
Atualizada às 12h05 Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)
Todo autor que esteja envolvido com narrativa dentro de uma realidade pretérita, e em função de fatos e personagens notórios, cai no dilema de ou ser fidedigno ou se permitir certas flexibilidades (que não sejam meramente de interpretação).
No Brasil, o passado recente está, sob todas as formas, muito bem documentado (não pelo mérito da consciência histórica, mas pelas facilidades tecnológicas e amplitude dos registros da imprensa). Relatá-lo, trabalhá-lo demandará do escritor a clareza do que pode ou não cair para a ficção.
Mesmo as letras de música popular podem tangenciar a realidade de maneira mais ousada, como fez o Gabriel Pensador quando (criando um presente ficcional) compôs a música "Tô feliz (matei o presidente)".
Agrada-me a idéia de usar um passado que ainda esteja acessível à memória dos leitores; mas de um modo que o subverta. Tenho projeto nesse sentido envolvendo a vida de Qorpo Santo.
Autores brasileiros como Luiz Antonio de Assis Brasil, um dos mais adaptados para o cinema no Brasil, que se dedicam ao romance histórico sabem o quanto é difícil não cair na tentação de recriar. Joca Reiners Terron optou por essa remodelagem quando escreveu o livro intitulado "Não há nada lá".
Penso que esse tipo de abordagem literária - com todas as modificações, no meu caso, em certa radicalidade - é uma boa forma de garantir a permanência das relevâncias históricas (considerando que o rótulo depende apenas do que foi registrado e repercutiu, claro).
Bolsas literárias do governo deveriam ser dadas especificamente para esse tipo de trabalho. Poder-se-ia lançar um edital com nomes específicos, em torno dos quais as histórias seriam contadas. Imagine o quanto renderiam romances subvertidos da realidade a respeito de Graciliano Ramos, Paulo Freire, João Cândido, Lima Barreto, Paulo Leminski, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Sérgio Buarque de Holanda, Plínio Marcos, Jamelão.
Não sou de todo a favor de financiamento da literatura pelo governo, mas em alguns casos - como na área da poesia - acho que seja razoável.
Nossa dificuldade em saber quem somos passa pela história que poderia ser apreendida melhor se contada em narrativas mais interessantes. Como já salientei antes, matéria-prima é que não falta.
Terra Magazine