
Atualizada às 07h58 Luciano Borges
De São Paulo
O Brasil disputa os próximos Jogos Olímpicos depois de ter feito a melhor preparação de sua história. Quem garante é Marcus Vinicius Freire, ex-jogador de vôlei, medalha de prata na Olimpíada de Los Angeles em 1984, e chefe da delegação brasileira desde Sidnei (2000). Ele trabalha com um grupo de 17 pessoas para dar suporte aos atletas brasileiros em Pequim.
Desde a Olímpiada de Atenas, em 2004, o trabalho ("voluntário", diz) dele é acompanhar o chamado ciclo olímpico, período de quatro anos em que as diferentes Confederações tentam levar o maior número de participantes para os próximos Jogos.
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Desta vez, os brasileiros se apresentam na capital chinesa - que Marcus chama de Beijing, atendendo ao pedido dos chineses - sob o efeito da Lei Agnello/Piva que injetou dinheiro vindo das loterias federais no esporte. Por este motivo, a delegação do Brasil deverá ser a maior de sua história olímpica. A possibilidade do país subir alguns postos no quadro de medalhas é boa. Na Grécia, a equipe nacional ficou em 16 lugar, com cinco medalhas de ouro.
A partir de julho, Marcus Vinicius se desloca para Macau (China) e Tóquio (Japão). Ele vai acompanhar o estágio final das equipes de atletismo, natação e futebol. É o Comitê Olímpico Brasileiro, para quem ele trabalha desde 1999, que dá a estrutura básica aos atletas e treinadores. "Imagine que vamos receber em Beijing competidores brasileiros que se prepararam em 14 países diferentes", contabiliza.
Empresário e sócio de uma empresa de eventos e promoção esportiva, Marcus tem 45 anos e é sócio dos técnicos Bernardinho (vôlei) e Carlos Alberto Parreira (futebol). Ele respira Jogos Olímpicos. Mas se recusa a responder duas perguntas: quanto custa mandar uma delegação dessa à China ("siceramente não sei, isso é com o pessoal que cuida do dinheiro") e quantas medalhas o COB espera que seus atletas conquistem em Pequim.
Terra Magazine - O que o COB espera da delegação brasileira em Pequim?
Marcus Vinicius Freire - Uma participação melhor do que em Atenas. Este quadriênio iniciado logo após os Jogos de Atenas representou o período da melhor preparação de nossa história. Com a Lei Agnelo/Piva, dois por cento da arrecadação bruta de todas as loterias federais passaram a ser repassados para o Comitê Olímpico Brasileiro e, de nós, para as confederações. Cada uma apresentou um projeto, relatando o desempenho em Atenas e dizendo o que pretendia fazer até Beijing. O resultado é que vamos para estes Jogos com recorde de atletas em 28 modalidades.
Qual a estimativa de número de atletas?
Estamos falando de 250 atletas e uma delegação com cerca de 450 pessoas.
Qual Confederação fez a lição de casa mais bem feita?
Na média, todas souberam aproveitar os recursos. Claro que há diferenças até pelo tipo de modalidade, da exposição na mídia que ela consegue, se ela tem ídolos ou não, se tem história. Mas, de maneira geral, podemos dizer que a Ginástica cresceu muito. Há quatro anos, a ginástica feminina chegou bem em Atenas, mas a masculina não. Hoje, temos também atletas muito competitivos no masculino.
"E aí, conhecendo a mídia brasileira, se falamos em seis medalhas de ouro e ganhamos cinco, as manchetes vão dizer que foi um fracasso"
Vocês esperam medalha do Diego Hipólito?
Ele é um atleta que disputa uma medalha, mas não nos atrevemos a dizer que ele tem que ganhar medalha.
Aliás, o COB nunca faz previsão pública de medalhas.
Porque não dá para fazer previsão correta. E aí, conhecendo a mídia brasileira, se falamos em seis medalhas de ouro e ganhamos cinco, as manchetes vão dizer que foi um fracasso. Este é um dos motivos.
Há outros?
Eu já fui atleta e sei como são essas coisas. Se eu chego aqui e digo que o vôlei masculino vai ganhar medalha de ouro, eu provoco duas reações: os jogadores da seleção brasileira vão se sentir pressionados porque todo mundo passa a esperar nada menos do que o ouro. E o outro efeito é na seleção feminina de vôlei, que pode se sentir desestimulada por causa de nossa previsão.
"É claro que alguns esportes têm mais dificuldade porque não estão na mídia, não têm ídolos e isso impede o crescimento"
O COB monitorou as confederações nesses quatro anos?
Não digo monitorar, mas fazer junto com as confederações. O dirigente apresentava o planejamento dele, com aquela análise do que já tinha feito e o que pretendia fazer. O dinheiro da Lei Piva só passa por nós e vai para as confederações. Nossa contribuição então foi a de passar as experiências que deram certo em uma modalidade e avisar sobre o que pode dar errado. De repente, o sujeito chega e diz que quer construir um Centro de Treinamento. A gente pode perguntar "espera aí, você não tem atletas o suficiente". Então é melhor ele começar a formar praticantes, fazendo parcerias, convênios com escolas, enfim, preparando primeiro a base.
As diferenças de uma modalidade para outra são grandes?
Olha, tem aquela confederação que a gente chama de móvel porque não tinha um escritório, um arquivo, secretária, este mínimo exigido para uma entidade se organizar. Então, as pastas iam no porta mala do carro do dirigente. Neste caso, o COB orienta sobre como se organizar, como iniciar o trabalho. É claro que alguns esportes têm mais dificuldade porque não estão na mídia, não têm ídolos e isso impede o crescimento. É um círculo vicioso ruim. Sem mídia, não há patrocínio. Sem patrocínio, não há investimento na formação de atletas. Sem vencedores não há exposição.
Mas a Lei Piva não ajudou a dar um salto?
Algumas Confederações usaram o dinheiro da Lei Piva para criar um círculo virtuoso. A ginástica, por exemplo, soube iniciar um trabalho com os atletas e, na medida em que os resultados foram aparecendo, trouxe verba da iniciativa privada e também estatal. Quem conseguiu criar este mecanismo foi embora...
O futebol não recebe dinheiro da Lei Agnello/Piva. Como é o relacionamento entre o COB e a CBF?
Nossa relação é muito boa. Mas não temos nenhuma ingerência na preparação das duas seleções. Na China, sim, estaremos lá para dar suporte e tudo o que for preciso para os dois times. O relacionamento entre o nosso presidente Carlos Nuzman e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é maravilhoso. Eu me entendo muito bem com o Dunga, Jorginho e o Américo Farias. É uma pena que a FIFA não considere o torneio de futebol na Olimpíada como um evento dela. É a única modalidade que tem limite de idade e as seleções quase não podem treinar porque os clubes não liberariam os jogadores.
Em Atenas, o atletismo conseguiu apenas uma medalha de bronze na maratona. Agora, com os saltadores Jadel Gregório e Maurren Maggi, a modalidade mostra evolução?
Sim, não há dúvida. O atletismo tem hoje atletas bem competitivos. Nós conseguimos lapidar alguns diamantes, ajudar na preparação de atletas com alguma história como o Jadel e a Maurren. Eles tiveram a melhor preparação possível, com recursos para todos os campeonatos. Trouxemos ainda competições importantes aqui para o Brasil. Vale lembrar também que, no Pan, a delegação brasileira contou com 21 técnicos estrangeiros que passaram "know how" e tecnologia importantes para os atletas.
"O futebol é a única modalidade que tem limite de idade e as seleções quase não podem treinar porque os clubes não liberariam os jogadores"
A natação foi para Atenas com o objetivo de chegar nas finais. Agora já se fala em medalha. Mas agora apareceu um problema chamado LZR.
Pois é. Todos os países cresceram muito de 2004 para cá. Não dá para a gente olhar só para o umbigo. Mas acho que a natação apresentou um aspecto altamente positivo: ela mudou nos últimos quatro anos, fez uma renovação, sem que houvesse um decréscimo da competitividade. Então perdemos o Xuxa, o Gustavo Borges, mas temos o César Cielo, o Kaio Márcio, o Thiago Pereira e também temos boas nadadoras.
O desempenho em Pequim vai ajudar a candidatura do Rio para ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016?
Deixa primeiro eu esclarecer uma coisa: Pan é Pan, Olimpíada é Olimpíada. No Pan, ganhamos 161 medalhas, mas em Beijing vai ser diferente. Aqui, enfrentamos 41 países. Lá serão 205. Alguns muito fortes no geral, como Estados Unidos e China. Outros são fortes em modalidades específicas como, por exemplo, a Grécia no peso. Em Atenas, terminamos em 16º lugar com cinco ouros e 10 medalhas no total. É preciso sempre lembrar esta diferença.
Mas o desempenho em Pequim ajuda a Rio/2016?
Eu diria que não. Não acho que o número de medalhas que o Brasil venha a ganhar em Beijing tenha algum peso na candidatura. Neste sentido, vale muito mais a experiência dos Jogos Panamericanos no Rio, em 2007. Lá, mostramos o envolvimento e o compromisso dos três níveis de governo. A população do Rio participou ativamente e foi maravilhosa. O desempenho de nossa delegação veio se somar a isso. Esta experiência é que ajuda, não as medalhas em Beijing.
Você citou a China e os Estados Unidos. Os chineses vão ultrapassar os americanos no quadro de medalhas?
A China é um capítulo à parte nestes jogos. Ela vai derrubar um tabu de muitos anos. A preparação que eles fizeram é um negócio sério.
"Ah, longe da boate, longe da confusão. Veja bem, é natural que o atleta queira pelo menos dar uma olhada nestes lugares"
Quando o COB confirma a delegação toda?
No dia 23 de julho, às oito da manhã, vamos anunciar toda a delegação. É lógico que até lá, a gente já vai saber quem se qualificou. É mais uma cerimônia para marcar nossa presença em Beijing. Já escolhemos onde vamos ficar na Vila Olímpica. Será no bloco C3. Reservamos três torres e meia, perto do transporte, do refeitório. Vamos ter também um pequeno hospital, à parte do hospital da Vila, para cuidar dos nossos atletas.
E longe da diversão?
Ah, longe da boate, longe da confusão. Veja bem, é natural que o atleta queira pelo menos dar uma olhada nestes lugares. Afinal, os melhores do mundo estão lá. O refeitório tem três mil lugares, é gigantesco, e não é impossível ter na mesma mesa três, quatro grandes nomes do esporte mundial. Mas o importante é que nossos atletas tenham toda a estrutura e paz necessárias para que ele se concentre na competição.
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