Terra Magazine

 

Quinta, 5 de junho de 2008, 09h07 Atualizada às 09h18

Caso Alstom: Serra é "paranóico", diz Mentor

Assembléia Legislativa de São Paulo/Reprodução
Deputados estaduais reunidos na CPI da Eletropaulo, onde se discute a possibilidade de investigar as denúncias de corrupção envolvendo a multinacional ...
Deputados estaduais reunidos na CPI da Eletropaulo, onde se discute a possibilidade de investigar as denúncias de corrupção envolvendo a multinacional Alstom e o Metrô de São Paulo

Diego Salmen

O deputado estadual Antonio Mentor não é médico, nem terapeuta, mas já deu seu diagnóstico sobre o comportamento do governador de São Paulo, José Serra, que acusou os petistas de estarem por trás das denúncias envolvendo a multinacional Alstom e o Metrô de São Paulo:

- Ele tem duas paranóias: mania de perseguição e não dormir à noite - ironiza. - Tem um núcleo do PT na Suíça investigando o PSDB aqui no Brasil!

Veja também:
» Caso Alstom: Deputado pró-CPI nega "politização"


As investigações na Alstom começaram em novembro de 2007, depois que o Ministério Público francês apurou uma denúncia da Justiça da Suíça. Segundo as autoridades suíças, a multinacional teria movimentado US$ 20 milhões para financiar propinas no Brasil, Venezuela e Indonésia.

No Brasil, a companhia já teve seu nome envolvido em supostas irregularidades com diversas empresas públicas e privadas: Eletrobras, Metrô de São Paulo, CPTM, Cesp, Sabesp, Itaipu e Petrobras.

Mentor preside a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Eletropaulo, instalada na Assembléia Legislativa de São Paulo em 2007 e cujo funcionamento vai até o dia 30 de junho. Em entrevista a Terra Magazine, ele fala sobre a tentativa de investigar as denúncias contra a Alstom na comissão e da resistência da base governista em criar uma nova CPI.

- Não há possibilidade de se fazer uma nova CPI - lamenta. - A Assembléia Legislativa não cumpre sua tarefa preliminar, que é fiscalizar o governo.

Em Brasília, o deputado João Bacelar (PR-BA) colhe assinaturas para criar uma CPI que investigue a Alstom na Câmara dos Deputados.

Já em São Paulo, a comissão é controlada pela base aliada, que possui 7 de seus 9 integrantes. Nos últimos dias, os parlamentares governistas barraram a convocação de diretores da Alstom e da Eletropaulo, além de Andrea Matarazzo, secretário de Coordenação das Subprefeituras da cidade de São Paulo e ex-secretário de Estado de Energia, e de Mauro Arce, ex-secretário de Energia e hoje secretário de Estado dos Transportes.

Em 1998, o conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Estado) Robson Marinho, teve sua viagem à Copa da França bancada pela Alstom. Marinho foi Secretário da Casa Civil do então governador de São Paulo Mário Covas entre 1995 a 1997.

O conselheiro também foi o único a dar voto favorável a um contrato da Alstom com o Metrô de São Paulo que durou dez anos a mais que o estipulado.

- Ele tem tudo a ver com esses procedimentos. É evidentemente que tem relação entre essa operação que foi feita lá atrás, com a operação dos contratos - afirma o parlamentar.

Leia a entrevista com o deputado Antonio Mentor:

Terra Magazine - O deputado Barros Munhoz disse que a CPI da Eletropaulo não é o melhor lugar para se discutir o caso Alstom. O que o senhor acha?
Antônio Mentor -
Só se criarmos uma CPI específica para discutir a Alstom. Agora, se a Alstom teve contratos volumosos com a Eletropaulo, antes e depois da privatização, por que não é adequado discutir na CPI da Eletropaulo?

Como os deputados do PSDB vêm reagindo à idéia de criar uma CPI da Alstom? Eles estão fazendo "operação-abafa"?
Na Assembléia não tem "abafa": CPI sobre casos atuais não existem. Não há possibilidade de se fazer uma nova CPI. Nós tivemos os casos da Nossa Caixa, da CDHU, da calha do Rio Tietê, vários casos gravíssimos, com denúncias e documentos, e não se conseguiu avançar. Essa vai ser mais uma; a Assembléia Legislativa não cumpre sua tarefa preliminar que é fiscalizar o governo.

Como o senhor vê essa dualidade no discurso do PSDB, que critica o acobertamento de investigações pela governo federal mas acaba fazendo o mesmo em São Paulo?
Não é o mesmo, não. Na Câmara federal tem uma CPI por semana. Não houve impedimento à criação de nenhuma CPI. Agora, tem de se fazer o debate dentro da CPI, poxa... Se eles querem defender o governo, defendam dentro da comissão. É tarefa deles, nós vamos respeitar. Mas tem de chamar as pessoas, colher depoimentos, requisitar documentos e fazer a investigação de maneira decente.

O governador José Serra atribuiu a tentativa de criar a CPI da Alstom ao "kit PT". Qual sua opinião a respeito?
(em tom irônico) O PT agora montou uma sede na Suíça. Tem um núcleo do PT na Suíça investigando o PSDB aqui no Brasil! O governador Serra tem duas paranóias: uma é essa mania de perseguição, e a outra é não dormir de noite. O Ministério Público da Suíça agora virou um núcleo do PT.

É possível que Robson Marinho seja convocado, mesmo sem a criação da CPI?
Essa é outra questão. O Robson Marinho foi Secretário da Casa Civil do governo Covas, ele tem tudo a ver com esses procedimentos. É evidentemente que tem relação entre essa operação que foi feita lá atrás com a operação dos contratos. Você quer coisa mais absurda do que o Tribunal de Contas se julgar incompetente para analisar os contratos de 1997 e 1998 feitos com a Alstom, na época em que a Eletropaulo ainda era empresa estatal. Eles mandaram toda essa documentação para a Eletropaulo.

Por que o senhor acha que eles fizeram isso?
(risos) Fizeram isso para não ter que analisar.

Sem a CPI da Alstom, o que a oposição em São Paulo fará para tentar investigar o caso?
Nós já temos um requerimento de convocação aprovado para falar com o David Zylberstajn, que foi responsável por essa área em 1998. Coincidentemente, surgiu essa questão da Alstom, ele diz que não sabe quem é Alstom, que nunca ouviu falar da empresa mas, no entanto, ele autorizou pagamentos vultuosos para a companhia. Certamente ele responderá questões relativas a Alstom também.

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol