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Sexta, 13 de junho de 2008, 07h59 Atualizada às 12h40

Olimpíada da discórdia...

Rafael Prada
De Vancouver (Canadá)

Receber uma Copa do Mundo ou Olímpiada, seja de inverno ou verão, é motivo de orgulho para qualquer cidade e país-sede. Sinal de reconhecimento ou motivado por fatores - ou favores - políticos, a escolha tem tudo para fazer com que todos envolvidos tenham motivos para sorrir.

O dinheiro público jorra aos borbotões, investimentos (em planejamentos sérios e concretos) partem de empresas de diversos segmentos, a estrutura do local escolhido, fatalmente, se fortalece e, por que não, deixa um legado que poucas reformas políticas teriam capacidade de realizar.

Na teoria, os cidadãos são os mais beneficiados. Melhorias no transporte público, modernizações e inovações urbanísticas, desenvolvimento tecnológico e das telecomunicações, investimentos em modernas e capacitadas praças esportivas, evolução do sistema educacional, boom imobiliário, saneamento básico igualitário, alvo das maiores companhias do mundo e, por fim, o orgulho de ser parte de uma longa história de vencidos e vencedores.

Se Atlanta-1996 passou batida, Barcelona-1992 agradece até hoje por ter sido escolhida pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) como sede dos Jogos Olímpicos de Verão. É considerada referência na organização de grandes eventos esportivos e serviu, inclusive, como fonte de informações para a realização dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Competição que, infelizmente, ficou mais para Atlanta do que para Barcelona.

Vancouver ainda busca o seu lugar. Escolhida em 2003 pelo COI para ser a sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, trava uma batalha diária com seus moradores sobre as benesses, e malefícios, que uma candidatura bem sucedida, comprovadamente, gera à cidade-sede. Mas convencer os vancouverites, como são chamados os locais, está cada vez mais complicado.

A menos de dois anos da abertura oficial das competições, a prefeitura tem enfrentado problemas justamente onde mais temia: no bolso de seus cidadãos. Reconhecidamente uma das melhores cidades do mundo para se morar, já era cara por natureza. Atualmente, seu custo de vida ainda mais alto é alvo de críticas de moradores, turistas desprevinidos e canadenses provenientes de outras localidades.

Com a expectativa de receber sete mil atletas de oitenta países e mais de 250 mil visitantes somente para os Jogos, que durarão 17 dias, o evento tem sido tratado pelo governo federal e pelo Vanoc (Comitê Organizador de Vancouver) como a menina dos olhos, uma nova chance de colocar o país de vez no mapa esportivo, após Calgary-1988 já ter sido sede do mesmo evento e Montreal receber os Jogos de Verão.

Mas, se em 2003, a aprovação pública pela candidatura da cidade chegava a 2/3 do total, os números já não parecem tão favoráveis com a abertura dos Jogos mais próxima. No último levantamento feito pelo Vanoc, em parceria com o instituto Charlton Strategic Research, apenas 48% dos moradores da província de British Columbia se mostraram dispostos a participar e comparecer às disputas em 2010.

Por outro lado, 75% dos canadenses do país dizem se tratar de uma "experiência única" comparecer a uma Olímpiada. A opinião, como deixa claro a pesquisa, não significa exatamente a participação efetiva.

No entanto, o que tem mais incomodado a cidade não é exatamente a realização dos Jogos em suas terras, mas, sim, o quanto cada cidadão tem desembolsado involuntariamente no financiamento de obras e melhorias.

Inicialmente estimado em CAD$ 1,4 bilhão, o orçamento oficial já chega a CAD$ 1,7 bilhão, entre investimentos que partem do governo municipal, provincial, federal e patrocinadores. Mas há quem diga que os gastos cheguem a exorbitantes CAD$ 6 bilhões.

Com o número de sem-tetos aumentando, especialmente durante o inverno não tão rigoroso como no resto do país, e a fuga da população para cidades vizinhas devido ao custo imobiliário altíssimo, Vancouver corre um risco cada vez maior de chegar aos Jogos de 2010 com cidadãos descontentes e pouco dispostos a aproveitar um legado que pesa cada vez mais no bolso dos que deveriam ser mais beneficiados.


Rafael Prada é jornalista formado pela Universidade Metodista de SP, já acompanhou a Seleção Brasileira de perto e cobriu tragédias e festas que marcaram São Paulo. Atualmente mora em Vancouver, onde estuda (mais!) e tenta se proteger do frio e da neve.

Fale com Rafael Prada: rafaelprada82@terra.com.br

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