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Quinta, 26 de junho de 2008, 13h49 Atualizada às 14h21

Sertanista: índios isolados foram alvo no Peru

Gleilson Miranda/Funai/Reprodução
Aldeia de índios isolados do igarapé Xinane, na fronteira Brasil-Peru
Aldeia de índios isolados do igarapé Xinane, na fronteira Brasil-Peru

Altino Machado
De Rio Branco (AC)

O sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira, autorizou Terra Magazine a publicar com exclusividade mais fotos inéditas de duas malocas dos índios isolados do igarapé Xinane, oriundos do Peru.

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No final de maio, o sertanista já havia repassado com exclusividade dois CDs com 1.090 fotos (veja aqui) tiradas durante o sobrevôo que resultou nas primeiras imagens dos índios isolados no município de Feijó, na fronteira Brasil-Peru.

- Essas fotos inéditas foram encaminhadas à Fundação Nacional do Índio e não foram objeto de divulgação na mídia - afirma Meirelles.

As fotografias que até agora foram amplamente divulgadas na mídia nacional e internacional, onde aparecem índios isolados, são do grupo das cabeceiras do rio Humaitá e igarapés da margem esquerda do rio Envira, que o sertanista monitora há vinte anos, de uma etnia tradicionalmente habitante do território brasileiro.

Até hoje os índios das cabeceiras do Xinane não foram avistados durante sobrevôos. O sertanista acredita que isso pode ser conseqüência de alguma experiência trágica que os índios tiveram relacionada com aviões no lado peruano.

- Por lá, homens, mulheres e crianças fogem quando sobrevoamos, embora a gente veja com certa freqüência fogo aceso nas casas. A minha suspeita é que estejam escabreados em decorrência de alguma agressão da qual possam ter sido vítimas. Com certeza já sofreram ataques aéreos com tiros e bombas - afirma Meirelles.

O sertanista explica que algumas das fotos são de uma maloca de mais ou menos um ano e meio, tempo que deduz a partir da existência de um plantio de bananeira que não existia quando ele sobrevoou o local há dois anos.

- É uma maloca muito recente, vide os roçados novos, o chão limpo. Eles chegaram este ano. Quando sobrevoamos, os índios fugiram. Devem ter sido atacados de avião pelos madeireiros em território peruano. Eles não esperam. Já vimos eles andando pelo mato. Eles têm o corte de cabelo curto, tipo cuia, muito diferente daqueles das fotos que divulgamos no final de maio - acrescenta.

O sertanista também enviou fotos de pranchas de mogno e do lixo peruano que alcança o território brasileiro através do Rio Envira para denunciar a presença de madeireiros na área dos índios isolados.

- É importante que Terra Magazine publique as fotos das malocas dos índios que estão se mudando do Peru para o Brasil. Esses índios fogem quando escutam barulho de avião, diferente daqueles que moram aqui no Brasil. Vimos eles nas na mata. De avião, é impossível. Todos somem. Acontece que na mata ninguém anda com máquina fotográfica na mão. Quando nos encontramos, corre o índio pro lado deles e a gente pro nosso lado. É muito importante frisar que não é coincidência demais que esses parentes tenham medo de avião. Todos têm, mas os índios isolados protegidos em território brasileiro enfrentam o avião.

 

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