
Atualizada às 17h20 Carlos Drummond
De Campinas (SP)
A decisão do Parlamento Europeu de autorizar os governos a manter presos por até 18 meses imigrantes clandestinos ou solicitantes de asilo não atendidos contraria a história recente do próprio continente. Para se reerguer após a devastação da Segunda Guerra Mundial, países europeus recorreram a 40 milhões de imigrantes, de nações fronteiriças e de além-mar. Esse movimento permitiu recompor a força de trabalho dizimada nos campos de batalha e teve um papel fundamental no ciclo de 30 anos de crescimento econômico e bem-estar social do continente, entre 1950 e 1980.
Em boa medida, pode-se dizer que a Europa é o que é hoje devido a expressiva imigração do pós-guerra. Entre os imigrantes de além-mar, aportaram levas de habitantes de ex-colônias, flagelados pela exploração e pelas guerras suscitadas pelos colonizadores que agora os acolhiam. Essa recepção, que poderia ser vista como uma pequena redução do passivo acumulado em relação às colônias no período imperial, constituía de fato um agenciamento de ocasião. Como diz o historiador Tony Judt, sem essa força de trabalho abundante, de baixo custo, vulnerável e desorganizada, o boom europeu não teria sido possível.
A solução adotada pelo Parlamento Europeu faz lembrar da tradição de truculência que presidiu a rapinagem de recursos materiais e humanos por parte dos países europeus no período colonial. A Bélgica, uma das sedes do Parlamento Europeu, é representativa dessa tradição. Quando os belgas abandonaram o Congo em 1960 após décadas de exploração, deixaram apenas trinta congoleses com formação universitária para administrar milhares de cargos funcionais, observa Judt.
A relação dos colonizadores com os colonizados encontra em Cecil Rhodes, considerado o pioneiro do imperialismo britânico, um dos seus mais acabados símbolos. Rhodes - a quem se deve o nome original de uma das colônias britânicas, a Rodésia, hoje Zimbábue - iniciou a sua fortuna com a exploração de diamantes na África do Sul. Fundou em 1880 a De Beers Consolidated Mines Ltd., uma das maiores empresas do ramo. Em 1890 foi nomeado primeiro ministro da colônia da Cidade do Cabo.
A ação de Rhodes na África colonizada foi descrita pelo escritor Mark Twain:
"O senhor Rhodes e a sua gangue agem à moda antiga. Eles têm licença para roubar e matar e o fazem legalmente, mas não com compaixão e espírito cristão. Eles roubam aos Mashona e os Matabeles parte dos seus territórios no estilo consagrado de "comprar" por uma ninharia e então forçam uma briga e tomam o resto à força. Eles se apropriam do gado dos nativos sob o pretexto de que todos os rebanhos do país pertencem ao rei que eles enganaram e assassinaram. Eles baixam "regulamentos" obrigando os enfurecidos e constrangidos nativos a trabalhar para os colonizadores brancos e negligenciam a suas próprias tarefas. Isso é escravidão e é muitas vezes pior do que foi a escravatura nos Estados Unidos que dava tanta dor de cabeça aos ingleses; mesmo que o escravo rodesiano esteja doente, seja idoso ou fisicamente incapacitado, ele é forçado a manter a si próprio ou a passar fome: o seu senhor não é obrigado a sustentá-lo. A diminuição da população pelos métodos rodesianos para o limite desejado é o retorno ao sistema de miséria crônica e da morte lenta impostas por uma "civilização" desacreditada e primitiva.
Nós reduzimos humanitariamente o excesso de população canina recorrendo ao clorofórmio; os Boers humanamente reduzem o excesso da população de negros por meio da asfixia; os pioneiros australianos sem nome mas de coração virtuoso humanamente reduzem o excesso de vizinhos aborígenes por meio de uma morte suave ocultada em um pudim envenenado. Tudo isso é admirável e digno de aprovação; você e eu preferiríamos sofrer qualquer uma dessas mortes trinta vezes em trinta dias consecutivos do que ter a morte desses rodesianos, com a sua carga diária de insulto, humilhação e trabalho forçado para um homem que a sua raça toda odeia. Rodésia é um nome alegre para essa terra de pirataria e de pilhagem e a rotula com o estigma adequado".
Mark Twain cunhou o termo apartheid ao se deparar com essa atuação de Rhodes na África. É compreensível.
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