
Atualizada às 10h35 Daniel Milazzo
Em evento realizado na tarde desta segunda-feira (2), no Palácio do Planalto, a lei que torna obrigatório o ensino de filosofia e sociologia, no ensino médio, nas escolas das redes pública e privada do país foi sancionada pelo presidente da República em exercício, José Alencar.
Professor aposentado de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo), José Arthur Giannotti diz-se tradicionalmente contra a proposta - aprovada na Câmara em 2003 e pelo Senado no mês passado - e qualificou a medida de "triste bobagem".
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- O aluno não vai formar senso crítico, porque ele não vai formar senso. Fazer com que as pessoas falem coisa com coisa, que aprendam português, aprendam a raciocinar, que aprendam a ser críticas ao que está nos jornais ou às imagens da televisão... nada disso está acontecendo. Como ensinar filosofia para esse pessoal? (...) É como se nós achássemos que somos campeões mundiais de futebol quando nosso jogo ainda está na várzea.
O repórter indaga se a obrigatoriedade é uma bobagem. O professor responde: "Não é bobagem, é uma triste bobagem".
De acordo com o professor da USP, se o Brasil dispusesse de profissionais qualificados para o ensino de filosofia, a medida seria "a coisa mais sensacional do mundo", mas nossa realidade não é essa:
- Ora, nós sabemos que um grande problema do ensino médio é a ignorância dos professores, que foram muito mal formados. A meu ver, há coisas mais importantes, que são prioridades, do que ensinar filosofia. Em particular ensinar português, como todos sabem, além de física, biologia, matemática, história, geografia... Isto é, se situar no plano da linguagem, da ciência e da temporalidade. Coisa que a maioria dos professores de ensino médio não é capaz de fazer. Nós vamos gastar tempo e esforço em coisas subsidiadas ao invés de focar no fundamental.
De Tales a Platão
Outro aspecto que preocupa Giannotti diz respeito à qualidade dos cursos de filosofia e sociologia que serão oferecidos. Ele ressalta que somente agora o país está realmente formando filósofos. Acrescenta que, em conseqüência disso, muitos dos que começarão a lecionar esses conteúdos não são necessariamente filósofos ou sociólogos, ocuparão ad eternum as vagas oferecidas em concursos e acabarão por "engessar o ensino filosófico no país".
- As pessoas vão começar a estudar os pré-socráticos, falando de Tales, depois Parmênides, Platão, Aristóteles e se chegar aos estóicos vai ser muito. Teremos um curso de filosofia que vai se resolver numa "decoreba" danada - prevê Giannotti.
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