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Sábado, 28 de junho de 2008, 07h47 Atualizada às 09h06

Resenha: Pulp Fiction?

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Ficção de Polpa Volume 1, Samir Machado de Machado, ed. Porto Alegre: Editora Fósforo, 2007, 131 páginas. Capa de Gisele Oliveira.

"Pulp" em literatura se refere à ficção surgida de revistas de papel barato, especializadas em diferentes gêneros que buscavam, como atributo em comum, engajar a leitura e emocionar e estimular o leitor sem medo da aventura, do melodrama, do sensacional ou do maravilhoso. Em anos recentes no Brasil, a noção da pulp fiction como conjunto de estratégias e de qualidades literárias tem sido resgatada e revalorizada, tornando-se um termo de interlocução dentro da literatura especulativa nacional. Curiosamente, isso se dá não apenas no Brasil, mas em outros países. Nesta semana, damos uma olhada em alguns exemplos, tentando entender melhor essa tendência.

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Samir Machado de Machado, que entrevistamos aqui na semana retrasada, trouxe a questão para o plano editorial com Ficção de Polpa volumes 1 e 2, a primeira série de antologias originais da ficção especulativa brasileira. Ele a definiu, na introdução do volume 1, como "um esforço coletivo cuja intenção é... promover e estimular a produção de uma literatura especulativa que tenha como único compromisso o entretenimento do leitor", e que abre mão da "pretensão pedante de atribuir uma função à ficção". "Nós queremos, isso sim", escreveu, "o que o escritor norte-americano Michael Chabon definiu como 'explodir a mente' do leitor".

O livro reúne 17 contos, 16 de autores nacionais, um deles resgatado dos pulps, de autoria de H.P. Lovecraft - um meio de assinalar a preponderância de contos de horror, no volume 1. É muita coisa para 131 páginas, mesmo no texto em duas colunas que tenta emular as páginas das pulp magazines. O resultado são histórias curtas, com dificuldade para gerar o tipo de envolvimento dinâmico e entusiasmado da ficção pulp.

"O Homem que Criava Fábulas", do próprio Samir, abre o livro com o relato, em primeira pessoa e escrito com objetividade e segurança, de um casal, os Richmonds, que realiza experiências genéticas produzindo as bestas mitológicas das lendas. O conto não oferece bases científicas (ou econômicas) para os experimentos, mas é efetivo no final trágico e simbólico, com ecos de A Ilha do Dr. Moreau (1896) de Wells. Está, porém, subdimensionado para o nível de envolvimento que deveria gerar.

"Carne", de Guilherme Smee, lembra os filmes de mortos-vivos de George Romero e Dan O'Bannon, nos quais se apóia fortemente, como se a situação que oferece - de um homem que acorda num apartamento caótico, com uma fome incomum - fosse continuidade daqueles filmes.

"Lingüística", de Rodrigo Rosp, se dá melhor dentro das dimensões restritas. É conto de horror não-sobrenatural, em primeira pessoa, bem centrado no assunto que aborda: o fascínio mútuo entre um lingüista com uma jovem adepta ao sexo oral. A língua é o centro do relacionamento com Diana (nome de caçadora). A prosa é segura e o final efetivo.

De título oblíquo, "Cosmologia", de Marcelo Juchen, cai na tradição do conto fantástico: caracteriza bem a insistente coceira que o protagonista tem num dos ouvidos. Ele o coça sem parar. Com o tempo, fica claro que tem algo no ouvido - algo surpreendente e absurdo. O timing da narrativa em primeira pessoa é perfeito e não se ressente das limitações de espaço.

De Gustavo Faron, "Os Internos" é outro conto fantástico em primeira pessoa. Quem narra é um aluno de colégio particular de Porto Alegre. Quer convencer de que coisas terríveis ocorrem lá depois das aulas, experimentos de algum tipo. Para isso se dirige ao leitor, de forma objetiva e sem emoção. É kafkiano em sua evocação do desamparo da criança face às funções institucionais dos adultos. O fecho oferece uma oscilação entre o absurdo e a normalidade característica do conto fantástico. Bom, mas dificilmente pulp.

O horror em torno de comida é freqüente na antologia. Reaparece em "Dias de Fome, Noite de Cão", de Sergio Napp, em terceira pessoa. Um indigente que vive de comer lixo refugia-se numa casa aparentemente abandonada, onde corre o risco de se tornar a refeição de um enorme cão que ainda vive nela. De estilo telegráfico e lógica frouxa.

"O Homem dos Ratos", de Rafel Spinelli, também sofre de problemas de lógica. Baseia-se no caso de uma mulher de São Paulo que guardava lixo em casa, em razão de um distúrbio mental. Carlos é um rapaz que perde os pais num acidente, no dia em que se casa com Marta. Indo morar na casa dos pais, ele passa a guardar lixo, desculpa para uma série de situações grotescas, que teriam lançado qualquer pessoa normal, como supomos que Marta seja, em busca de ajuda muito antes da coisa chegar no ponto em que chegou. Há, a meio caminho, um jogo de palavras que degenera em iniciais - que, por sua vez e talvez de modo não-intencional, evocam a palavra slime: "imundície" em inglês.

Rafael Kasper, em "Tempestade em Coney Island", escreve um conto de horror muito atmosférico, algo enigmático, sobre um militar reformado de nome improvável: Hammam Fields, que deixa sua mulher em casa durante uma tempestade e sai para comprar cerveja. É o olhar da mulher que lança, ao ver um vulto estranho no famoso parque de diversões, uma luz soturna sobre uma das fotos do marido na parede. Também aqui há uma oscilação entre o sobrenatural e o imaginário, tornando este mais um exemplo pré-pulp de conto fantástico.

"Ventre", de Roberta Larini, é sobre um serial killer que coleciona úteros humanos. É estruturado como alternância entre dois pontos de vista, o do assassino e o do delegado que o investiga. Sem grande diferenciação estilística, as duas narrativas talvez não distanciem muito os dois narradores. Novamente, uma história subdimensionada, resultando num texto pouco convincente, embora mais próximo de um pulp verdadeiro.

Mais alimentos monstruosos em "Funghi", de Luciana Thomé - e em "Cabeça-de-Arroz", de Annie Piagetti Muller, que é de longe o mais nojento da antologia, e portanto o mais visceral. Adie o feijão-com-arroz, depois de lê-lo. Ambos contos fantásticos ou de realismo mágico. Uma variação cômica é "Fígado", de Silvio Pilau.

"A Meia-Noite do Fim do Mundo", de Fernando Mantelli, escrito na terceira pessoa, mistura FC de "último homem sobre a Terra" (mulher, no caso), com horror cósmico: só Ana sobrevive a um vírus que dizimou a vida na Terra. É então visitada por Nyarlathotep, um dos monstros indizíveis da mitologia de Lovecraft, que vem tripudiar dela - numa voz exasperada e juvenil, que pouco condiz com o conteúdo da história.

Os diálogos de "O Desvio", de Antônio Xerxenesky, são melhores e conduzem a ação e o clima: um homem dá carona a uma garota gótica. Ela diz ser o diabo, que veio recolher sua alma. Ele entra na brincadeira e diz ser ele o dito cujo. Enquanto isso, ambos vagam a procura de um desvio que nunca chega. Um conto mais eficaz.

Também é superior "Quando eles Chegaram", de Rafael Bán Jacobsen. FC com um travo de horror, e a derradeira história de alimentos - aqui, em nova evocação antropofágica, quando alienígenas invasores encontram em nós enorme quantidade de alimento a ser processado. O que firma a história, porém, é a voz do narrador em primeira pessoa, dirigindo-se à mulher amada, de quem foi separado.

O melhor dentre os brasileiros deve ser "Vãos", conto mainstream de Alessandro Garcia, com algo de sobrenatural bem embutido em parágrafos em fluxo de consciência, narrados por um médico em férias numa casa de campo com a família. Depois de um estranho e enigmático incidente envolvendo um incêndio de um casebre (no qual, aparentemente, um homem sacrificava uma menina num ritual), o narrador e seu filho passam a sofrer sombrias alterações de comportamento. Pode ser chamado de conto gótico, e me lembrou outro exemplo sulista, a ótima novela de Tabajara Ruas, O Fascínio (1996).

Enfim, a antologia também traz "O Cão de Caça" ("The Hound"), de H.P. Lovecraft, primeiro publicado em Weird Tales em 1924, supõe-se que o único "artigo genuíno" do livro, mas o próprio Lovecraft ainda não havia encontrado o seu lócus da Nova Inglaterra, e, assim como alguns dos brasileiros no livro, identifica o horror sobrenatural com a charneca inglesa, por assim dizer. A história, narrada em primeira pessoa, de dois violadores de tumbas. Desencavam um amuleto que invoca um monstro antigo, que vem persegui-los. A prosa de Lovecraft era densa e retorcida, e neste conto, além de dar os primeiros passos nos Mitos de Cthulhu, revela fontes inspiradoras no simbolista e decadentismo francês. Influência do mainstream sobre o pulp.

E apesar do tom de manifesto, na introdução, é a interface entre mainstream e ficção de gênero que parece interessar mais a Samir e seus colegas. Na entrevista publicada aqui, ele afirmou que um dos objetivos é "embaralhar a expectativa/preconceito que o leitor pode ter, e nisso tenho em mente um leitor não acostumado à literatura especulativa, do que seja 'alta literatura' e 'literatura barata'." Um objetivo muito interessante - Braulio Tavares, por exemplo, tem trabalhado de forma semelhante ao longo dos anos, nublando as fronteiras entre literatura de gênero e ficção literária - e um emprego distinto da idéia da pulp fiction no debate da lit espec nacional. Há outros empregos, porém, que espero tratar aqui no futuro.

Uma série de livros que vale a pena acompanhar, pelo tratamento editorial, que elogiei anteriormente, mas também pelas questões literárias que levanta. Quanto à qualidade das histórias, a maior parte se ressente das limitações de espaço e, para contorná-la, recorre repetidamente à narrativa em primeira pessoa e à intensidade subjetiva que ela pode agregar. Como toda antologia, há um núcleo de boas histórias, outras que vão além, outras que ficam aquém. Vamos ver como a série evolui, quando resenharmos o volume 2.

E--scritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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