
Atualizada às 20h33 |
Brian McDermott/AP
A atriz Anne Hathaway e o ex-namorado trapaceiro Raffaello Follieri
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Vera Gonçalves de Araújo
De Roma
Um dos elementos comuns entre Brasil e Itália é a abundância de trapaceiros e caloteiros bem sucedidos. Só que na Itália eles - ou elas - não se limitam ao país natal, mas globalizam suas redes e fraudes, transformando pequenos trambiques em autenticas obras de arte internacionais. As vítimas designadas preferivelmente são americanas. O New York Times, falando do último trapaceiro preso esta semana, usou a expressão charming Italians, para designar toda a categoria.
O "charmoso" mais recente é o empresário Raffaello Follieri, 30 anos, ex-namorado da atriz Anne Hathaway (a tímida estagiária do filme O diabo veste Prada) e amigo da família Clinton. Raffaello foi preso em Nova Iorque, acusado de fraude e lavagem de dinheiro. Estava de malas prontas para vir à Itália com um grupo de amigos, para festejar seus 30 anos com uma festa de arromba em Capri. O seu último plano era comprar as ações do clube de futebol Roma com o dinheiro de um banco texano. Pelos crimes de que é acusado nos EUA, Follieri pode ser condenado a 225 anos de prisão; com um bom advogado, pode se safar com 7.
O esquema de Follieri chegava a ser singelo: dizia aos americanos que era amigão do Papa. Quase um embaixador financeiro do Vaticano nos Estados Unidos. Com esse lance, começou a comprar propriedades da Igreja católica americana com descontos enormes. E a Igreja americana andou vendendo muita coisa, para financiar as indenizações milionárias nos processos dos padres acusados de pedofilia: só em 2007, foram gastos 615 milhões de dólares nos tribunais dos Estados Unidos. Graças à fama de "amigo do Papa", Follieri pôde alugar um apartamento em Manhattan, com vista para o Central Park, pagando 37 mil dólares por mês, para não falar no jatinho privado, nas festas, nos restaurantes e no guarda-roupa de luxo, digno da sua fama de playboy.
A lista dos "italianos charmosos" é longa. Alguns casos dão filme, romance ou samba. Como o de Giancarlo Parretti, ex-garçom de Orvieto que chegou a tentar comprar a Metro Goldwin Mayer. Ele conseguiu um empréstimo bilionário do Crédit Lyonnais: os franceses levaram um ano para descobrir que Parretti não era nada. Mas nesse ano, a vida de Parretti foi fantástica: mulheres lindas, um retrato publicado no Wall Street Journal, tudo do bom e do melhor. A festa acabou na prisão.
Os grandes trapaceiros italianos têm todos um ponto fraco: Hollywood. Por amor ou negócios, eles não resistem à capital do cinema. Talvez porque suas histórias mirabolantes, suas mentiras complicadíssimas, seus calotes requintados foram sonhados e arquitetados a partir de um filme.
Num dos filmes dos anos de ouro da comédia à italiana, o cômico Totò tentava vender a Fontana de Trevi a um turista americano, dizendo que estava cansado de recolher tanta moedinha nas águas da fonte. O gringo afinal tirava do bolso um rolinho de dólares e fechava o negócio. No fundo, os "italianos charmosos" mantêm viva uma tradição e uma arte.
Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br
Terra Magazine