas de jornais em todo o mundo

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

Estou há três anos trabalhando num romance cujo título provisório é Habitante Irreal (sim, por isso que o título do meu blog é este), o protagonista é um índio que encara o universo dos não-índios a partir de uma perspectiva sua, globalizante (jamais como coadjuvante; para quem não sabe, a maioria dos índios encara os não-índios assim). Detalhe: o protagonista foi criado por não-índios (um casal de professores universitários brancos) e tem clareza - embora tomado por um transtorno sem o qual o romanesco não aconteceria - do que está fazendo. Por ter recebido ótima educação, conhece melhor a mitologia e as idiossincrasias dos não-índios do que eles próprios, que seguem, na sua maioria esmagadora, cultos (numa fatia impressionante de tempo e espaço) por pérolas como a dança do créu, pânico na tevê e por aí vai.

Como sempre, faço o registro para introduzir o óbvio.

Não é necessário ser gênio para perceber que há grande tensão no ar causada pela resistência das comunidades indígenas de todo o país. Esse quadro ganha ainda mais dramaticidade quando nos confrontamos com a impressionante foto (será que são verdadeiras?; achei aquilo tão cinematográfico) obtidas na região do Acre de índios munidos de arcos, pintados para guerra, disparando flechas na direção dos sertanistas da Funai, como se aquele fosse o seu primeiro contato com o não-índio.

As fotos impressionaram o mundo, mas, acima de tudo, aguçaram o olhar dos que (voluntariamente ou não, engajadamente ou não) observam a tragédia indígena na América do Sul e aqui especialmente no Brasil. Neste momento, há conflitos em todo o Brasil, enfrentamentos entre índios e não índios. Os índios chamam isso de guerra - quando se escuta qualquer índio relatar o que está acontecendo, a palavra utilizada é, invariavelmente guerra.

Situações como as de Roraima são a ponta de um iceberg de problemas que pode ser resumido a uma frase: luta pela terra. Este é problema maior do Brasil, essa é a tônica do que resulta de mais trágico dessa nossa letargia.

Não queremos ver.

Torço pela exasperação, torço pelo conflito aberto, torço pela versão de quem é desrespeitado continuamente por este governo e pelos governos que o antecederam. Veja-se a gravidade da truculência das políticas públicas em torno da transposição do Rio São Francisco. Os interesses difusos, os interesses da maioria não estão sendo respeitados, não é à toa que se chegou a esse pedido de exoneração da Ministra Marina Silva.

Corto para o universo literário.

Separei para ler duas obras de dois autores brasileiros contemporâneos que tangenciam o universo indígena: "Órfãos do Eldorado", do Milton Hatoum (São Paulo: Companhia das Letras, 2008); e "Nove noites", do Bernardo Carvalho (São Paulo: Companhia das Letras, 2006). Faltam obras literárias boas em torno das temáticas indígenas. Falta um Cidade de Deus indígena? Não gosto de rotular, o pior de tudo seria começar a se falar em literatura indígena.

Complexo de inferioridade à parte, o que de novo o Brasil pode acrescer à literatura universal? Milton Hatoum parece já ter percebido isso; outros tantos ainda não - haja paciência para agüentar o volume de narrativas em torno dos velhos dilemas urbanos, pseudo-marginais (digo isso, porque a temática marginal de verdade continua justificada) que povoam as estantes das livrarias brasileiras.

Não quero simplificar, nem construir a custas de estereótipo barato receita de sucesso para o mercado internacional, quero anotar a premência de certos argumentos, plots se quiserem, como a devastação da civilização indígena - essa é a atualidade por aqui.

Nossa desorientação por si só já seria um tema dos mais instigantes.

A crônica da destruição também. Órfãos de um Eldorado?

Ainda não? Exagero?

Não se preocupem, vivendo de ti ti tis e "bocabertice", chegaremos lá.

Corto para o Mago.

É a vez de aplaudir Paulo Coelho pelo que ele fez de melhor: ser Paulo Coelho. Os juízes fazem pouco. Não, não tratarei da obra escrita. Imagino, maquiavelicamente, só um pouco de venda casada. Não me levem a sério. Isso foi uma piada. Os juízes da literatura brasileira não fizeram muito mais do que Paulo Coelho. Se eu li algum livro? Qualquer resposta a isso seria lugar comum. O fato é que eu queria ver mais autores brasileiros sendo lidos pelos passageiros quando entro num metrô no exterior. Boa literatura? Isso é tão subjetivo. Muito autor badalado por aí, campeão de resenhas e capas em segundos cadernos, é atacado cruelmente pelas costas como tendo a narrativa mais chata da paróquia. Claro, isso não interessa. Embarquei num fluxo de consciência? Não. Gastando um pouco da minha paciência (da minha própria paciência) comigo mesmo? Talvez. Já que sempre andamos pela última hora (sempre e desde que nasci), acho que tenho esse direito, torcendo, na fita, contra John Wayne até o final.

Corto para os créditos e uma trilha sonora de rap brasileiro qualquer.


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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