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Quarta, 25 de junho de 2008, 07h58

Quando chega ao fim

Amilcar Bettega
De Paris

A cidade acaba tão rápido, ele pensava, ao caminhar sem ter a mínima idéia para onde ia, em meio àquela paisagem de poeira, pedra e um céu cheio de nuvens empurradas pelo vento que as fazia cruzar rapidamente sob o sol. Não deixava de ser belo todas aquelas nuvens amareladas encimando a paisagem também amarelada produzida pelo sol atravessando essas mesmas nuvens ora mais ora menos espessas, conforme o vento que as varria para longe e continuava a trazer sempre outras nuvens, quase todas com um peso e uma escuridão suficiente para fazê-lo pensar, para deixar muito forte, nele e em qualquer um que pudesse ver esse quadro, a impressão, a certeza até, de que ali estava a iminência de uma tempestade. Dessas tempestades que de repente despejam uma chuva intensa e rápida, ou então uma tempestade mais duradoura, que muda o tempo, traz o frio e o vento, levanta vagas de poeira e chora uma chuva fina durante dias, transformando o céu numa massa infinita e uniformemente cinza. Mas em todo caso era uma tempestade. E uma tempestade é sempre uma tempestade.

A cidade acabava tão rápido, ele pensou, ao lembrar que começara a andar apenas porque era cedo demais para voltar para casa. Porque já havia cumprido todos os compromissos na rua mas ainda sobrava uma boa parte do dia livre, ele pusera-se a andar pela cidade, apenas pelo prazer de descobri-la, de surpreendê-la em ruas oblíquas e apertadas, em parques repletos de pais brincando com seus filhos ou cachorros, em cafés obscuros onde poetas rabiscavam versos obscuros e bebiam conhaque, ou ainda em outros, mais amplos e de grandes esplanadas onde além dos poetas muitas outras pessoas tomavam sua bebida e namoravam e liam os jornais sob o sol. A cidade vivia tranqüilamente como vive uma cidade num filme, num sonho, numa foto, num quadro ou, no mínimo, como vivia uma cidade num tempo que não era esse.

Mas a cidade acabou tão rápido, ele se dera conta, ao se dar conta de que não conseguia identificar o momento em que ingressara naquela paisagem desértica que também tinha um quê de filme ou fotografia, ou sonho, e que também tinha a sua beleza: a poeira, as pedras, os montes sem vegetação e perdidos no horizonte, o vento, as nuvens, ora mais ora menos espessas, cruzando sob o sol.

Não havia maneira de precisar o instante, de agarrar-se ao último traço de cidade, um poste de iluminação, uma fachada, uma esquina, uma ponte, nada, absolutamente nada servia de apoio àquele salto, àquele passo que o tirara da cidade para levá-lo até ali, por onde agora ele caminhava, a paisagem desértica e desolada. Era como se tivesse passado uma linha imaginária, uma parede invisível, uma idade, era como se tivesse entrado ou saído de uma bolha.

Ele olhou para o céu e as nuvens continuavam a correr, ora mais ora menos espessas, empurradas pelo vento. O vento!, ele se disse, e talvez aí tenha imaginado que poderia tentar buscar um som, um último sinal sonoro da cidade. Mas ao mesmo tempo percebeu que de toda aquela paisagem desértica, pedras, poeira, montes sem vegetação, e o vento e as nuvens que cruzavam sob o sol, de tudo aquilo emanava um grande e profundo silêncio. Percebeu que o silêncio era indissociável da paisagem. Mais: era o seu suporte, seu elemento essencial. Ele percebeu que a paisagem se construía e se deixava ver por meio do silêncio.

E por fim nada mais lhe veio à cabeça e aos sentidos além dessa evidência terrível de que a cidade acabava tão rápido.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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