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Segunda, 16 de junho de 2008, 12h05 Atualizada às 12h05

O Tempo & A Ficção

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

Todo autor que esteja envolvido com narrativa dentro de uma realidade pretérita, e em função de fatos e personagens notórios, cai no dilema de ou ser fidedigno ou se permitir certas flexibilidades (que não sejam meramente de interpretação).

No Brasil, o passado recente está, sob todas as formas, muito bem documentado (não pelo mérito da consciência histórica, mas pelas facilidades tecnológicas e amplitude dos registros da imprensa). Relatá-lo, trabalhá-lo demandará do escritor a clareza do que pode ou não cair para a ficção.

Mesmo as letras de música popular podem tangenciar a realidade de maneira mais ousada, como fez o Gabriel Pensador quando (criando um presente ficcional) compôs a música "Tô feliz (matei o presidente)".

Agrada-me a idéia de usar um passado que ainda esteja acessível à memória dos leitores; mas de um modo que o subverta. Tenho projeto nesse sentido envolvendo a vida de Qorpo Santo.

Autores brasileiros como Luiz Antonio de Assis Brasil, um dos mais adaptados para o cinema no Brasil, que se dedicam ao romance histórico sabem o quanto é difícil não cair na tentação de recriar. Joca Reiners Terron optou por essa remodelagem quando escreveu o livro intitulado "Não há nada lá".

Penso que esse tipo de abordagem literária - com todas as modificações, no meu caso, em certa radicalidade - é uma boa forma de garantir a permanência das relevâncias históricas (considerando que o rótulo depende apenas do que foi registrado e repercutiu, claro).

Bolsas literárias do governo deveriam ser dadas especificamente para esse tipo de trabalho. Poder-se-ia lançar um edital com nomes específicos, em torno dos quais as histórias seriam contadas. Imagine o quanto renderiam romances subvertidos da realidade a respeito de Graciliano Ramos, Paulo Freire, João Cândido, Lima Barreto, Paulo Leminski, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha, Sérgio Buarque de Holanda, Plínio Marcos, Jamelão.

Não sou de todo a favor de financiamento da literatura pelo governo, mas em alguns casos - como na área da poesia - acho que seja razoável.

Nossa dificuldade em saber quem somos passa pela história que poderia ser apreendida melhor se contada em narrativas mais interessantes. Como já salientei antes, matéria-prima é que não falta.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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