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Sábado, 21 de junho de 2008, 09h50 Atualizada às 10h02

Alex Silva: Com Dunga, não tem essa de empresário

Luciano Borges

Na casa do Amaral, em Amparo, cidade do interior de São Paulo, o samba é religião. Os filhos Luisão e Alex são famosos pelo amor ao pagode. Há dois anos, o mais velho levou o Fundo de Quintal e armou uma festa para os amigos. Em dezembro de 2007, o mais novo fechou uma choperia e chamou Reinaldo, o rei do pagode, para outra noite de muita batucada com os mais chegados.

Luisão é zagueiro do Benfica e da seleção brasileira. Alex Silva tem lugar cativo na zaga do São Paulo e foi convocado para o grupo que vai disputar os Jogos Olímpicos de Pequim. Eles são famosos entre os boleiros porque puxam o ritmo nas horas vagas e, especialmente, no ônibus da delegação brasileira. Porque animam e acendem a galera a caminho dos jogos.

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» Veja Alex Silva: "Samba e futebol são sinônimo de alegria"

Alex Silva tem 23 anos. É um zagueiro alto (1m92), magro (81 kgs) e técnico, com bom jogo aéreo, que sabe sair jogando. Ele voltou à zaga titular do São Paulo depois de cinco meses tratando o joelho direito. Este ano, já disputou 12 jogos e fez um gol. Desde que chegou no time do Morumbi, já entrou em campo 178 vezes e mandou a bola para rede em 11 ocasiões.

Formado na base da Ponte Preta e no Vitória da Bahia, ele tem uma rápida passagem pelo futebol francês. Está em São Paulo desde 2006. Já foi chamado para a seleção brasileira principal. E está de olho mesmo no time olímpico.

Por isso, não escondeu sua preferência: gostaria de jogar pela seleção olímpica neste domingo ao invés de participar da partida do São Paulo contra o Sport Recife. Aliás, Alex não esconde que gosta de freqüentar casas de samba, beber uma cervejinha e conviver com os amigos de música. Mas avisa: nunca deixou de treinar bem.

A seguir, a entrevista com Alex Silva.

Terra Magazine - De onde vem esta paixão pelo pagode?
Alex Silva - Desde criança. Meu pai chegava do trabalho e, para relaxar, abria uma cerveja e colocava os discos de pagode. Ele tocava Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e outros sambistas da antiga. Eu e o Luisão ficávamos observando e ouvindo aquelas músicas. Eu tinha uns cinco anos. Até hoje, quando alguém toca uma música daquela época, eu sei a letra de cor. Muita gente fica surpresa de ver um cara de 23 anos cantando essas canções antigas. Eu amo pagode, samba. Está no meu sangue.

Você toca algum instrumento?
Toco rebolo, repique, tantan, pandeiro. Só não toco instrumento de corda. Mas estou aprendendo banjo. Tenho aulas duas, três vezes por semana, com um professor particular. Já tiro um pagode no banjo. É do Fundo de Quintal. O nome da música é Pagode do Cacique, sobre Cacique de Ramos, lá no Rio.

Quando você estava se recuperando da cirurgia no joelho, eu vi você sair para um almoço num pagode de sábado. Onde você gosta de ouvir samba?
Nessa época eu freqüentava o Bar Samba, na Vila Madalena. Mas gosto também de ir ao Bar Brahma para ouvir chorinho, sambas antigos. Tem também uma lojinha de CDs no centro da cidade que sempre tem coisas antigas, muito boas.

"Lembra do jogo contra o Equador pelas eliminatórias, lá no Maracanã? Então, o samba ficou tão bonito que só descemos do ônibus depois de terminar a música"

Seu irmão também é pagodeiro?
É. Ele sempre pede que eu mande CDs novos para ele. Outro dia, fui naquela loja do centro, comprei vários discos, coloquei numa caixa de sapato e mandei pelo correio. Ele gostou muito. O Luisão já sabe tocar banjo e toca percussão também.

E na seleção, você participa dos pagodes?
Claro. Na Copa América do ano passado, eu e o Robinho ficávamos no fundo do busão puxando o samba. Mesmo na folga. Lembro que depois da vitória sobre o Uruguai, ganhamos um dia de folga, mas armamos um pagode na beira da piscina do hotel e ficamos por lá cantando e tocando. Lembra do jogo contra o Equador pelas eliminatórias, lá no Maracanã? Então, o samba ficou tão bonito que só descemos do ônibus depois de terminar a música.

Que tal voltar para a seleção?
Fico bastante feliz. Depois de cinco meses parado, tinha essa dúvida se o Dunga ia me convocar para a Olimpíada. É uma felicidade imensa ter me recuperado a tempo. É um prêmio para todo mundo que estava nessa luta: eu, os médicos, o pessoal do Reffis do São Paulo. Eles trabalharam como leões para eu voltar.

Você voltou a jogar num período decisivo do São Paulo. Como se sentiu?
Voltei na semifinal do Campeonato Paulista contra o Palmeiras. No primeiro jogo, no Morumbi, eu mesmo esperava ver como seria meu rendimento. Foi bom, graças a Deus. Depois, enfrentei o Palmeiras de novo e participei dos jogos da fase mata-mata da Libertadores. Fiz até gol naquela partida contra o Atlético Nacional. Hoje estou muito melhor. Acho até que o joelho está mais forte.

"O Brasil tem excelentes zagueiros na minha idade. Não posso bobear. Em seleção o que vale é o momento"

No mesmo dia em que o técnico Muricy Ramalho disse que não gostaria de liberar você e o Hernanes para este amistoso da seleção olímpica, você disse que queria participar deste jogo.
Olha, sou a favor do São Paulo, entendo que o time está se entrosando agora e que seria importante manter a mesma formação. Mas o Brasil tem excelentes zagueiros na minha idade. Não posso bobear. Em seleção o que vale é o momento. O Henrique do Palmeiras foi chamado para os amistosos contra Canadá e Venezuela. Ele tem minha idade. E não foi convocado para a Olímpica. Se eu não vou, pode ser que apareça outro zagueiro e eu acabe ficando de fora.

É assim tão difícil se manter na seleção?
Vejo a experiência do meu próprio irmão, Luisão. Ele se contundiu antes do amistoso contra a Argélia e quem jogou fui eu. Hoje ele está de volta à seleção. Lá, não pode dar bobeira. Jogar pelo Brasil é defender a pátria. Não penso diferente disso. E este amistoso pode ser o último antes da Olimpíada, da última convocação. Depois, o Robinho vai, o Diego vai. Por que eu não iria? Depois, eu vou representar o São Paulo. E o time tem caras bons para atuar ali atrás, o Juninho, o Aislan, gente que pode dar conta.

Você tem consciência que o time olímpico vai para Pequim sem ter treinado direito?
Tenho. Sei que a seleção usou poucos jogadores olímpicos nos amistosos. Mas vamos ter que esquecer isso e aproveitar o tempo que vamos ter para treinar. Vamos ter que nos superar. É complicado, mas é possível fazermos bons treinos e algum amistoso ainda. O Brasil precisa deste título. Já está na hora. Depois, você olha quem deve ir para os Jogos Olímpicos e vê o Alexandre Pato, Robinho, Diego, Breno, Rafinha, Ronaldinho Gaúcho...é um grupo difícil de ser batido. Ainda mais se conseguirem liberar o Kaká e o Juan.

Outras seleções, como a italiana e a espanhola, já estão montadas e jogando. Você teme quais países?
Acho que o medo maior não são estes times. O temor é com os países africanos que têm tirado o Brasil da briga pelo ouro. Não sei bem porque, talvez por aquele negócio da idade. Os caras parecem que são registrados bem depois do nascimento. Dá para jogar de igual para igual contra as outras seleções.

"E tem uma coisa: com o Dunga, não tem essa de empresário. Ele chamou jogadores da Rússia, Ucrânia, olhou para estes atletas que nunca eram observados"

Você está de olho na seleção principal?
Estou. Também por isso seria muito bom se o Brasil conseguisse a medalha de ouro em Pequim. Quero me fixar na seleção e disputar a Copa do Mundo em 2010.

Junto com o Luisão?
Seria legal. Nunca jogamos juntos antes. Só em peladas. Quando o Brasil enfrentou a Argélia, ele se machucou e eu entrei no lugar dele. Ele já está na seleção. Aliás, os quatro zagueiros (Luisão, Alex, Lúcio e Juan) são excelentes. Eu vou correr por fora, esperando por uma oportunidade.

O que você acha do Dunga?
É um bom técnico. É um treinador que já jogou bola. Por isso, fala a mesma língua da gente. Ele entende o lado do jogador. É um cara humilde, que deixa você a vontade. Depois do jogo do Paraguai, ele disse que não precisava mudar o time, mas a atitude. Depois, o meio de campo da seleção que enfrentou os paraguaios é quase o mesmo que venceu a Argentina na Copa América. O Brasil vai vencer as dificuldades. E tem uma coisa: com o Dunga, não tem essa de empresário. Ele chamou jogadores da Rússia, Ucrânia, olhou para estes atletas que nunca eram observados. Quem está melhor no futebol brasileiro é chamado.

E taticamente, ele é bom?
O Dunga tem a experiência de trabalhar sob o comando de grandes treinadores. Ele e o Jorginho (assistente-técnico) são duas cabeças muito inteligentes. É diferente daquele técnico que passa o que pensa e não ouve o auxiliar. Eles funcionam bem juntos. Treinei com eles por quase um mês para a Copa América. São competentes e não ficam observando somente a equipe titular.

Agora na seleção olímpica, o pagode vai voltar?
Vai voltar sim. Vou levar meus instrumentos para tocar com eles. A maioria gosta bastante de pagode. O Robinho vai estar lá. Vou junto com ele, tocar nas horas vagas, antes de chegar no estádio. Pagode e futebol são sinônimo de alegria.

"Sabia que, em Barcelona, há uma casa de pagode muito boa? O Ronaldinho Gaúcho me contou que lá rola um samba legal e que ele sempre vai lá"

Essa ligação com a música poderia aproximar mais os jogadores dos torcedores da seleção? Não está faltando esse contato?
Concordo que poderia haver mais contato com a torcida brasileira. As pessoas querem ver mais de perto o Ronaldinho, o Robinho. A CBF poderia organizar mais amistosos no Brasil para a galera acompanhar de perto. Mas, ao mesmo tempo, é complicado. Os atletas jogam fora e os clubes europeus enchem o saco para liberar os caras. Depois, sair da Europa e vir jogar no Brasil, com viagem longa de ida e volta em quatro dias, é um negócio cansativo. Mas era bom a CBF trazer a seleção para perto dos torcedores. Sabe que o time do Brasil traz paz neste país. Quando tem Copa do Mundo, as coisas acalmam por aqui.

Como é sua relação com os jogadores que estão fora do Brasil?
É legal. Você chega para treinar. Leva o IPod com músicas novas do Brasil e os caras ouvem, saem correndo e voltam com os computadores para passar para eles. A gente troca informações. Sabia que, em Barcelona, há uma casa de pagode muito boa? O Ronaldinho Gaúcho me contou que lá rola um samba legal e que ele sempre vai lá. Os caras sentem saudade, sentem falta dessas coisas do Brasil. Lá fora, eles não têm com quem fazer tabela num pagode.

E o que você aprende com eles?
Procuro perguntar como é o futebol e a vida lá fora. Um dia vou ter a oportunidade de jogar lá. Por isso é bom saber o que vou enfrentar. Eles falam que o importante é saber falar inglês. Se falar inglês, você se vira melhor. Sei também que lá não existe tanta pressão como no Brasil. O Chelsea perdeu a final da Liga dos Campeões, os jogadores foram embora na boa. Aqui, fomos eliminados da Libertadores pelo Fluminense, aos 47 minutos do segundo tempo, e 30 segundos depois já somos criticados. Alguns comentaristas, que diziam que nossa defesa era muito boa, passaram a dizer que o São Paulo perdeu por nossa culpa. Por causa de um jogo deixamos de ser bons jogadores?

Isso irrita?
Irrita. Ainda vou participar de uns programas onde falaram isso e vou discutir essa história. Ou você é bom ou não é bom. O Rogério Ceni, que é nosso capitão, sempre diz que somos testados o tempo todo, que aqui a história não existe. Na Europa, sua história é respeitada. O capitão do Chelsea perdeu um pênalti e não foi massacrado. Por isso, às vezes, não dá muita vontade de jogar aqui. Lá, você pode jantar com sua família num restaurante e ninguém vai intimar você. Pergunto pro Luisão se ele quer voltar e sempre diz que não. Voltar é mais para quem está uns nove anos fora, como o Marcos Assunção.

"Eu amo samba, freqüento casas onde tem pagode. Não adianta negar. Agora, nunca faltei nos treinamentos, nunca deixei a desejar"

E o interesse do Wolfsburg, da Alemanha?
Tenho falado muito com o Josué (volante). Ele conta coisas boas do time, que dá para viver legal por lá.. Eles querem fazer uma boa campanha na Copa da Uefa. O Kaká também disse que o Wolfsburg está muito bem. Parece que o presidente do clube é amigo de um dirigente do Milan que contou para ele. Agora, não sei se teve mesmo uma proposta. Meu empresário, Juan Figger, não gosta que jogador participe desses conversas. Então, como não chegou nada para mim, acho que são só especulações.

Última pergunta: você sempre fala o que pensa?
Falo. Não sou de fazer uma coisa e dizer outra. Por exemplo: não vou falar que não freqüento pagode e depois faço diferente da porta pra fora. Eu amo samba, freqüento casas onde tem pagode. Não adianta negar. Agora, nunca faltei nos treinamentos, nunca deixei a desejar. O dia em que meu rendimento cair, eu mudo. Mesmo esta história da seleção olímpica. O Muricy queria que eu ficasse, eu queria ir. Se fosse preciso falar com ele, eu falaria.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

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