Terra Magazine

 

Terça, 17 de junho de 2008, 13h58 Atualizada às 20h43

PF ajudou assassino de Chico Mendes, diz juiz

Altino Machado/Terra Magazine

Altino Machado
De Rio Branco (AC)

O caso Chico Mendes marcou para sempre a carreira do magistrado Adair José Longuini, 55, que presidiu, em dezembro de 1990, o julgamento que condenou a 19 anos de prisão o fazendeiro Darly Alves da Silva e o filho dele, Darci Alves Pereira, como mandante e assassino do líder sindical e ecologista de Xapuri (AC).

Longuini trocou o Paraná pelo Acre tendo como sonhos a compra de terras e a carreira como advogado de banco. Seis anos depois, sem a menor experiência, teve que instruir o primeiro processo criminal de sua carreira como juiz, sob a vigilância da imprensa nacional e internacional interessada naquele crime que completará 20 anos no dia 22 de dezembro.

- Magistrado novo, há seis meses na carreira, sem prática advocatícia na área criminal, diante de um processo daquele, no início, em seguida a ação penal. Tive que me desdobrar, estudar mais para fazer o melhor - relembra Longuini em entrevista exclusiva a Terra Magazine.

O juiz dedicou-se tanto que virou professor de direito penal na Universidade Federal do Acre, onde o que ganha, segundo ele, não é suficiente sequer para pagar a gasolina do carro. Casado com a juíza Regina Longuini, pai de três filhos, foi eleito pelo critério de merecimento e tomou posse, em dezembro do ano passado, no cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Acre.

A carreira do desembargador chama a atenção pela firmeza em seguir uma linha de coerência. Além disso, Longuini realizou o velho sonho: é proprietário de duas fazendas, que somam aproximadamente mil hectares, onde cria um rebanho bovino com 1.100 cabeças.

- A área que tenho é pequena para o padrão que impera na Amazônia, tanto que estou estacionado nessas 1.100 cabeças há oito anos. Para possuir um rebanho maior, teria que investir em tecnologia ou partir para a devastação de novas áreas - pondera.

Após 20 anos, o magistrado que presidiu o tribunal do júri de Xapuri dá a entender que Chico Mendes poderia estar vivo caso a Polícia Federal no Acre não tivesse aconselhado Darly a fugir quando o seringueiro apresentou uma carta precatória, expedida pelo juiz de Umuarama, solicitando a prisão do fazendeiro por crimes cometidos no Paraná.

Longuini não poupa a conduta de dom Moacir Grechi, ex-bispo do Acre, nem do delegado Mauro Spósito, ex-superintendente da PF no Acre, que chegou a ser acusado pelo próprio Chico Mendes, um mês antes do crime, de envolvimento no complô que planejava assassiná-lo.

- De qualquer forma decidi cumprir a precatória. Chamei o escrivão e falei: "Olha, não divulgue para ninguém: temos a carta precatória e vamos fazer a prisão de Darly. Você vai fazer o mandado dentro do meu gabinete e vamos chamar a Polícia Militar, que vai sair em campo para fazer a prisão". E assim fizemos, na surdina. Na hora que os policiais saíram já não encontraram mais o Darly. Ele já havia fugido. Pude concluir posteriormente que a própria Polícia Federal foi quem avisou Darly para que empreendesse fuga para não ser preso. Isso me deixou muito aborrecido. Fiz denúncia ao então diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma, para quem enviei um extenso telegrama pedindo que o caso fosse apurado - afirma Longuini.

Leia a seguir os melhores trechos da entrevista:

Terra Magazine - Foi marcante para sua carreira ter presidido o júri do caso Chico Mendes?
Adair Longuini -
Sem dúvida. Foi marcante porque se tratava de início de carreira. Ingressei na magistratura em 1988 e assumi, em Cruzeiro do Sul, uma Vara Cível. Em junho de 1988 fui transferido para Xapuri. No dia 22 de dezembro de 1988 aconteceu o assassinato de Chico Mendes. Até então eu não havia atuado em processo criminal. Em Xapuri não havia promotor. Ao chegar lá, passei a atuar em processos cíveis. A comarca estava há 10 anos sem juiz e deixei de lado os processos criminais porque não havia promotor. Após o assassinato de Chico Mendes foi designado um promotor e foi quando comecei a atuar nos processos criminais. Quando a gente passa em concurso tem que dominar todas as matérias, mas devo admitir que direito penal não era o meu forte.

Fui advogado de banco durante cinco anos. Trabalhava em área cível, trabalhista. Preparei-me para o concurso de juiz, mas uma coisa é a preparação teórica. Outra coisa é botar a mão na massa. Isso me assustou um pouco. Magistrado novo, há seis meses na carreira, sem prática advocatícia na área criminal, diante de um processo daquele, no início, em seguida a ação penal. Tive que me desdobrar, estudar mais para fazer o melhor. Aí eu passei a dominar mais a área do direito penal. Depois de seis anos fui transferido de Xapuri para Rio Branco, mas nesse tempo adquiri uma boa experiência em direito penal porque tive que dar andamento a dezenas de processos criminais que estavam parados. Logo ao chegar em Rio Branco fui aprovado em concurso para professor de direito penal na Universidade Federal do Acre. Então o caso Chico Mendes acabou me dando uma direção que nem eu mesmo esperava.

Naquele junho de 1988, quando o senhor chegou a Xapuri, Chico Mendes o procurou ou chegou a manifestar alguma preocupação com as ameaças que sofria?
O Chico Mendes costumava ir muito ao fórum, sempre com alguém do lado. Ele era meio paizão dos seringueiros. Estava sempre por lá para orientar como tirar um documento, como entrar com uma ação possessória ou divisória. Nessas idas, alguma vezes ele falava comigo. No interior isso é muito comum. A gente vem para a capital e nela as partes já não procuram muito, pois são muitos os juízes. Porém, no interior, todo mundo sabe quem é o juiz da cidade. Naquela época também havia carência de advogados em Xapuri. As partes queriam orientação, não tinha advogado nem defensor, e eu acabava atendendo. Lembro de quando Chico Mendes me procurou dizendo da existência de uma carta precatória para a prisão de Darly Alves da Silva.

O que Chico Mendes disse ao senhor?
Na verdade o Chico Mendes me disse que tinha uma ordem de prisão. Respondi-lhe que achava estranho a existência de uma ordem de prisão, pois Darly era jurisdicionado de Xapuri e a ordem só poderia ter partido de mim. Argumentei que não havia processo penal nem criminal, nem precatória de fora para ter expedido o mandado de prisão. O Chico disse: "A ordem de prisão está com o superintendente Mauro Spósito, da Polícia Federal". Foi quando comecei a me interessar pelo assunto. Até então eu sabia que havia uma litigiosidade, um conflito, entre o Chico e o Darly, que era o que todo mundo sabia, de acordo com o que era publicado pela imprensa. E ele me trouxe a cópia do documento no mesmo dia. Era uma carta precatória do juiz de Umuarama (PR) decretando a prisão do Darly. E eu perguntei: como é que você está com uma cópia e isso não está endereçado a mim? Achei aquilo estranho. Fiquei desconfiado. Telefonei para Mauro Spósito, na presença de Chico Mendes. "Excelência, está comigo, sim. Amanhã dois homens levarão o documento ao senhor", prometeu o superintendente da Polícia Federal. Ele foi de uma presteza, mas continuei muito desconfiado. Preferi achar que uma precatória poderia vir parar nas mãos de um juiz de várias formas.

Chico Mendes me disse que a carta precatória estava com Mauro Spósito porque a mesma fora encaminhada para ele pela Comissão Pastoral da Terra. No outro dia, os agentes da Polícia Federal trouxeram o documento. Quando abri o envelope grande e peguei o envelope original, menor, de Umuarama, o mesmo estava aberto. Falei comigo: "Epa! Tem alguma coisa nisso: um envelope aberto com carta precatória, ordem de prisão!" Olhei bem, mas não havia sinal de rompimento. Imaginei que havia macetes de descolar aquilo com água quente, por exemplo. De qualquer forma decidi cumprir a precatória. Chamei o escrivão e falei: "Olha, não divulgue para ninguém: temos a carta precatória e vamos fazer a prisão de Darly. Você vai fazer o mandado dentro do meu gabinete e vamos chamar a Polícia Militar, que vai sair em campo para fazer a prisão". E assim fizemos, na surdina. Na hora que os policiais saíram já não encontraram mais o Darly. Ele já havia fugido.

Pude concluir posteriormente que a própria Polícia Federal foi quem avisou Darly para que empreendesse fuga para não ser preso. Isso me deixou muito aborrecido. Fiz denúncia ao então diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma, para quem enviei um extenso telegrama pedindo que o caso fosse apurado. Tuma esteve comigo. Em seguida, o bispo Moacir Grechi procurou-me e confessou que entregara a carta aberta ao superintendente. Então flexibilizei, pois o testemunho maior seria de alguém da Comissão Pastoral da Terra, que poderia dizer que havia recebido o envelope lacrado. Isso daria um processo contra o superintente, afastamento do cargo, o diabo-a-quatro. Quando ele disse que entregara o documento aberto, ficou complicado responsabilizar a Polícia Federal.

Mas o Chico Mendes chegou a acusar o delegado Mauro Spósito de envolvimento num complô para assassiná-lo. Lembra?
Sim. Mas na verdade não sei qual era a ligação do bispo Moacir Grechi com o superintendente da Polícia Federal. Não sei se o bispo quis botar pano quente ou não quando disse que entregara o documento aberto. Aí ficou aquela zona: a polícia a procura do Darly, aquele acha e não acha. Darly ficou homiziado, escondido no mato, desde quando saiu a ordem de prisão. Ele só se entregou após o assassinato e a prisão foi intermediada pelo advogado dele, o Rubens Lopes Torres. E aí surge o argumento de que Darci, o filho de Darly, matou Chico Mendes coagido pelo ambiente de procura ao pai, por causa da pressão à qual o mesmo estava exposto. Argumentavam um estado de necessidade para o crime, inexigibilidade de outra conduta.

Existiu ou não um complô para assassinar Chico Mendes?
Acho que a questão do complô, se havia mais gente ou não por trás do assassinato, o que posso dizer, como presidente do processo, é que não existiu o mínimo de prova quanto a isso. Não só eu, mas a polícia também não conseguiu provas nesse sentido, que desse para responsabilizar mais gente.

Mas pode ter existido o complô?
Nós, que somos técnicos, que trabalhamos com processos, nos habituamos a trabalhar com provas nas mãos. É claro que quando se está investigando ou instruindo um processo é necessário estar com as antenas ligadas para se tentar captar alguma coisa envolvendo outras pessoas. Toda a investigação e instrução criminal são voltadas nesse sentido. Evidente que não tem como sair dos autos. Ou você reúne provas ou não. A gente pode até achar que existe outro em conluio com o autor do crime que foi preso, que confessou ou que está sendo investigado, mas, se não reunir provas, não tem o que ser feito.

Os jornalistas usam muito a alegoria de que a punição imposta pela Justiça não atingiu a cabeça da cobra. O que o senhor acha disso?
Uma leitura atenta do processo deixa evidente que havia uma intriga entre o Darly e o Chico. Era algo praticamente pessoal e o acirramento disso foi o seringal Cachoeira. Outras pessoas estavam por trás do assassinato de Chico Mendes? Não se descobriu nada no inquérito nem no processo. O Darly fez uma espécie de compra do seringal. Ninguém sabe até hoje se foi uma compra verdadeira ou simulada, isto é, se alguém passou o seringal para o nome dele para que ele, Darly, o desocupasse e liberasse toda a área para exploração. Na verdade o que existe é uma escritura onde Darly aparece comprando o seringal Cachoeira. No momento que o Darly vai para o seringal Cachoeira e no momento que o Chico faz o empate, aquele disse-me-disse do conflito ficou personalizado ainda mais. Darly vai em juízo com uma ação de reintegração de posse, em junho de 1988.

Como o senhor sabe disso?
Porque eu estava em Cruzeiro do Sul e o juiz em Xapuri era Jerônymo Borges, que estava casado com a ex-mulher do capataz Nilão, aquele que os trabalhadores haviam matado após a visita do então sindicalista Luis Inácio da Silva ao Acre, quando esse disse que chegou a hora da onça beber água. Borges, amparado num lei que tratava o direito de propriedade como algo sagrado, dá a liminar. Aí o pau quebrou porque Darly foi para dentro do Cachoeira com um caminhão cheio de policiais militares. Pouca gente sabe disso. Chega lá e se estabelece o confronto. Alguém do governo estadual tentou aproximar os dois, que chegaram a estender a mão um ao outro. Mas ficou aquela coisa: o Darly com uma decisão judicial na mão para resolver o problema dele, sem poder cumprir em razão do empate, tendo a política do governo estadual no meio, prometendo indenizá-lo. Um defendia a manutenção da floresta e o outro defendia a necessidade de ampliar a derrubada da floresta para plantar capim para o gado. A situação se agravou com o fato de Xapuri ser naquela época palco da impunidade.

O delegado de polícia me disse que não tinha força para controlar nada, pois quem mandava na cidade era a família de Darly Alves da Silva. Na verdade não era nem mais o Darly, mas os filhos Darci e Oloci. Eles botavam banca e já tinham acontecido várias assassinatos antes de Chico Mendes sem autoria certa. A cada mês alguém era assassinado e ninguém sabia quem matou ou mandou matar. Darci e Oloci e aqueles dois, os mineirinhos, faziam o que bem entendiam porque não havia juiz e o delegado tinha medo deles. Além disso, o delegado era subordinado politicamente ao então prefeito Wanderley Viana, que é o prefeito atual da cidade. Se o delegado fizesse algo seria removido imediatamente. O prefeito estava do lado dos grandes, seguindo uma tradição brasileira. Num ambiente desse, de impunidade absoluta, o que passou pela cabeça da família do Darly era que poderia fazer mais e tirar a pedra do caminho.

O que mudou nestes 20 anos?
Mudou muita coisa. Aquele julgamento foi uma demonstração de que, com boa vontade, dá para se fazer Justiça, condenando ou absolvendo. A imprensa estava sempre preocupada em perguntar se haveria Justiça no caso. Eu dizia que sim, absolvendo ou condenando, haverá Justiça. Geralmente as pessoas imaginam que só ocorre Justiça quando há condenação. Eu costumava dizer para a imprensa que, se fosse Chico Mendes quem tivesse matado Darly, quem estaria sendo processado era o Chico Mendes. Aquele julgamento foi um grande aprendizado para a justiça acreana, para a justiça brasileira. A Sueli Belatto, que atuava na acusação, dizia: "Este é o primeiro crime de mando no campo no qual o réu está sendo processado". Isso me alegrava bastante. Pegar o mandante é muito difícil, mas no decorrer do processo fui percebendo indícios. Quando saiu a condenação eu falei: é um marco para a sociedade brasileira. Achei isso fantástico, aconteceu no Acre, um estado pequeno, com uma Justiça acanhada.

Darly e Darci poderiam ter sido absolvidos caso tivessem sido julgados novamente?
Essa possibilidade de mandar o réu para novo julgamento está sendo abolida. No caso Chico Mendes apliquei uma pena de 19 anos e poucos. A questão da pena fica a critério do juiz que preside o julgamento. Quem decide pela condenação é o conselho de sentença, mas a dose da pena é o juiz quem decide. O juiz tem a discricionalidade de condenar num leque de 12 a 30 anos de prisão. Apliquei 19 anos e não 20 anos de prisão para não dar margem a novo júri. Mas acredito que muito provavelmente seriam condenados na hipótese de que tivesse acontecido outro julgamento.

O senhor considera algum outro aspecto marcante?
A qualidade da instrução do processo. Como a Secretaria de Segurança Pública do Acre contou com o apoio de peritos da Unicamp e da Delegacia de Homicídios de São Paulo, o processo ficou abundante em provas. Infelizmente, até hoje não temos no Acre um laboratório para exames de DNA, que poderiam resultar em prova pericial. O melhor laboratório de DNA da Região Norte está no Amapá, que é um estado mais pobre que o Acre. Antigamente, um exame de DNA custava R$ 3 mil. Hoje, com até R$ 250,00 se faz um exame de DNA. Acho que serve de marco também nesse sentido: nós podemos ter instrução, investigação melhor. A nossa investigação aqui ainda vai em cima apenas da prova testemunhal, que a pior das provas ou, se preferir, a prostituta das provas. E as provas testemunhais equivalem à maioria das nossas condenações. O processo do caso Chico Mendes mostra também que com uma investigação bem feita a gente diminui a impunidade, o que por sua vez faz diminuir o crime. O crime e a impunidade estão sempre interligados. A sensação de impunidade faz com que a sociedade pratique mais crimes.

E como está sendo a sua nova fase profissional como desembargador do Tribunal de Justiça do Acre?
Essa é uma nova empreitada, mas tudo é Judiciário, seja em primeiro ou segundo grau. Claro que no primeiro grau existe um sabor especial, pois ficamos testa a testa com os réus, com as testemunhas, sentindo o calor de perto. No segundo, ficamos mais distanciados, em gabinetes, trabalhando mais com papel, mas nele também é possível se fazer um grande trabalho. O Tribunal acaba dando a direção para aqueles que atuam lá embaixo, através de jurisprudência ou de orientação de dotação de infra-estrutura adequada porque tudo está interligado. Um juiz para desenvolver um bom trabalho lá embaixo necessita contar com o apoio do Tribunal. Não é porque tenha sido eu, mas o que fiz no caso Chico Mendes foi uma coisa raríssima. Seria mais cômodo fazer uma instrução pífia do professo e impronunciar os réus e tudo ir para o arquivo. Mas ingressei na magistratura para fazer Justiça realmente, com o compromisso de preencher uma lacuna que havia. Daí o meu esforço. Lembro ter pedido apoio para o meu trabalho e de ter recebido à época algo como R$ 400,00.

O senhor está justificando em parte tanta oposição que enfrentou até que seu nome fosse homologado como membro da Corte?
O problema é que, quando se tem uma linha séria de atuação, a gente fere muitos interesses. Se você tem uma linha de coerência como julgador e decide que nada vai tirá-lo da linha, sem pender para lá nem para cá, isso tem um custo muito alto. Nossa Senhora! É um custo violento. Você vai encontrar uma ala que aplaude, que apóia, mas do outro lado existe uma outra ala que tenta derrubar o tempo todo. Existe uma ala que não quer correr o risco de ficar na mão de quem segue uma linha séria de atuação. São pessoas que praticam ilicitudes de toda ordem e se sentem ameaçadas. E essas pessoas pensam assim: "Estou lascado se cair um processo na mão daquele juiz". E então essas pessoas ficam atuando contra. A sociedade tem dessas coisas. Por isso que a nossa carreira é muito difícil. No mundo político-partidário é bem mais fácil. Os políticos estão aqui hoje, amanhã estão acolá, mais adiante mudam de partido e de aliados e assim levam a vida.

Neste ano, antes de assumir o cargo de desembargador, o senhor fez publicar a sua declaração de bens. Posteriormente, o senhor fez uma correção na declaração de bens, quando incluiu mil cabeças de gado. O que aconteceu?
Esqueci de publicar a quantidade de gado que eu tinha. Na declaração do Imposto de Renda existe o item da declaração dos bens. Tirei uma fotocópia e a entreguei ao Tribunal de Justiça. Acontece que as 1.100 cabeças de gado não foram declaradas no item da declaração de bens, mas num anexo rural, que é um apêndice da declaração de bens. Então lá é que está a movimentação do gado.

Então não foi por sentir vergonha de se declarar pecuarista naquele momento?
(Risos) Nada, nada. Depois que a declaração de bens estava publicada, falei: "Caramba! Mas o gado é uma coisa que não posso negar porque tem valor econômico". Hoje, mil cabeças de gado valem R$ 400 mil ou R$ 500 mil. Então fiz a correção, para evitar que daqui a alguns anos alguém diga que aceitei propina, que fiz patrimônio incompatível com a minha renda. Claro que teria o respaldo de minha declaração do Imposto de Renda, cujas cópias guardo desde que declarei pela primeira vez, em 1971.

O senhor possui quantas fazendas?
Tenho duas propriedades. Tenho uma no município de Senador Guiomard, com 600 e poucos hectares e uma reserva de 200 e poucos hectares, além de uma outra, de 300 hectares, na estrada de Plácido de Castro. Nas duas é que estão distribuídas as 1.100 cabeças. Nasci no Paraná, um estado muito promissor. Nasci em Atalaia, mas me criei em Uniflor. Pois bem, aquela era uma das maiores regiões produtoras de café. Nasci e me criei no meio de muita produção, no meio de grãos. A pecuária entrou em nossas vidas depois, quando começou a ocorrer muita geada no Paraná. Os paranaenses vieram para o Mato Grosso e depois para Rondônia. Meu pai era comerciante e abastecia os trabalhadores do café, de origem nordestina. Aos nove anos eu ajudava meu pai a despachar a mercadoria para os trabalhadores de cinco ou seis fazendas que eram atendidas por ele, que vendia de alumínio a botão. Quando vim para o Acre, vi uma possibilidade de trabalhar com terra. Foi isso o que me trouxe ao Acre. Isso e minha carreira administrativa no Banco do Brasil. Eu me formei em advocacia, advogava em Maringá, no Paraná. Acontece que lá era uma disputa violenta. Aí abriram assessorias jurídicas, incluindo Rio Branco, aqui no Acre.

Estava casado há pouco tempo, consultei minha mulher e ela topou que eu concorresse a uma vaga no Acre. Ela estava se formando em direito e falou: "Vamos embora, aqui tem muita concorrência". Passei e vim como advogado do Bando do Brasil, onde ingressei com 19 ou 20 anos, trabalhando na carteira comercial e rural. Então tudo aquilo que vi na infância, ligado à produção, continuou em minha vida preparando cédulas rurais, financiamentos. Minha formação era tomar dinheiro emprestado, vender a produção, títulos, exportação. Amadureci muito cedo. Com 18 anos tinha feito censo do IBGE e chefiado a regional de recadastramento do Incra. Quando o produtor, por exemplo, informava que possuía tantas galinhas, eu já sabia quanto ovos era a produção anual tamanha a prática e vivência que eu tinha. E por isso eu também tinha vontade de possuir uma terra para poder plantar e colher, de acordo com aquilo que sempre vi e gostei. Cheguei no Acre em 1982 e em 1984 comprei a primeira terra. Advogava para o Banco do Brasil e para fora dele. Tive muita sorte naquela época que a inflação era de 40% ao mês. Pegava muita cobrança de fornecedores do sul contra comerciantes do Acre. Sempre tive um jeito muito fácil de cobrar. Dada minha vivência, tudo era facilitado. De 50 cobranças, ajuizava apenas quatro ou cinco. Negociava e parcelava tudo e logo sobrou dinheiro para comprar a primeira terrinha.

Como vê hoje a compatibilidade do que Chico Mendes defendia com a sua atividade pecuária?
Acho que tem lugar para as duas coisas. Na questão ambiental todos nós já sabemos que não existe outro caminho: nós temos que preservar o Planeta, pois ele está se esvaindo. É como dar aula. Sou professor da Universidade Federal do Acre, mas o que ganho lá não dá para pagar nem a gasolina do carro. Mas eu vou lá passar para os meus alunos o que aprendi até hoje, porque a vida para mim não teria o menor sentido sem isso. Tudo o que aprendi até agora, tudo o que absorvi de tantos processos, tudo o que li e escrevi, se não passar para quem está chegando, a vida não tem sentido. A vida é uma sucessão de legados. Dou aula por isso e não por necessidade financeira. Então eu tenho que preservar o Planeta para os meus filhos, para os meus netos.

Então o discurso do Chico Mendes está certo?
Está corretíssimo. Derrubar a floresta para que? Não existe outra maneira de criar boi que não seja de forma extensiva? Não se pode criar boi confinado? Existem muitas alternativas. É errado criar boi? Não é errado. Nós temos que produzir soja, arroz, feijão. Vamos criar boi onde não é necessário derrubar o mato? As notícias mostram que o mundo corre o risco da fome. A gente sabe que há muita má divisão das coisas no mundo. Mas há a possibilidade de faltar alimento e é uma preocupação que todos nós temos que ter também, de produzir alimentos.

Nas suas propriedades o senhor tem necessidade de expansão da pastagem?
Não, não tenho. A área de mato já é a reserva. A área que tenho é pequena para o padrão que impera na Amazônia, tanto que estou estacionado nessas 1.100 cabeças há oito anos. Para possuir um rebanho maior, teria que investir em tecnologia ou partir para a devastação de novas áreas. Acho que a produção está correta e a defesa em preservar o nosso planeta também. Mas mesmo trabalhando em área de pastagem é possível preservar. Nas minhas propriedades não permito que joguem saco plástico. Não importa quem jogou, mando que removam. Podemos preservar evitando colocar o gado em cima das vertentes. As vertentes d'água de minhas propriedades são as coisas mais lindas. Elas me descansam. Vou para lá e fico adorando porque são verdadeiras dádivas. Tenho tudo isso numa área de pastagem, que é digna de ser visitada. Ao invés de investir em Copacabana ou Ipanema o dinheiro que ganho na magistratura, prefiro investir no Acre. Todos os meus trabalhadores têm carteira assinada, recolho todos os encargos sociais e eles adoram trabalhar comigo. Instalei energia elétrica e água encanada nas duas fazendas e não cobro dos trabalhadores por isso. Faço plantação de frutas e hortaliças. Quem trabalha comigo vive na abundância e me defende em qualquer lugar porque tem consciência de que possibilito a melhoria da qualidade de vida de cada um.

Os meus trabalhadores vivem com dignidade e nada é capaz de atraí-los para viver na cidade. Eu acho que é possível a gente conciliar, encontrar o ponto de equilíbrio para saber o que precisamos explorar e o que necessitamos preservar. Terra eu conheço como a palma da mão e é por isso que o Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre é algo muito importante para o Estado, assim como a criação das reservas indígenas. Nós temos que ter essas correntes contrárias, divergentes, para a sobrevivência da própria democracia.

 

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