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Quarta, 11 de junho de 2008, 07h55 Atualizada às 19h21

Verão

Amilcar Bettega
De Paris

Aquele dia fora se adoçando aos poucos, à medida que a tarde avançava, e no céu azul e sem nuvens o sol foi ganhando outra maneira de brilhar, inaugurando uma outra luz, muito clara e plácida, que se juntava ao rio e parecia correr com ele, carregando sem tirar do lugar os reflexos das árvores que cresciam nas ilhotas que se descobriam a trinta metros da margem.

Eles desceram uma pequena escada de pedra que acompanhava o declive do terreno desde o nível da avenida, onde os carros passavam com a freqüência habitual do fim de tarde, até o largo empedrado do antigo cais de um porto que já deixara de existir há mais de um século.

Falavam alto e enquanto percorriam os poucos metros até a margem do rio, desvencilhavam-se das mochilas e dos casacos e dos tênis. Desceram ainda uma outra escada, mais abrupta, que ia do cais e terminava diretamente na água; e sentaram-se ali, sobre os degraus.

Abriram as mochilas e em meio aos livros e cadernos surgiu um saco com latas de cerveja. Abriram as primeiras e brindaram com sincera alegria.

Eram dois rapazes e uma garota. Dezoito a vinte anos.

Um dos rapazes tirou a camisa e espichou-se na escada de pedra, pousando os cotovelos sobre os degraus. Estavam muito juntos todos os três, esticaram os braços e fizeram outro brinde. De repente a garota começou a falar num tom sério e os dois rapazes escutavam com atenção. Nesse momento a diferença de idade entre eles pareceu aumentar, ela agora era muito mais madura e experiente do que eles, transparecia inclusive certa liderança sobre os rapazes. Ela relatava uma história que parecia bastante interessante, pois os outros dois permaneciam absortos e tinham até esquecido de suas cervejas. Por vezes ela levantava o braço e acompanhava com um gesto largo sua narrativa. De repente, com um grande sorriso, ela bateu na coxa do rapaz que estava espichado sobre a escada e todos explodiram numa risada farta, com gosto.

Levaram as latas de cerveja à boca quase ao mesmo tempo, como que despertados de um transe. Ao largo, no rio, um caiaque passava lentamente. Abriram outras cervejas. Um dos rapazes apanhou um livro e leu um trecho e depois começou a falar, mas era evidente que não conseguia prender tanto a atenção dos outros quanto ela fizera há pouco. Rapidamente ele encerrou o que dizia e todos os três passaram a falar alternadamente, num franco diálogo.

E continuaram conversando, rindo e bebendo. As mochilas tinham suas bocas abertas, alguns livros se espalhavam pelos degraus, era perto de oito horas mas o sol continuava alto e a luz intensa.

Puxaram as últimas latas de cerveja e brindaram.

As mochilas agora estavam como mortas sobre a pedra, disformes e esvaziadas. O céu estava azul e sem nuvens, o rio passava placidamente, as cervejas terminavam mas eles continuavam ali, sentados sobre os degraus de pedra, rindo e conversando, como se aquilo não tivesse fim.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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