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Quarta, 4 de junho de 2008, 07h58 Atualizada às 14h48

Samba-choro e vira-latas

Paquito
De Salvador (BA)

Cachorro vira-lata é o título de um samba-choro de Alberto Ribeiro gravado em 1937 por Carmen Miranda e, anos mais tarde, por Ney Matogrosso. A interpretação de Carmem é uma delícia, naquele clima despretensioso das gravações da década de 30, que não explicam a vida, mas da mesma revelam muito, em menos de três minutos. Pra completar, o acompanhamento é do regional de Benedito Lacerda, que, com sua flauta, parece imitar o passo leve e despreocupado dos vira-latas. Carmem canta e repete o refrão alterando a divisão rítmica sem exagerar, também gingando viralatamente: "eu gosto muito de cachorro vagabundo/ que anda sozinho no mundo/ sem coleira e sem patrão/ gosto de cachorro de sarjeta/ que quando escuta a corneta/ sai atrás do batalhão".

Logo em seguida, é explicitada a associação entre o vira-lata e o sambista-malandro: "e por falar em cachorro/ sei que existe lá no morro/ um exemplar/ que muito embora não sambe/ os pés dos malandros lambe/ quando eles vão sambar". E a canção vai seguindo e nos dando as lições de vida das gentes e dos cães: "e até mesmo entre os caninos / diferentes os destinos/ costumam ser/ uns têm jantar e almoço/ outros nem sequer um osso/ de lambuja pra roer".

Porém a citação de trechos da letra é só pra deixar o leitor bem pertinho deste sentimento de simpatia pelos cães, em especial, os vira-latas, a um só tempo livres e súplices. Quem nunca se sentiu tocado pelo olhar de um cachorro de rua, pleno em carência desmedida e sem defesa? O mesmo pode se dizer dos gatos, injustamente julgados como interesseiros.

Com toda sinceridade, eu não tenho muita intimidade com bicho, e posso estar apenas enxergando neles o que há de humano em nós, que tanto escondemos. Mas dois flashes que presenciei por estes dias, protagonizados por cães, me fizeram ter vontade de narrá-los, sem que tivesse, necessariamente, de escrever sobre música, ainda que a gravação de Carmen seja bem apropriada pra servir de introdução a estes instantâneos.

Ao voltar da praia do Porto da Barra, num destes finais de tarde, tomei um ônibus pra subir a ladeira que leva ao Campo Grande, onde moro. Ainda estava passando pela roleta (na Bahia é borboleta), quando ouvi a voz de um homem atrás de mim, que conversava com alguém que estava do lado de fora do veículo. O homem, coincidentemente, um dos vendedores ambulantes que freqüentam diariamente a praia do Porto para trabalhar, se mantinha no primeiro degrau da porta do ônibus, com o corpo virado para o passeio, consolando alguém, dizendo:

- Não se preocupe, eu volto, eu vou voltar logo... pode ficar me esperando.

E ele insistia e repetia, de modo a convencer seu interlocutor, nada mais nada menos que um vira-lata, que parecia escutar atentamente.

O segundo flash ocorreu quando eu andava pelo fim de linha do bairro do Garcia, perto do centro da cidade, mas que se caracteriza por parecer um povoado do interior. É um bairro modesto de população eminentemente negra, onde não se presencia o medo de assaltos e o stress característico de bairros como a Barra e o Pelourinho, descritos com exatidão por Gilson Jorge numa matéria recente para Terra Magazine.

O fato é que eu caminhava por um dos becos do Garcia, também num horário vespertino, quando minha atenção se voltou para um menino de uns oito anos de idade, que levava um cachorro na coleira, digo melhor, um artefato que servia não só para manter o bicho preso pelo pescoço, como também pelas patas, monitorando totalmente os movimentos do animal.

Atrás do menino, seguia uma menina, também com outro cão preso à coleira. Ao contrário da menina, o moleque fazia questão de bater no cão sem pena nem dó, como diziam os antigos. Parecia só haver uma intenção: irritar e espicaçar o animal. Ele o puxava, batia, o cachorro tentava se afastar, mas ele puxava de novo o cão pra perto de si, e continuava a bater. O vira-lata, sem conseguir se defender, só podia se encolher, humilde e subjugado. A cena foi me deixando indignado e resolvi chamar a atenção do malfeitor. Gritei "menino!" repetidas vezes, mas ele não atendia, indiferente aos meus gritos, cada vez mais altos.

Gritei para que a menina o chamasse, sem entender porque ele não se voltava, quando uma senhora desfez o mistério, da janela de um prédio baixo: "não adianta, moço, ele não ouve, é surdo-mudo". Diante do desamparo gerado pela constatação da inutilidade do meu gesto, também fiquei em silêncio, sem saber o que fazer ante o patético da situação, perdido entre a incomunicabilidade da criança e o flagelo sofrido pelo cachorro. Não cabia nem mesmo cantarolar o samba de Alberto Ribeiro.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

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