
Alberto Luiz Fonseca
De Londres
Você conhece o Heston Blumenthal?
Nem eu. O que eu sei é que ele é a cabeça - e as mãos - no comando do melhor restaurante do mundo, "The Fat Duck" (em português, "O Pato Gordo"), que fica em Bray, um vilarejo pacato do interior da Inglaterra.
Mas, será ele mesmo o melhor do mundo? Para saber ao certo, faça como Santo Tomás: vá ver, para crer. Como eu fui.
Aberto em 1995, no imóvel que antes abrigava um simples pub de cidade pequena inglesa, o Fat Duck recebeu sua terceira estrela Michelin em 2004 e, em 2005, foi eleito pelo respeitadíssimo "ranking" da revista "Restaurant Magazine" (que seleciona e publica a lista anual dos 50 melhores restaurantes do mundo inteiro), como o melhor do mundo.
Assim foi que, num domingo do início deste mês de junho, fui até a pequena cidade de Bray para almoçar no Fat Duck e conferir a honraria. Pouco me importa que nos anos seguintes, 2006 e 2007, o Fat Duck tenha ficado no honroso lugar de "Segundo Melhor do Mundo", atrás do famoso "El Bulli", da Espanha. Pelo que sei (e pelo que vi), em 2008, ou 2009, ele pode muito bem passar de novo à frente.
Às 2 da tarde em ponto, adentrei o recinto do ex-pub, de onde só sairia quatro horas depois, às 6 da tarde, tendo comido a mais extraordinária refeição da minha vida. E, além disso, leve e de muito bom humor!
Logo à primeira vista, há que se notar uma coisa muito interessante. Quando se passa na porta de grandes (e caros) restaurantes, você sabe que eles estão ali. Eles não passam despercebido. Nem desejam passar. Como alguém que pilota uma Ferrari numa rua movimentada - sempre se nota! E quem a pilota tem mesmo a intenção de ser notada.
No The Fat Duck, isso não acontece. Mesmo quando você está à procura do local, com o nome da rua e número da casa na mão, é difícil de achar!
Dentro, o ambiente é simples, limpo, quase espartano. Depois, você entende a razão. Que é muito simples: para Heston Blumenthal e sua equipe, o lugar proeminente no restaurante pertence à comida que se come, e mais aos sentidos ligados a essa experiência. E não à decoração, à música e outros.
Como aperitivo, uma taça de champanhe, outra de vinho branco, serviram-nos maravilhoso pão, acompanhado de belíssimas azeitonas, as melhores que já comi na vida. De tamanho pequeno, firmes à mordida, paladar perfeito. Em suma, extraordinárias.
Aí, você a começa a desvendar os segredos de Heston Blumenthal: o primeiro deles, ingredientes simplesmente fantásticos.
Depois, tem a famosa alquimia culinária. Praticada por Heston, como também por seu arqui-rival Ferrán Adriá, do El Bulli e uns tantos outros "novos bruxos" na Espanha, como agora também na França, na Alemanha, e por aí vai.
O "approach" de Heston é, porém, original, científico. Ele se interessa por algo que, basicamente, ninguém notava até que ele entrou no ramo. A separação que existe entre o sabor e o gosto (em inglês, entre "flavour" e "taste"). Como ele faz isso? Usando aquilo que se define como a "cozinha molecular".
Quer saber mais?
Vamos a uma das entradas, chamada "Nitro-poached green tea and lime mousse", criada em 2001 e até hoje um grande sucesso no Fat Duck. O garçom joga um spray de limão no ar. Enquanto o cheiro paira, ele quebra um ovo de galinha cujo conteúdo é uma mistura de clara (sem gema), vodka e chá. Então, joga uma colherada da mistura dentro de um balde de aço cheio de nitrogênio líquido à temperatura de menos cento e vinte graus centígrados, borbulhando fumaça branca como gelo seco. Um espetáculo visual que se adiciona ao prazer do olfato. E dali ele tira, após poucos segundos, um suspiro feito de açúcar, limão, chá e vodka que, uma vez servido, desaparece na sua boca como uma nuvem gelada.
O caro leitor precisa de mais esclarecimentos? Que tal "The Sound of the Sea", um dos pratos principais do cardápio do Fat Duck.
"The Sound of the sea" (em português, "O Som do Mar"). Uma concha grande, um búzio, é trazido à mesa para cada pessoa, dentro dele um Ipod com os sons do mar para se ouvir durante o tempo em que se consome o prato. O prato: uma caixinha de areia, com um vidro por cima. Sobre o vidro, a praia e o mar, em ondas, que é o que se come. A "areia" do prato é farofa de tapioca. A espuma das ondas, uma espuma de crustáceos. As conchinhas de se catar na praia, biscoitos de amaretto quebrados finamente. E a vegetação, folhas de alga negras. Além disso, uma vieira, um pequeno mexilhão.
Na sobremesa, alguns pratinhos muito bem executados, algumas vezes extraordinários, como "Purê de Manga e Douglas fir", que traz uma "bavaroise" de manga, com caldo grosso de lichia e sorvete de "blackcurrent" (pequena fruta roxa, quase negra, de climas frios).
Ao final do almoço, como se o estoque de surpresas não acabasse, o café da manhã é servido! Primeiro, um pacotinho de cereal marca "fat duck" - com leite... E, depois, Blumenthal apronta mais uma das suas: "Nitro scrambled egg and bacon ice cream". Sorvete de ovos mexidos com bacon, feito no nitrogênio líquido, cremoso, perfeito.
Terminada a refeição, sinto ter comido muito, mas a experiência é tão incrível que ninguém na mesa se sente pesado. Talvez até querendo experimentar tudo outra vez.
Tomamos café e trufas. Compramos o primeiro livro de Heston, "Family Food", já pré-assinado por ele. Continuo, assim, sem conhecê-lo.
Mas, com certeza, posso dizer: conheci o Melhor Restaurante do Mundo! E você devia ir lá também conhecer, vale à pena.
Terra Magazine