
Atualizada às 21h39 Roberto de Sousa Causo
Séries de antologias originais - contendo histórias que não foram publicadas previamente em outros veículos - são um hábito editorial importante para a ficção científica e fantasia nos EUA e Reino Unido. A primeira, Star Science Fiction Stories, durou de 1953 a 1959, em seis números, e foi editada pelo escritor Frederik Pohl, sucessivamente republicada nas décadas de 60 e 70. Na Inglaterra, New Writings in SF, criada por John Carnell, com 21 números de 1964 a 1972. O autor brasileiro André Carneiro chegou a ser publicado na série Nova (quatro números, 1970-1974), editada por Harry Harrison. Algumas se tornaram particularmente importantes e famosas, como Orbit (21 números, 1966-1980), editada por Damon Knight, e de grande sucesso de vendas e junto aos prêmios literários da FC. Full Spectrum, criada em 1988.
Em tempos recentes, após um hiato, antologias originais tornaram a aparecer e a movimentar o cenário da FC anglo-americana, especialmente a série inglesa The Solaris Book of New Science Fiction, editada por George Mann.
No Brasil, onde as revistas de FC sempre tiveram dificuldades para se manter, antologias originais poderiam ter sido uma opção interessante. Gumercindo Rocha Dorea tentou uma série, com o lançamento de Histórias do Acontecerá - 1, em 1961, mas não conseguiu dar continuidade. Em 1991 ele e eu tentamos organizar o volume 2, novamente sem sucesso.
Agora, com a publicação de Ficção de Polpa Volume 2, organizada pelo gaúcho Samir Machado de Machado, surge a primeira série de antologias originais do Brasil - antes tarde do que nunca!
O volume 1 apareceu em 2007, pela Editora Fósforo, de Porto Alegre, e o volume 2 surge agora por uma nova editora, a Não Editora, também de Porto Alegre. Antologias originais prestam-se a intervenções - como a famosa Dangerous Visions (1967), de Harlan Ellison -, e a Ficção de Polpa tem certamente um projeto muito bem definido, de revelar novos autores e de "promover e estimular a produção de uma literatura especulativa que tenha como único compromisso o entretenimento do leitor" (volume 1).
Mais projetos de antologias originais estão em andamento. Um deles é Futuro Presente, cujo primeiro volume foi organizado por Nelson de Oliveira e deverá sair em 2009 pela Record. "Futuro Presente", diz Oliveira "é uma coletânea de contos inéditos de ficção científica, aproximando escritores do ramo e escritores do mainstream. Esse livro - o primeiro de uma coleção, se vender bem - reúne dezoito ótimos contos sobre o futuro, muitos dos quais eu tenho certeza de que um dia farão parte do cânone contemporâneo." Quanto ao papel de intervenção que as antologias originais podem ter, ele comenta: "Todo organizador de antologias sabe que, ao selecionar determinados autores ou contos (editados ou inéditos), está interferindo criticamente na organização geral do mapa literário."
Abaixo, a entrevista com Samir Machado de Machado.
Qual é a sua formação, Samir, e como surgiu o projeto Ficção de Polpa?
Sou publicitário, formado pela PUC-RS em 2003, pós-graduado especialista em Imagem Publicitária em 2006. Quanto ao projeto Ficção de Polpa, foi uma lenta gestação - que começou nas aulas da Oficina de Criação Literária ministrada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. Tradicionalmente, os alunos, ao se formarem, lançam uma coletânea de contos, o que me permitiu conhecer todas as etapas da produção de um livro, da organização dos textos à impressão. Mas claro que, sendo quase todos autores desconhecidos, em termos de repercussão junto ao público não se pode considerar como um meio de grande visibilidade. E ocorreu-me que havia um grande número de excelentes escritores saindo dessa e de outras oficinas de Porto Alegre, que simplesmente não conseguiam encontrar espaço para mostrar sua habilidade.
Paralelo a isso, estava folheando um livro - creio que era Superman: The Complete History, de Les Daniels - que ressaltava a importância das pulps para o surgimento de toda a indústria de quadrinhos americana como a conhecemos hoje. E me ocorreu que eu nunca soube de algo semelhante no Brasil, de publicações abertas a receber textos de ficção por parte de autores desconhecidos, que para o bem ou para o mal seriam lidos e comentados por um público que consumia as histórias pelo conteúdo, mais do que pelo nome do autor. Ou melhor, pela promessa de conteúdo que o nome do autor significava. Enfim: o quanto de indústria cultural, dos quadrinhos ao cinema e à toda uma cultura de pensar a tecnologia, deixamos de ter no Brasil por essa ausência?
Foi quanto me ocorreu que ficção científica, horror e fantasia eram gêneros populares, e que uma coletânea de contos originais nesse tema ajudaria a driblar um possível preconceito do leitor em ler um autor desconhecido. Só que ter o texto não era o bastante - visualmente, o livro deveria ser tão atrativo quanto. Foi quando comecei a pesquisar mais a estética dos pulps. Entrei em contato com meus colegas de oficina, que por sua vez entraram em contato com outros conhecidos, e no final das contas o mundo é um ovo e todo mundo se conhece. Logo já tinha textos o bastante para montar uma coletânea, já tinha o financiamento, só o que eu não tinha era uma editora. Foi quando entrei em contato com o Alessandro Garcia, que estava montando sua própria editora, e apresentei o projeto pra ele. Ele adorou, e começamos a planejar o lançamento.
Que resposta de público e de crítica você teve do primeiro volume?
Para ser franco, eu esperava que o projeto desse certo o bastante para não gerar prejuízo significativo, afinal eram quinze autores, e como sempre acontece em coletâneas desse tipo, um público de amigos e parentes seria o bastante para pagar ao menos o custo de produção. O que eu não esperava era que a imprensa local se mostrasse tão aberta a incentivar o projeto - jornalistas bastante empolgados com a idéia em geral - e que o público respondesse de forma tão massiva ao dia do lançamento. Em pouco tempo começamos a receber um retorno de leitores que - provincianismo à parte - estavam lendo o livro sem serem amigos de um autor! E estavam gostando. Foi quando senti que poderia dar continuidade à coleção. Embora estivesse impresso "volume 1" na capa desde o início, disse para mim mesmo que só organizaria um segundo volume se o livro pagasse seus custos, o que ocorreu em pouco mais de quatro meses. Para um livro independente, publicado por uma editora independente, com distribuição regional e ainda por cima de gênero, considero um sucesso.
Quais foram as razões da mudança de editora, do primeiro para o segundo volume?
No decorrer do processo de organizar o primeiro volume, acabei conhecendo o Rodrigo Rosp, o Rafael Spinelli e o Antônio Xerxenesky - o Guilherme Smee eu já conhecia, era meu colega de faculdade - e surgiu essa idéia, muito incentivada pela mestra Léa Masina, de que montássemos nossa própria editora. Tínhamos o know-how para produzir o livro, e era um modo de abrir espaço, como pretendíamos desde o início, para autores novos, dando-lhes a oportunidade de participarem desde o início da concepção do livro como um todo.
Mas o segundo volume de Ficção de Polpa abriu o projeto para a participação de escritores veteranos.
Desde o primeiro volume já tínhamos um veterano na coletânea, no caso o poeta Sérgio Napp. Creio que, em uma coletânea em que a maioria dos autores são iniciantes, ter veteranos envolvidos no projeto é essencial, para que ela se torne literariamente abrangente, como queríamos, agregando estilos e experiências.
Que evolução você enxerga entre o Volume 1 e o Volume 2?
Bem, creio que não foi o caso de uma evolução, mas de uma expansão de horizontes e manutenção de uma idéia legal. Expansão também geográfica, já que tivemos a participação de autores de outros estados (Leonardo Siviotti, do Rio de Janeiro, e Carlos Orsi, de São Paulo) e de Portugal (o conto "Traz Outro Amigo Também", do português Yves Robert, vêm sendo apontado como um dos pontos altos da coletânea). Literariamente, creio que há uma continuidade sólida no projeto, a partir da seleção dos contos, dando uma certa unidade temática à eles, ao escolher textos que se encaixassem no mesmo "clima".
O que você acha que a tradição da pulp fiction pode trazer para o debate literário no Brasil?
Um grande mérito das revistas pulp, creio, estava na fidelização dos seus leitores, fazê-los se interessarem e acompanharem a produção textual dos autores favoritos, e também estimulá-los a contribuírem. Nesse aspecto, creio que seria ótimo se pudéssemos importar dos pulps essa tradição de maior envolvimento do leitor-autor, além, claro, do estímulo a uma produção literária de gênero que, ao mesmo tempo, se comprometesse com o leitor tanto em termos de entretenimento quanto na preocupação com a qualidade literária.
No primeiro volume a maioria das histórias pendia para o fantástico literário, e não para a pulp fiction, ao meu ver.
Acho que há contos ali que se encaixariam bem dentro de um conceito mais pulp, mas a grande maioria está mesmo mais próximo de literatura fantástica do que do pulp, como você diz. Porque o projeto gráfico então puxa para o pulp? Em grande parte, para embaralhar a expectativa/preconceito que o leitor pode ter, e nisso tenho em mente um leitor não acostumado à literatura especulativa, do que seja "alta literatura" e "literatura barata".
Algo que li num ensaio do Michael Chabon e que de certa forma foi uma inspiração para o projeto como um todo, é de que o público está tão acostumado a consumir entretenimento descartável e de qualidade discutível, que o próprio conceito de "entretenimento" soa como uma ofensa, como algo ruim. Então o projeto gráfico tenta buscar essa idéia de uma literatura que seja 100% comprometida com o entretenimento, enquanto o conteúdo em si do livro busca uma literatura mais, digamos, pós-moderna - quero evitar usar qualquer termo que dê a entender um julgamento de valor aqui, porque não tenho paciência com o pedantismo que percebo haver em certos debates, principalmente no meio acadêmico, atribuindo uma qualidade inferior a obras que possam ser classificadas como sendo de gênero - que retorna àquela noção, apontada por Chabon, de algumas pessoas verem a idéia de entretenimento como algo necessariamente inferior em qualidade e escopo.
A questão dos contos terem um tom mais literário e menos pulp veio também dentro da questão de acessibilidade ao público "leigo", no sentido de que tentei dar o tom mais abrangente possível ao conjunto de contos selecionados, evitando textos que fossem muito herméticos, que precisassem de uma grande dose de suspensão de descrença, do tipo que só leitores acostumados já a lerem literatura especulativa poderiam dar. Claro, querer abraçar o mundo, pegar tanto leitores "leigos" quanto conhecedores, pode ser interpretado como um bocado de pretensão (embora eu não acredite que seja), mas de qualquer forma, nenhum projeto teria motivos para existir sem uma boa cota de pretensão. E considero como um sinal positivo de aprovação por parte do público que o primeiro volume, tendo sido um projeto independente e de distribuição limitada, esteja quase esgotando.
As antologias que Chabon organizou para a McSweeney - McSweeney¿s Mammoth Treasure of Thrilling Tales e McSweeney's Enchanter Chamber of Astounding Stories - influenciaram o seu projeto de algum modo?
Sim, embora não diretamente. Só tive em mãos o McSweeney's Mammoth Treasure of Thrilling Tales quando já estava preparando o segundo volume, mas já conhecia as edições de ouvir falar quando preparava o primeiro, porque Chabon foi uma grande influência, em termos de idéias, do que queríamos fazer, e tomar conhecimento dessas antologias organizadas por ele me confirmaram que era um bom caminho a seguir. Além, claro, de que todas as edições da McSweeney's são uma referência a ser seguida em termos de alinhamento entre design e conteúdo do livro. Quanto à influência de Chabon - e posso dizer que foi significativa - ela se deu mais pela defesa apaixonada que ele fez da literatura de gênero em geral, do resgate de uma noção de entretenimento de qualidade, do retorno ao storytelling, em seus artigos publicados em jornais e revistas, que tomei contato através da Internet (e que agora foram reunidos num livro novo, Maps and Legends, publicado, justamente, pela McSweeney's). A influência das idéias dele no projeto é inegável - a própria contracapa de Ficção de Polpa teve como referencia a edição americana de As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, publicada pela Picador.
Você pretende encerrar a série com o terceiro volume, ou Ficção de Polpa deverá continuar indefinidamente? Que rumos você acha que a série poderá tomar?
Estamos definindo ainda a data de lançamento do terceiro volume, e após o lançamento dele, vamos avaliar como foram as coisas tanto com o segundo quanto com o terceiro, e definir o rumo a tomar. Não imagino a série como algo indefinido, mas gostaria de fechá-la com um número redondo. De qualquer forma, posso adiantar que estou bastante otimista quanto à continuidade da coleção, e que temos algumas idéias específicas para o que seriam os volumes seguintes - mas não é de bom tom e dá azar falar de coisas que ainda estão no campo das idéias.
Que outros projetos a Não Editora tem, na área da ficção científica, fantasia e horror?
Nesses primeiros seis meses de atividades, lançamos o romance Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky, um faroeste com zumbis e experimentações formais pós-modernas inspiradas em Thomas Pynchon, e nesse primeiro ano será isso. Como somos uma editora independente, não temos condições de lançar tantos livros como gostaríamos, mas para o ano que vem temos alguns projetos sim que, no momento, estão ainda em fase de gestação.
Terra Magazine