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Terça, 3 de junho de 2008, 10h19 Atualizada às 10h37

Filosofia e Sociologia no Ensino Médio

João Carlos Salles

Algumas notícias precisam ocorrer mais de uma vez. É o caso do retorno da filosofia e da sociologia ao ensino médio, retorno cujo arco nunca se fecha.

Agora, enfim, foi sancionada pela Presidência da República a lei que torna obrigatórias essas disciplinas no ensino médio. Lembro, porém, que, em 24 de julho, escrevi minha primeira coluna na Terra Magazine fazendo então um brinde à filosofia para comemorar a decisão do Conselho Nacional de Educação (leia aqui).

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A decisão do Conselho não se mostrou suficiente, tendo ensejado reações e algumas paralisias. Algumas reações comprometidas por interesses mais econômicos que educacionais, enquanto outras motivadas por interesses filosóficos autênticos, embora um tanto deslocados de importantes mudanças em nossa realidade filosófica nacional, na capacidade atual de nossa rede de graduação e de pós-graduação, que tem se modificado drasticamente nos últimos anos, como o testemunham, por exemplo, os encontros da ANPOF.

A implantação da filosofia de forma disciplinar e obrigatória no ensino médio coloca-nos decerto grandes desafios. A boa nova não pode ocultar a dificuldade, nem fazer desprezar quem se lhe oponha, quando seus argumentos são motivados filosoficamente. Por um lado, afinal, temos um conhecimento refinado, elaborado ao longo dos séculos por pensadores os mais sofisticados, mas essencial à conformação da nossa cidadania e da formação intelectual do homem contemporâneo. Um conhecimento essencial, que entretanto deve ser acessível, sem deturpação, a alunos do ensino médio, em momento decisivo de afirmação da escolaridade básica. Esse desafio, que já não seria pequeno em condições ideais, defronta-se com um quadro educacional de precariedade de nossas escolas, de ausência de materiais apropriados e de formação ainda não adequada dos docentes, situação agravada pelo fato de a disciplina ter sido, por muitos anos, afastada desse nível de ensino.

Ante esse desafio renovado, sem cujo enfrentamento nosso empenho filosófico perderia todo sentido, o obstáculo mais significativo é o da preparação de nossos professores. Ao contrário, porém, de nos rendermos a tais fatos, que apenas parcialmente foram superados, parece bem mais sensato e proveitoso juntarmo-nos a diversas iniciativas que procuram, com seriedade, superar a lacuna histórica de materiais e de estratégias sedutoras para a aproximação da filosofia ao ensino médio, desde a célebre solução Appel (que é como temos chamado a proposta defendida pelo amigo Emmanuel Appel de oferecer textos clássicos a nossos jovens, com o argumento eloqüente de que não temos o direito de afastá-los desse patrimônio da humanidade) até outras iniciativas voltadas a oferecer aos professores estratégias para o tratamento adequado de temas sugeridos pelas Novas Orientações Curriculares do MEC, para sua relação com outras disciplinas do ensino médio (de sorte que nossos docentes tenham papel ativo na elaboração de projetos pedagógicos) ou, enfim, pistas para sua inserção na forte comunidade filosófica nacional, com a idéia importante de que os docentes devem se inserir em um circuito de formação continuada, pelo qual o ensino de filosofia só pode ter efetivo sucesso caso reforçado pela pesquisa em filosofia.

Dificuldades muitas, mas também alguns elementos para otimismo. O primeiro, ao qual já aludimos, é a própria mudança na rede de formação de pesquisadores e docentes. Além disso, vale notar que o ensino médio tem uma característica que solicita e favorece a reflexão filosófica, uma vez que se caracteriza como uma vivência muito singular do conhecimento, com a constituição de uma ampla narrativa da causalidade. Nessa fase da escolarização de nossos jovens, temos a introdução de procedimentos argumentados de explicação científica (química, física, biologia, etc.), de sorte que a natureza e o conhecimento passam a ordenar-se à luz das mais importantes contribuições históricas do pensamento humano. Ao lado disso, podemos então ter com proveito uma introdução preciosa ao legado da filosofia, que é também um modo de refletir criticamente sobre o sentido desse imenso volume de informações apresentadas aos estudantes.

Há elementos, pois, para otimismo, e muitas dificuldades que nos solicitam muito empenho. Talvez por isso seja instrutiva tanta demora. Que não se tenha decidido de uma vez, que tenham sido insuficientes tantos gestos formais, tanta energia, tanta luta, que esse resquício da ditadura deva de novo ser derrotado, que enfim a presidência da República tenha sancionado a lei da obrigatoriedade do ensino de filosofia e sociologia, tudo isso nos alerta para algo que não é uma mera trivialidade. Cumpridas as formalidades legais, afastados mais uns obstáculos legais, ficamos ainda diante das mesmas tarefas, do mesmo desafio imponderável de aproximar nossos jovens de uma tradição gigantesca, de um imenso e difícil legado histórico, um desafio que reside em nosso próprio ofício e que, nesse outro sentido, felizmente nunca se fecha.

Saudemos então a boa nova da sanção presidencial. E que doravante nos integremos ao desafio de, a cada dia, ante dificuldades e em meio a renovadas surpresas, fazer renascer a tensão e o mistério próprios da reflexão filosófica.

João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.


Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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