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Sábado, 7 de junho de 2008, 07h58 Atualizada às 10h10

Fabinho: "este grupo assusta de tanto que treina"

Luciano Borges
São Paulo

Uma reunião organizada pelos jogadores do Corinthians foi o ponto de partida para a campanha vitoriosa - até aqui - na Copa do Brasil. Esta é a opinião do volante Fabinho, o único atleta do grupo que já ganhou este torneio vestindo a camisa do alvinegro (2002).

Em entrevista a Terra Magazine, ele aponta o encontro dos atletas como o gatilho para um clima de trabalho dobrado que deixou o time perto do título de 2008. Nesta quarta-feira, o Corinthians enfrenta o Sport em Recife e volta campeão se perder por uma diferença de até um gol.

Aos 28 anos, Fabinho está de volta ao clube que o tornou famoso no futebol brasileiro. Ele foi contratado pelo Corinthians em 2001, a pedido do técnico Vanderlei Luxemburgo. No Parque São Jorge, depois de quatro temporadas, conquistou uma Copa do Brasil, um Torneio Rio-São Paulo, um Campeonato Paulista e foi vice campeão brasileiro.


O volante Fabinho, do Corinthians (Foto: Agência Lance)

Ao retornar de uma passagem pouco feliz na França (jogou no Toulouse), Fabinho se tornou um dos líderes da atual equipe dirigida pelo técnico Mano Menezes, ao lado do capitão William e se seu companheiro de zaga, Chicão.

A conversa foi feita por telefone, enquanto Fabinho se preparava para buscar as filhas Mayra Carolina e Isabella na escola. Ele estava no apartamento em São Bernardo do Campo, ao lado do caçula Samuel, nascido há sete meses.

Ficar com os filhos, assistindo canais de TV dedicados ao público infantil, é um dos seus prazeres. "Cara, estas meninas me fazem ver cada coisa! Mas aqui eu viro uma criança", diz.

Fabinho é um cara fissurado em filmes de artes marciais. A coleção de DVDs assusta até o pessoal de casa. "Minha mulher reclama. Tenho seriados de tudo quando é jeito". E passa esta paixão para os sobrinhos. "Eles assistem comigo", conta.

Além da família, Fabinho diz estar apaixonado por outro núcleo de pessoas: o elenco do Corinthians. "Precisa conviver com os caras para ver como é legal". Mas ele lembra que o relacionamento melhorou muito depois da conversa franca realizada depois do Campeonato Paulista.

O time avançou até as finais da Copa do Brasil, recuperou atletas como Herrera, Lulinha e Acosta e ganhou o apoio da torcida que - na última quarta-feira contra o Sport - cantou praticamente durante os 90 minutos que terminaram com vitória por 3 a 1.

Confira a entrevista completa com o volante Fabinho:

Terra Magazine - Você sente que a torcida do Corinthians mudou? Está mais barulhenta?
Fabinho -
Cara, eu já vi esta torcida fazer barulho antes e ela faz bastante, sempre foi fiel e apoiou o time. Mas desta vez ela está absurdamente diferente. E não é só aqui em São Paulo. Onde a gente vai é recebido por muita gente. Os caras vão para os jogos, é impressionante. Quando a gente fez o amistoso contra o Cene no Mato Grosso, tinha uma concentração enorme de corintianos.

Quando outros times como Palmeiras, Atlético-MG, Fluminense e Botafogo disputaram a Série B, as torcidas resolveram empurrar suas equipes para a Primeira Divisão.
Deve ser a mesma coisa agora. Este é um ano diferente, importante para o Corinthians. O time caiu no ano passado por motivo de má gestão. Agora, cada jogo que a gente disputa é uma final para cada corintiano. Todos querem o acesso. O legal é que estamos fazendo nossa parte e ainda podemos garantir vaga na Libertadores do ano que vem. Nossa prioridade é subir para a Série A, mas a partir de um momento, entendemos que dava para ganhar a Copa do Brasil e estamos fazendo a lição de casa.

Vocês venceram a primeira partida contra o Sport Recife por 3 a 1. O gol do time pernambucano saiu no final do jogo. Você voltou para o vestiário satisfeito?
Não. Saí sentindo uma sensação que faltava alguma coisa. A gente poderia ter saído desse jogo quase campeões, mas erramos em alguns momentos. São detalhes que acontecem durante uma partida. Mas a gente poderia ter conseguido mais.

"Todo mundo falou. O ambiente mudou. Hoje, este grupo assusta de tanto que treina"

Você está falando dos contra-ataques perdidos no segundo tempo?
É. Criamos duas ou três oportunidades, mas erramos no passe final. A gente criou situações de perigo que poderiam resultar em mais gols. Mas isso é do futebol. Não dá para ficar lamentando.

Você disse que, num determinado momento, os jogadores perceberam que poderiam ganhar a Copa do Brasil. Quando foi isso? Foi depois da virada em cima do Goiás?
Aquela vitória no Morumbi (4 x 0) foi importante, mas não foi lá. Depois que a gente foi eliminado no Campeonato Paulista, a gente sentiu que a imprensa bateu muito forte em alguns companheiros. Aí tivemos uma conversa muito franca. Às vezes, é importante saber a necessidade do colega, ajudar no que ele estiver precisando. O grupo é novo. A gente nem se conhecia direito. Depois desta conversa, nosso relacionamento está mais estreito, o grupo está mais forte. Pouca gente dá conta de como está bonito dentro do time.

Onde aconteceu esta reunião?
Foi atrás do vestiário lá no Parque São Jorge. Lá tem uma sala para a gente assistir vídeos e se reunir. A gente vinha falando desde o dia anterior que precisávamos conversar. Aí começou aquele "bafafá", nem sei se alguém específico deu a idéia. Eu sei que a gente decidiu que, no dia seguinte, a gente ia conversar antes do treino. Todo mundo falou. O ambiente mudou. Hoje, este grupo assusta de tanto que treina.

"Eu pensava: 'Pô cara, não é possível que eles não joguem bem na partidas.' Agora, você vê, eles estão muito bem"

Como assim?
Ah cara, todo mundo assumiu sua identidade, no campo, nos treinamentos. Às vezes um dos auxiliares do Mano Menezes encerra um trabalho e os caras pedem para treinar mais. A comissão técnica tem que pedir para a gente tirar um pouco o pé do acelerador. Todo mundo aqui quer jogar. Isso abre o leque para o treinador. Nosso grupo foi montado este ano. Estamos contrariando as estatísticas. Nosso entrosamento aumenta muito rápido.

E os jogadores que "apanharam" da imprensa?
Não só dela, né. A torcida mesmo apedrejou o ônibus, colocou o nome do Lulinha, do Herrera e do Acosta no muro, pedindo a saída deles. Mas o Lulinha, apesar de ser o mais novo do time, teve passagens como artilheiro na seleção brasileira Sub-17. O Acosta tinha sido artilheiro no Náutico. O Herrera é um cara experiente, com passagens em clubes como o Grêmio. A gente treinava com eles, via a qualidade de cada um, no toque de bola, no jeito de jogar. Eu pensava: "Pô cara, não é possível que eles não joguem bem na partidas". Agora, você vê, eles estão muito bem.

"O que o Herrera vem fazendo em cada partida é algo sensacional! E ele sempre esteve à frente da equipe"

Estão do jeito que treinam?
Melhor até. O que o Herrera vem fazendo em cada partida é algo sensacional! E ele sempre esteve à frente da equipe. Sempre chamou a responsabilidade. Não se escondeu nos jogos, sempre pede a bola. E é assim nos treinos. O Acosta trabalha pra burro também. Mas ele chegava nos jogos e não ia, não ia. Agora a bola está entrando. Eu fico feliz quando vejo o cara acertando tudo, melhorando. É fantástico ver um companheiro feliz, se dando bem.

Você fala como líder do grupo.
Não, aqui não tem um líder só. Eu sou o mais estourado, o cara que chega no vestiário gritando "Vamos aí". Mas esse negócio é mais complexo. A gente está jogando, o Chicão (zagueiro) dá o recado lá atrás, eu passo para frente, todo mundo se cobra. Cara, nossa comunicação é grande. Até para pegar as orientações do Mano, lá fora, está saindo tudo muito rápido. O recado chega rápido para todo mundo. Um grupo que se comunica bem é um grupo forte.

Você parece estar empolgado com esta equipe.
Ah, não dá para esconder. Esse grupo está vivendo uma experiência única. E está todo mundo junto nessa. Só vendo o que acontece para entender. É no trabalho do dia-a-dia, todo mundo querendo mais. Já viu jogador pedir para treinar além do que o técnico e o preparador físico pede? Esse time faz isso. E tem o William como capitão, o Chicão ali no comando. A equipe parece carro velho: demorou um pouco para pegar, mas está rodando que é uma beleza. Estou cada dia mais apaixonado por estes caras.

"A equipe parece carro velho: demorou um pouco para pegar, mas está rodando que é uma beleza. Estou cada dia mais apaixonado por estes caras"

Esta experiência é melhor do que sua passagem pelo futebol francês?
Muito melhor. Aqui sou valorizado pelo que produzo em campo e pelo que já fiz na carreira. Aqui não carrego a culpa dos outros.

Foi o que aconteceu no Toulouse?
Eu fui para a França em 2006, mas o clube já tinha tentado me contratar antes. Até que comecei bem. Na primeira temporada, joguei 32 dos 36 jogos, fiz gols, está preparado para disputar a Liga dos Campeões da Europa contra o Liverpool. Mas aí tive problemas com o treinador (Elie Baub). O cara me tirou do time, fazia piadas em francês.

Sobre você?
É. O Francileudo (maranhanse da seleção da Tunísia) é que me traduzia e contava que ele estava de sacanagem. Cara, eu sempre respeitei treinador. Sempre entendi que posso ir para a reserva desde que o cara que entra está jogando melhor do que eu. Mas ele só se entendia com os franceses do time. O azar dele é que, sempre quando ele tentava me complicar, eu entrava nos jogos e ainda fazia gols. No meu último jogo pelo Toulouse, ele me deixou aquecendo 45 minutos. O time estava perdendo por 1 a 0 e ele só me pôs em campo aos 45 do segundo tempo. Entrei e fiz o gol do empate.

"O azar dele é que, sempre quando ele tentava me complicar, eu entrava nos jogos e ainda fazia gols"

Aí você pediu para sair?
Não, já tinha acertado minha saída. O presidente do Toulouse (Olivier Sadran) até chorou. Ele era um cara que me elogiava sempre depois dos jogos, gostava do meu futebol. E tentou me segurar. Mostrou o quanto tinha gastado comigo. Mas não teve jeito. Queria ir embora. Disse para ele: "Não trabalho mais para ele. Ele que elogie e conte piadas para os jogadores franceses".

Falando em técnico, que tal o Mano Menezes?
Então, você vê a diferença. O Mano é um cara que entende de futebol, um vencedor. Aqui ele trata todo mundo igual, não faz piadas com quem não entende o português. O Soarez chegou aqui e o Mano sempre o tratou com jeito porque sabia que ele não entendia direito o português. O Herrera ainda ajudava com uma tradução ou outra. O Mano respeita o profissional.

Então foi frustrante esta experiência no futebol europeu?
Cara, lá no fundo, acho que foi uma boa experiência. Sabe quem foi muito gente fina comigo? O Juninho Pernambucano, do Lyon. Sempre que a gente se encontrava ele vinha conversar, dar apoio e sempre dizia: "Pô, seu treinador é louco em deixar você no banco". Então no fim, passei por coisas legais.

"Temos um adversário formidável pela frente. O Sport sabe jogar, segue bem o estilo do Nelsinho Baptista"

Voltando à decisão da Copa do Brasil, você só vai pensar no Sport a partir de domingo?
Imagina. Na quinta-feira, já cheguei no Corinthians e pedi o teipe do jogo do Morumbi. Ainda não estava pronto, mas vou dar um jeito de olhar na concentração. Vou pro jogo do Barueri, não sei se vou jogar. Se não der para ver o teipe agora, eu assisto neste domingo. E olha que, com meus filhos por aqui, está difícil de ver. Trabalho mais em casa do que no Corinthians. Só vendo.

O resultado (3 a 1) tornou mais fácil a conquista da vaga na Libertadores?
Nada. Temos um adversário formidável pela frente. O Sport sabe jogar, segue bem o estilo do Nelsinho Baptista (técnico do Sport) com dois laterais que sobem muito, dois volantes fechando ali na frente da defesa. E é uma equipe mais experiente do que a nossa. Vamos ter que jogar muito para ganhar esta parada.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

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