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Terça, 10 de junho de 2008, 07h55 Atualizada às 08h53

Duas praças

João Carlos Salles
De Salvador (BA)

(a moon swims out of a cloud
a clock strikes midnight
a finger pulls a trigger
a bird flies into a mirror)
e. e. cummings

Às vezes, porque nunca a visito, parece que esqueci Cachoeira. Mas como poderia esquecer o lugar onde ainda me ocorrem os sonhos?

Hoje, porém, foi um convite que me fez lembrar duas de suas praças. Pediram-me uma palestra para o dia da prevenção ao suicídio, com o motivo acadêmico, é claro, de eu ter escrito uma Dissertação sobre Durkheim. E sou assaltado pela lembrança das praças.

A primeira, a Praça da Aclamação, em cujo sobrado de número 8 nasci e na qual, com cerca de seis anos, soube pela primeira vez que minha mãe se matara. Como informações assim não se anulam, mas antes se acumulam, a notícia não apagou a informação anterior de que morrera de parto. Na verdade, as duas imagens se entremesclaram, se embeberam uma da outra, e uma e outra prosseguiram inteiras, fazendo somar-se à culpa de haver nascido a incapacidade de, nascido deveras, poder salvá-la.

Suicídio e nascimento se irmanaram ainda com mais força, porque favorecidos pelo hibridismo com que o acaso fez cercar a novidade. Soube de tudo enquanto brincava vestindo a cabeça de um bumba-meu-boi, como se fora um precário minotauro. Desde então, com a força desse nascedouro, a animalidade comum a todos nós, conquanto incontornável, sempre me foi aterradora. No mínimo, ela traz más notícias.

Por oposição talvez, lembro-me de uma praça outra, na saída da Rua do Amparo, em frente à agência dos Correios e Telégrafos, com seu singular monumento: um quase obelisco ostentando em bronze o texto da carta-testamento de Getúlio Vargas.

Ao brincar nessa praça, a carta em bronze me fascinava. E, de tanto lê-la, não duvido, resta-me comprometido o estilo, que me parece cobrar da palavra escrita uma grandiloqüência desmedida.

Mas vejo agora um outro aspecto. A carta me fez repensar desde cedo, embaralhando ainda mais as coisas, a relação entre vida e morte. Com isso, ela talvez esteja, somada à reação a outras praças, na raiz de uma militância que me vem e volta, qual um abismo ineludível, a trazer algum valor à idéia pura e simples de renúncia, com todos seus efeitos indesejáveis.

Enquanto minha mãe Lêda Lícia, ao matar-se, ao tomar a vida em suas mãos e entrar como um pássaro em um espelho, abandonava seus compromissos, suas obrigações com o passado e o futuro, Getúlio abandonava a vida pela história - o que é, convenhamos, deveras incerto e poucas vezes afortunado. A gravidade da militância é, talvez, essa mesma incerteza, que, tornada em pesadume, cobra seu preço.

Nada se perde. Tudo se transforma. Acumulados e contraditórios, os fragmentos dessas praças podem ser lidos em diversas ordens, o que sempre nos enreda, mas também pode libertar-nos, como bem sugere Merleau-Ponty ao refletir sobre a ciência dessas ruínas acumuladas: "(a psicanálise) não torna impossível a liberdade, (...) nos ensina a concebê-la concretamente, como uma retomada criadora de nós mesmos".

E, com efeito, posso também lembrar que, depois de ler mais uma vez algum fragmento da carta, com a leveza de meninos, descíamos em bando em nossas bicicletas a suave e extensa inclinação da Praça Dr. Milton e, mãos soltas, levitávamos sem temor e sem fardos, apenas entregues à nossa cumplicidade imediata com as coisas.

Pode parecer que esqueci Cachoeira, mas ninguém, em sã ou insana consciência, esqueceria uma paisagem comum a sonhos e pesadelos.

João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.


Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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