Terra Magazine

 

Quarta, 25 de junho de 2008, 08h01 Atualizada às 23h02

Boris Schnaiderman: guerra e paz com Dostoiévski

Claudio Leal e Thais Bilenky

O tradutor corre ao livro. Um só livro nas pejadas prateleiras de seu apartamento. De memória, Boris Schnaiderman, 91 anos, recorre a uma escada metálica, inerte na sala ao lado. Célere, ele tateia a prateleira exata. De lá retira uma narrativa da guerra, sem errar as coordenadas geógraficas, numa destreza e intimidade com a biblioteca, que é também uma extensão do corpo.

Interlocutor de duas culturas, Schnaiderman ajudou a remodelar a recepção da literatura russa no Brasil. De sua mão parcimoniosa, saíram traduções diretas do russo de Maiakóvski, Pasternak, Dostoiévski, Tchékhov, Tolstói, etc. Em constante questionamento sobre a arte da tradução, aprimorada ao longo de décadas, o professor Boris faz da simplicidade uma de suas armas - e, provavelmente, escudo - na inteligência brasileira.

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Ucraniano, naturalizado brasileiro em 1941, é o maior especialista em literatura russa no Brasil. Nasceu no ano da Revolução. 1917. Com pouco mais de um ano, ele se mudou com os pais para Odessa. Fugiu da perseguição aos judeus. Aos oito anos, ancorou na pátria definitiva. Integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e não se afastou dos debates políticos no pós-guerra.

Na pena de tradutor, ajudou a refinar gerações de intelectuais brasileiros. Traduziu, entre outras obras de Fiódor Dostoiévski, O eterno marido, Memórias do subsolo e Um Jogador. Para não falar dos romances seminais do escritor russo.

Essa intimidade com os demônios do existencialismo o leva a afirmar, em entrevista especial concedida a Terra Magazine, em São Paulo:

- Dostoiévski é o tipo do escritor que arrasta a gente, ao mesmo tempo que a gente tem que discordar, tem que se voltar contra ele. Quer dizer, às vezes traduzo algo que contradiz as minhas convicções mais profundas. Dostoiévski era um grande escritor, tinha aquela compreensão, aquela humanidade extraordinária, e ao mesmo tempo era racista, chauvinista, preconceituoso - diz Schnaiderman.

Leia a entrevista do professor emérito da USP sobre literatura, política, história, e coisas que tais.

Terra Magazine - O senhor retornará à ficção?
Boris Schnaiderman - À ficção, propriamente, não. Pretendo me misturar um pouco mais aos meus textos sobre literatura, com reflexões pessoais, biografia. Isso eu pretendo. Agora, tem um livro que já está na editora e outro vai ser acabado daqui a alguns dias. Mistura questões históricas com experiências pessoais.

Nada de ficção, portanto, como seu romance Guerra em surdina?
Passaram a chamar Guerra em surdina de romance. Não acho. O conceito de romance se tornou muito elástico. Há muitos anos atrás, havia uma noção definida do que seria um romance. Tudo bem, tudo bem. Um escritor japonês, prêmio Nobel, Kenzaburo Oe, escreveu páginas da relação dele com o filho que sofre de limitação do entendimento. É uma tragédia e uma vivência. Ele escreve sobre isso e chamam de romance. Tudo bem. São textos mais autobiográficos. Mas, hoje, é muito elástico, não sei como dizer. Guerra em surdina é um livro que mistura experiências pessoais. Se é romance, tudo bem.

Como foi sua experiência na guerra?
Bom, aconteceu o seguinte: fui para a guerra, mas não como voluntário. Se eu chegasse em casa e dissesse que ia ser voluntário, que tinha me alistado, seria um Deus-nos-acuda. Iam procurar conhecidos com pistolões pra eu não embarcar. Ia ser muito complicado. Então, usei de um estratagema. Sou formado pela Escola de Agronomia, sou engenheiro agrônomo. Não era brasileiro nato; só podia exercer a profissão depois de naturalizado e de fazer o serviço militar. Me formei em 1940 e era muito difícil a naturalização. A minha saiu em 1941. Nasci na Ucrânia e tinha passaporte soviético - já era suspeito.

Aí fui prestar o serviço militar. Podia ter cumprido esta obrigação numa linha de tiro, isto é, um tipo mais brando de serviço militar. Mas eu me alistei no Exército. Morava em Copacabana e o quartel ficava depois de Cascadura. Tomava ônibus, bonde, trem... Chegava lá. Fiz o serviço militar, o curso de sargento e terminei sendo convocado. Por quê? Era engenheiro agrônomo, alistado na artilharia, é evidente que iam me convocar. Na guerra, participei da artilharia. O maior sacrifício era sempre da infantaria. A infantaria é que subia o morro (sorri).

O senhor teve contato com os correspondentes brasileiros? Joel Silveira, Rubem Braga...
Não, não tive contato. O Rubem Braga eu vi por ocasião do primeiro tiro de artilharia. Foi uma coisa solene, praticamente uma encenação. Mas demos um tiro, realmente demos um tiro na hora combinada. Vieram oficiais americanos, correspondentes estrangeiros, e eu me lembro do Rubem Braga naquela ocasião. Mas não tive contato.

Qual sua avaliação das narrativas sobre os combates, surgidas após a guerra?
Há algumas muito boas. Demoraram pra sair. Quando tem uma guerra, logo de início sai uma enxurrada de textos puramente informativos. Demoraram alguns anos pra saírem textos que realmente valem a pena. E há alguns muito bons. Há, por exemplo, um livro que teve na ocasião bastante sucesso. Saiu antes de Guerra em surdina - e teve muito maior repercussão. Era uma obra literária séria, de Moacir C. Lopes. É um romance que se chama "Maria de cada porto" (1959), mais ou menos autobiográfico. O autor era da Marinha de Guerra, tinha estado no cruzador Bahia, que se chocou com uma mina e afundou. É um livro muito bom. Também há o livro "Mina R", de Roberto Mello e Souza, irmão do Antonio Candido. (Sobe a escada e retira da estante um exemplar). Só teve duas edições. Os livros sobre a guerra não têm uma aceitação muito grande. O que teve repercussão foi o do Moacir Lopes. Já o "Mina R" circulou muito pouco. Mas é uma novela forte, autobiográfica.

Antes do senhor, a tradução da literatura russa, no Brasil, era feita com atalhos. Como se deu essa transformação?
A tradução indireta, às vezes, é inevitável. Aparece um grande autor turco. Quem é que traduz do turco? Ou aparece um escritor, sei lá, do Paquistão. A tradução indireta é inevitável. Então, se faziam traduções indiretas do russo. Chegavam às vezes a extremos ridículos. A grande voga da literatura russa, no Ocidente, começou a partir de um fato político. Na década de 1890, a França tinha sido derrotada pela Alemanha na guerra franco-prussiana, de 1870-1871. E na França havia um forte movimento revanchista pra retomar a Alsácia-Lorena. O povo da França sentia muito o peso das reparações de guerra que a Alemanha exigiu dos franceses.

Ao mesmo tempo, havia o medo de um ataque da Alemanha, com aquele movimento revanchista... A Alemanha aproximou-se da Inglaterra. O único recurso para a França era aproximar-se da Rússia; o que aconteceu. Na década de 1890, houve uma aliança franco-russa. Aí a literatura russa se tornou uma sensação na França. Os franceses tinham algumas traduções do russo.

E a presença do escritor Ivan Turguêniev (1818-1883) em Paris?
A presença do Turguêniev influenciou muito. Mas o fator decisivo foi a aproximação militar, o tratado entre a França e a Rússia. O czar da Rússia, Alexandre III, foi a Paris para assinar o tratado. Então, foi assim uma sensação. E causou sensação porque chegou lá num momento literariamente importante. Porque os leitores estavam começando a ficar saturados com um excesso de naturalismo, de um realismo muito chão. E a literatura russa fazia apelo aos grandes problemas do homem. Mas os editores franceses ficaram com medo do excesso de elocubrações que havia nos romances. Eu não diria "excesso", mas parecia para eles um "excesso" de elocubrações filosóficas. Eles encurtavam, cortavam. Tenho umas edições curiosas. O editor francês punha: "Adaptação".

Por exemplo, o romance "Os irmãos Karamazov" (1879), de Dostoiévski - está para sair em nova tradução de Paulo Bezerra -, uma obra extraordinária. "Os irmãos Karamazov" saiu na França numa edição que vinha assim: "Adaptação do romance de Dostoiévski". Mas as editoras, em outros países, suprimiram o "adaptação" e deram como de Dostoiévski. De modo que transforma um grande romance num romancezinho policial. Até bem feito (risos)

No Brasil, já se fez isso.
Se o editor adapta e escreve: "adaptação de fulano de tal", tudo bem, né? Perfeitamente lícito. Mas os editores suprimiam. Davam como de Dostoiévski. Como romance policial, era bem feito. Mas sem maiores pretensões.

O senhor presenciou, sem saber, a gravação do "Encouraçado Potemkin"?
É verdade. Eu tinha oito anos, foi pouco antes de virmos para o Brasil. Costumava brincar na escadaria (de Odessa). Aliás, o nosso apartamento ficava num prédio em frente à escadaria. Descia e ficava brincando. A escadaria é muito vasta. É como se fosse, em Salvador, da Cidade Baixa à Alta. Corresponde mais ou menos. A topografia de Odessa é muito parecida com a de Salvador. Eu assisti, mas não tinha a menor idéia do que se tratava. Depois, já no Brasil, meu pai me levou para ver o filme e aí eu reconheci as cenas que tinha visto na hora da filmagem. Os homens jogando chapéus para o ar. As damas vestidas a caráter, no começo do século XX. Eu não estava entendendo...

Como senhor avalia o cinema que Woody Allen faz, inspirado em Dostoiévski?
O Woody Allen é muito marcado pela literatura russa. Ele tem uma versão americana de "Crime e Castigo". E os temas russos volta e meia aparecem no cinema dele.

No início, a poesia russa não era tão divulgada...
No início, no início. Agora já está.

Mudou?
Mudou. Eu cito (o lingüista russo, Roman) Jakobson (em "Poesia Russa Moderna", co-autoria com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos), que disse que as artes russas têm aceitação, menos a poesia.

E cita o poema de Maiakóvski, "A guerra e o mundo". Ele daria a poesia como a maior contribuição da Rússia para a arte.
No Ocidente, houve uma divulgação grande. Hoje em dia, já se reconhece a importância da poesia russa. Isso é relativamente recente. A gente pega, por exemplo, textos do Mário de Andrade, e percebe que ele não conhecia. Conhecia uma introdução, mais uma e outra coisinha. Não conhecia. Em "A Escrava que não é Isaura", se refere à poesia russa, mas de maneira muito precária. A informação era muito precária. Agora, nesse campo, há um fato muito curioso. Uma peça do Oswald de Andrade, "O homem e o cavalo", se parece muito com o "Mistério Buffo", do Maiakóvski.


O poeta Vladimir Maiakóvski (1893-1930)

Como ele andou pela Europa...
Ele andou pela Europa, deve ter lido algum resumo do Maiakóvski. É muito parecido.

No Brasil, houve uma rápida transição da influência francesa para a americana?
Mas houve uma influência grande da literatura russa. A partir, justamente, da década de 1890, que foi um divisor de águas - é quando a literatura russa se espalha pelo Ocidente. No Brasil, teve uma presença forte. Os criminalistas se preocupavam muito com Dostoiévski. "Recordações da Casa dos Mortos" marcou época.

Também por influência de Freud?
Freud também. O estudo de Freud é bastante discutível, "Dostoiévski e o Parricídio". Bastante discutível. Inclusive porque ele não conhecia as fontes. Na época, era muito difícil.

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