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Sexta, 27 de junho de 2008, 08h57 Atualizada às 09h03

A mulher braba do Rio D'Ouro

Altino Machado/Terra Magazine
Respeito  - Quando cheguei tive que me impor e fazer mesmo cara de braba, conta a indigenista Paula Meirelles
Respeito - "Quando cheguei tive que me impor e fazer mesmo cara de braba", conta a indigenista Paula Meirelles

Altino Machado
De Rio Branco (AC)

A indigenista Paula Meirelles, 31, trabalha há cinco anos na Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira, que é coordenada pelo pai dela, o sertanista da Funai José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que forneceu para Terra Magazine, em primeira mão, no final de maio, as fotos de índios isolados atirando flechas contra um avião.

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As fotos ainda hoje circulam na mídia internacional e geram perplexidade e polêmica, mas a acreana Paula Meirelles segue trabalhando na foz do Rio D'Ouro, na fronteira Brasil-Peru, numa das regiões mais remotas da Terra. Dias antes da divulgação das fotos, o zunido de uma flecha disparada pelos índios isolados a fez experimentar o maior medo de sua vida.

- Era um sábado e todos os homens haviam saído para caçar. Ficamos em casa apenas eu e a "Preta", a cozinheira. Fui ver como estava a construção da casinha nova, de madeira, quando uma flecha foi lançada. Não me atingiu e saí correndo. Acredito que eles não quiseram me acertar. Devem ter feito aquilo apenas para assustar uma mulher. Encontrei a flecha e parece com o tipo de flecha que já foi usada para atingir meu pai - relata a Terra Magazine.

Paula casou aos 17 anos e separou aos 20. É mãe de Henrique, 10, e de Ana Cecília, 13. O garoto mora com a avó materna em Feijó (AC) e a menina com o pai, em Manaus (AM). No posto de fiscalização do D'Ouro, a indigenista comanda o trabalho de quatro peões e da cozinheira "Preta". Num ambiente tão hostil e carente é inegável que a beleza dela mexe com a libido dos homens.

- Quando cheguei tive que me impor e fazer mesmo cara de braba. Não dei muita abertura para que as pessoas fizessem qualquer tipo de brincadeira. Por lá sou conhecida como a mulher braba do D'Ouro.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Terra Magazine - Por que você decidiu viver numa das regiões mais remotas da Terra?
Paula Meirelles -
Acho que foi por causa da loucura da vida na cidade. Desde criança fui me acostumando a deixar a cidade para passar férias no Alto Rio Envira, onde vive meu pai. Acabei indo para passar um mês de férias e já estou lá há três anos. A vida na cidade é muito materialista ou consumista. Mas a decisão mesmo aconteceu quando meu pai quase morreu ao ser flechado pelos índios isolados. Decidi que deveria ajudá-lo.

O que é mais difícil no trabalho no posto de fiscalização?
A solidão, a saudade de quem a gente gosta. Não é fácil ficar no meio do mato e, às vezes, não ter ninguém com quem conversar. Mas é compensador saber que estou lá realizando um trabalho em defesa de um povo, que por usa vez não sabe que estou lá para defender o território dele. Isso me faz querer continuar.

A sua equipe é formada por quantas pessoas no Rio D'Ouro?
Além de mim, existem quatro homens e uma mulher, que é a nossa cozinheira, a "Preta".

Num ambiente tão hostil e carente a sua presença mexe com a libido masculina, não?
Quando cheguei tive que me impor e fazer mesmo cara de braba. Não dei muita abertura para que as pessoas fizessem qualquer tipo de brincadeira. Por lá sou conhecida como a mulher braba do D'Ouro. Eu faço mesmo cara de valente pro povo, para impor respeito. Do contrário, mina presença feminina não daria certo. Lá sou tratada como a "dona Paula". Não tenho o menor problema porque quem trabalha comigo respeita mesmo.

Além de você, seu irmão Arthur trabalha na Frente de Proteção Etnoambiental. Ambos muito influenciados pelo trabalho de seu pai.
Com certeza. Papai está com 60 anos, daqui a pouco vai se aposentar de vez e quem vai dar continuidade a esse legado? Arthur e eu entendemos que somos nós. Se existe alguém culpado por nossa escolha é nosso pai. Desde criança ele nos acostumou àquela vida. Moramos em aldeias indígenas e aprendemos a gostar. Devo confessar que não gostava muito, mas depois percebi que ele estava fazendo um bem para a gente.

Qual a sua rotina?
Acordo e distribuo a tarefa que cada um tem que cumprir no dia. Quando surge alguma denúncia de que a área está sendo invadida, temos que nos deslocar uma ou duas semanas percorrendo a floresta. Não é suficiente porque disponho de poucos homens e o posto não pode ficar abandonado. Geralmente, quando me embrenho no mato, é acompanhada de dois homens. A cozinheira fica no posto trabalhando para os demais.

Como foi o momento de maior perigo que você já enfrentou?
O momento de maior medo que vivi aconteceu há 45 dias. Minha casa fica na beira do rio e estou mudando para uma área de terra mais firme, um morro que possibilita uma vista muito bonita. Era um sábado e todos os homens haviam saído para caçar. Ficamos em casa apenas eu e a "Preta", a cozinheira. Fui ver como estava a construção da casinha nova, de madeira, quando uma flecha foi lançada. Não me atingiu e saí correndo. Acredito que eles não quiseram me acertar. Devem ter feito aquilo apenas para assustar uma mulher. Encontrei a flecha e parece com o tipo de flecha que já foi usada para atingir meu pai.

O que você considera a maior ameaça aos povos isolados da região da fronteira Brasil-Peru?
Do lado peruano, a presença das grandes empresas madeireiras, que realizam uma exploração predatória. No D'Ouro, onde estou, uma comunidade de umas 10 famílias que foram indenizadas e removidas quando a reserva indígena foi criada. Mas a ameaça dessas famílias é pequena, pois se dá apenas quando penetram na área da reserva. É uma situação bem mais fácil de resolver porque converso com elas e elas se esforçam para colaborar. Porém, do outro lado, o funcionário do governo peruano que atua na região vive constantemente ameaçado de morte.

Você casou aos 17 anos, separou aos 20, e é mãe de dois filhos. Como é seu convívio com eles?
A Ana Cecília foi morar em Manaus depois que me mudei de vez pro mato. Como não existe uma estrutura tão boa de educação em Feijó, conversei com o pai dela e ele concordou que ela fosse morar com ele em Manaus. Sempre que posso vou visitá-la, como farei agora em julho, que é o mês do aniversário dela. Ela reclama bastante da saudade, pergunta quando vou morar na cidade novamente. Mas tem sido uma pergunta difícil de ser respondida porque gosto da profissão de indigenista.

Ainda não é uma sertanista.
Não, não. Meu pai costumar dizer que daqui a 30 anos, quem sabe, poderei merecer a "patente" de sertanista. Dos filhos, fico mais próxima do Henrique, que mora em Feijó com minha mãe.

Como as pessoas reagem quando sabem que você mora no meio do mato, cercada pelo perigo de ser atingida por flechadas de índios isolados?
Quando alguém me conhece, sempre pergunta onde moro. Algumas vezes nem me sinto tão à vontade para dizer que moro no mato, mas eu moro mesmo no mato. E então muita gente diz não entender porque larguei o conforto da cidade para viver naquele fim de mundo. Além de meu pai, tenho o apoio de minha mãe que é uma verdadeira guerreira. Ela passou a vida inteira seguindo meu pai. Durante mais de 20 anos, foi ela quem ficou com a gente nas cidades ou aldeias enquanto ele estava no meio do mato. Ela teve que ser mãe e pai e entende a minha situação e por isso fica com meu filho.

Uma flechada não seria capaz de fazê-la desistir?
Não, embora eu ainda não tenha passado por esta situação. Só a minha filha, por algum motivo, seria capaz de me fazer desistir.

Caso o posto seja atacado por índios isolados, o que vocês podem fazer?
Nós dispomos de uma radiofonia, que nos permite comunicação diária, às 7 e às 16 horas, com o posto do Rio Envira. A outra maneira é alguém se deslocar, de barco, até a cidade mais próxima, o município de Jordão. De Tarauacá até a foz do D'Ouro a viagem demora seis dias de barco. De avião, de Tarauacá até Jordão, de avião, a viagem demora 45 minutos. De Jordão até a foz do D'Ouro, apenas de barco, numa viagem de duas horas.

O que achou do impacto das fotos dos índios isolados?
A divulgação das fotos envolve aspectos negativos e positivos. Mesmo lá onde moro existe gente que não acredita na existência de índios isolados. A divulgação das fotos serve para mostrar que eles existem, sim. Mesmo assim ainda existe gente que pensa que é montagem. Mas sou da opinião de que não se deve divulgar mais, temos agora que deixá-los lá, quietinhos, em paz.

Pra finalizar: você resistiria ao assédio de uma revista masculina interessada em fotografá-la nua, no mato?
Não acredito que alguém possa ter esse tipo de interesse. Mas eu teria que pensar muito bem para responder caso alguém sugerisse.

 

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