
Atualizada às 11h36 Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)
Se informação é a nova forma de poder, o celular é a nova arma.
O incidente envolvendo o Vice-governador do Rio Grande do Sul, o Sr. Paulo Feijó, e o ex-Secretário da Casa Civil da Governadora Yeda Crusius, o Sr. Cézar Busato, para bem longe de qualquer análise política ou juízo de valor apressado, me traz de súbito a noção do potencial explosivo das versões mais sofisticadas desses aparelhinhos telefônicos.
Os celulares de nova geração comportam uma hora ou mais de gravação com captação de ótima qualidade. Não seria pouco o estrago de poder registrar qualquer conversa em lugar onde o que menos se espera é a perpetuação das palavras jogadas ao vento no calor da hora, qualquer hora.
Não preciso ser mais claro, preciso?
Imagine os avisos nas entradas de bares e restaurantes: "Prezado cliente, antes de entrar deixe o seu aparelho celular com um de nossos funcionários". Detectores colocados estrategicamente antes de você entrar no salão, já que numa conversa entre amigos de fé sempre se diz algo que dali a anos (não há como prever) um daqueles seus irmãos camaradas poderá usar com o propósito exclusivo de acabar com sua reputação.
Claro, não há apenas o lado ruim "da força", imagine que você acabou de comprar um automóvel zero e eis que a sua nova e espetacular aquisição veio com o motor pingando óleo, com problema nas pinças da suspensão e com uma pequena falha na regulagem do motor flex, e você vai até a concessionária e os funcionários da oficina te dão aquela enrolada, entremeada com grosserias sutis, e depois de uma hora e meia te dizem que consultaram a fábrica e que estão a espera dos procedimentos (em algumas situações esta é a pior palavra do mundo) e isso (as instruções da fábrica) só acontecerá no próximo dia útil, que será segunda-feira (eles não têm culpa de você ter retirado o carro na quinta e só ter percebido os problemas na sexta). Você fica ali tranqüilo segurando o celular e gravando aquele atendimento primoroso para depois ajuizar a devida ação reparatória por danos materiais e morais.
Os celulares ficarão ainda mais temidos à medida que forem se miniaturizando.
Imagine.
Quem participa de uma conversa pode gravar. Não obstante a isso, qualquer conversa que envolva o patrimônio público e o bem comum deve ser transparente e de acesso a todos os interessados. A vida pública tem seu ônus, está na hora da classe política aprender, nem que a lição venha do inusitado, do quixotesco.
Há tempos falei num "BBB Congresso Nacional", mas agora me dou conta que seria muito mais viável se a produção de um desses programas engraçadinhos da atual tevê brasileira bancasse a campanha de um candidato seu, com contrato de acompanhamento por todo o mandado (jornada de vinte quatro horas), e o tornasse "a peste" com a qual os outros parlamentares teriam medo de conversar ou não, como haveria grande audiência, todos buscariam algum tipo de proximidade com ele, o midiático, e isso seria garantia de popularidade - estar ao seu redor e ser de fato comprometido e honesto.
Não uso agenda. Minha vida inteira está no celular, e nele, sem a intenção de alarmar, até há umas filmagens e umas gravações.
Terra Magazine