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Quarta, 11 de junho de 2008, 07h55 Atualizada às 22h06

Diário de uma viagem ao Amazonas (VI)

José Cláudio
Do Recife (PE)


Barreira do Matupiri, Rio Madeira, entre Novo Aripanã e Manicoré

Cemitério de Nova Olinda, Rio Madeira, AM, 1975. Alonso está no leme. O maquinista João joga a linha com um chumbo na ponta para ver a fundura. O cozinheiro Valter pica a carne. Filomeno está enchendo a caixa d'água. Eu vou fazer a barba. Hoje pintei dois quadros: "Manicoré" e "Democracia", nomes de dois lugares no Rio Madeira. Lavei roupa, que já secou, e já guardei, remendei um calção, limpei a lama das botinas e engraxei-as. E limpei as vértebras do pescoço da tracajoa, que Vanzolini tinha botado na água sanitária para soltar mais a carne depois de ter cozinhado uma meia hora.

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Telefonema para Léo. Central de Manicoré. Data: 07/11/7. Minutos: 03. Total: cr$50,40. Telefonista: Graça.

MZUSP: Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. EPA - FAPESP: Expedição Permanente da Amazônia - Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Vanzolini aprendeu a lidar com bicho com sua mãe que criava um macaco, dava banho nele e botava perfume. A família do pai dela era de São Luiz do Paraetinga e a mãe de Itu. Nasceu em Jabuticabal, chamava-se Finoca. Mas ele diz que não, que o macaco de Dna. Finoca veio depois.

Jabuticabal é a letra de Glorinha. "Glória Moreira!", lembrou Vanzolini. Chica disse: "Ela dançava na minha escola". Não há nada que Chica não tenha estudado: pintura, dança, caratê...

No lugar Sapucaia tem uma enseada de uns duzentos metros, de uma terra caída. Alonso leu no jornal em 53: A Tragédia da Sapucaia. Nesse local, no barranco, tinha uma cidadezinha e, dia do padroeiro, festa. Uma se destacava, era a cobiçada, inclusive por um moço loiro muito bonito que apareceu de repente sem ser conhecido de ninguém. Os outros, enciumados, expulsaram-no. Ele disse: "Eu vou mas vocês vão também". Mergulhou no rio e quando levantou mais na frente já era o boto, desses vermelhos. A festa continuou e a terra caiu levando todo mundo. Alonso, quando entrou no Madeira, pediu ao maquinista João, prático do Rio Madeira, pra mostrar o lugar e viu a enseada. Na noite do padroeiro quem ali navega ainda escuta música de viola, sanfona e toque de tamborim vindo do fundo do rio.

Valter, o cozinheiro, conhece em Aurinim, no Solimões, uma senhora que passou três dias no fundo do rio. Ela tinha dado à luz mas o marido não ligava. Ela um dia estava no mosquiteiro, com muita febre e a meninada tomando a jacuba, um pirão de farinha n'água fria. Um chibé. Senão quando os homens passaram carregando a mãe, dois morenos e dois loiros. Ela conta que a levaram para o fundo do rio. Era um palácio, uma sala, uma mesa enorme e todas qualidades de comidas. Os louros, botos vermelhos, disseram-lhe que devia comer de todos os pratos. Mas se ela comesse ficava. Aí os morenos que eram botos tucuxis defenderam-na quando ela já tinha provado de dois. Deixaram-na na praia onde o marido encontrou-a desmaiada, envolvida numa golda de lodo do fundo do rio. Isto ocorreu em 72.

Filomeno aos dez anos, quando morava em Nhamundá, ou Jamundá como aprendemos no colégio, ia numa canoa levando a sobrinha "mordida de macaco", que é assim que dizem quando a moça está menstruada, para enganar os meninos, que levou uma mordida de macaco na perna. E aí um boto vermelho apareceu e pegou a dar voltas perto da canoa procurando virá-la, pois ficam excitados quando sentem sangue de moça. Aí Filomeno se lembrou do único meio de afastá-lo: jogar a faca, de ponta, no fundo da canoa e deixar enfiada. Aí o boto fugiu.

***

Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em abril de 2007.


José Cláudio é pintor, autor dos livros Meu pai não viu minha glória e Bem dentro. Reside em Olinda.

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