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Sábado, 28 de junho de 2008, 07h48 Atualizada às 09h06

Resenha: Chega de epifanias

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

McSweeney's Mammoth Treasure of Thrilling Tales, Michael Chabon, ed. Nova York: Vintage Books, 1.ª edição, fevereiro de 2003 (2002), 479 páginas. Ilustrado por Howard Chaykin.

Em sua entrevista (publicada aqui em 14/06/2008), Samir Machado de Machado reconhece que a "influência de (Michael) Chabon... se deu... pela defesa apaixonada que ele fez da literatura de gênero em geral, do resgate de uma noção de entretenimento de qualidade, do retorno ao storytelling".

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Chabon é um americano que publicou seu primeiro romance, Usina de Sonhos (1987), aos 23 anos, alcançando cedo o reconhecimento. As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay (2000), romance que recebeu o Prêmio Pulitzer, ajudou a consolidar seu status como um dos melhores da sua geração. Nos últimos anos, tem se voltado para a literatura especulativa, o que surpreendeu os fãs de FC e tornou McSweeney's Mammoth Treasure of Thrilling Tales um dos livros mais falados de 2003 (originalmente um número da premiada revista McSweene''s Quarterly Concern , editada por David Eggers.)

Na introdução, ele reclama do domínio do conto do tipo visto na revista The New Yorker, em relação aos anos anteriores a 1950, em que teria havido uma variedade maior de enfoques. Trata especificamente da ficção de gênero, espicaçada pela intelligentsia literária, e se refere a uma crise da sua própria literatura, cansada de seguir os preceitos do mainstream: "a história contemporânea, quotidiana, sem enredo, revelatória da hora da verdade." Uma chatice. E admitiu: "Eu sou esse leitor entediado, nesse mundo circunscrito, afastando o seu livro com um suspiro; só que o livro é meu próprio, e está repleto de minhas próprias histórias, sem enredo e cintilantes de orvalho epifânico."

Em defesa do retorno do enredo à ficção, ele evocou, assim como Samir Machado de Machado, o pulp numa antologia que combina contos de autores de ficção de gênero e de mainstream. Mas, assim como Ficção de Polpa, não se deve realmente esperar que suas páginas estejam preenchidas de pulp fiction.

"Tedford and the Megalodon", de Jim Shepard, é ambientado em 1923 e trata do paleontólogo Roy Tedford e sua busca quixotesca pelo tubarão pré-histórico Carcharodon megalodon num ponto ao sul da Austrália. A evocação do gênero aventura se realiza mais pela intensidade do estilo forte e elegante, e pela perfeita construção de atmosferas, num estudo da personalidade desajustada de Tedford e numa afirmação de invisibilidade social que se opõe à tônica dos grandes aventureiros da época.

Aparentemente um diálogo intertextual com o livro de não-ficção The Day they Hung the Elephant, de Charles Edwin Price, o conto "The Tears of Squonk, and What Happened Thereafter", de Glen David Gold, afirma a natureza indecifrável da experiência - preocupação muito pós-moderna e anti-pulp, na verdade. Mary, uma elefanta, é a principal atração de um circo montado no Tennessee, até que ela mata um homem. O dono do circo, Ridley Nash, para contentar a cidade em clima de linchamento, decide enforcar Mary num guindaste ferroviário. Mais tarde ele é visitado por um detetive que possui evidências que Mary seria uma serial killer animal. Várias hipóteses são levantadas, nenhuma leva a uma conclusão. O estilo é circunspecto e as cenas tensas não escondem um enredo fraco.

"The Bees", de Dan Chaon, tem andamento lento e previsível. Trata de um homem aparentemente normal que é confrontado com lembranças esquecidas de um primeiro casamento. A vida suburbana é subvertida novamente e de modo mais bizarro em "Catskin", da celebrada Kelly Link - um conto fabulation demais para o meu gosto.

A vida suburbana é um dos centros da ficção pós-modernista americana, e Elmore Leonard foge dela como o diabo da cruz no western "How Carlos Webster Changed his Name to Carl and Became a Famous Oklahoma Lawman", sobre o evento determinante na vida do delegado federal Webster, repleto de cor local, prosa direta e reflexão sobre como o indivíduo cria sua própria história e se re-inventa. Um dos melhores do livro.

"The General", da celebrada autora de FC Carol Emshwiller, é ficção científica discreta, alternadamente escrita na primeira do singular e na primeira do plural. O general do título é uma criança inimiga capturada e educada nas artes marciais da sociedade captora, até que foge para as montanhas. De estilo minimalista e de dinâmica fraca, não empolga em nada.

Neil Gaiman, com "Closing Time", ganhou o Prêmio Locus 2004. Uma história "contada", em que um homem, num clube, narra ao outro como foi levado por três irmãos até uma casa sombria, quando garoto. Na narrativa, alusões ao sobrenatural são substituídas, num efeito de reversão de expectativas, por alusões a abusos físicos na infância. Um bom conto, mas sem brilho no estilo ou nas situações.

"Otherwise Pandemonium", de Nick Hornby, um famoso autor inglês, combina fim de mundo com uma linha da fantasia contemporânea que imagina objetos cotidianos com poderes especiais e enigmáticos - máquinas de escrever que escrevem romances sozinhas, câmeras fotográficas que captura o passado. Neste caso, um aparelho de videocassete que faz o fast forward até o futuro. O estilo reproduz a dicção do garoto que o comprou.

De Stephen King, "The Tale of Gray Dick", decepciona. É apenas um excerto de um dos seus romances da Torre Negra, envolvendo a passagem de Roland e Jake por uma vila dos Territórios. Toda a associação de King com a pulp fiction, vista por exemplo na coletânea Pesadelos e Paisagens Noturnas, passa sem reconhecimento. Já "Blood Doesn't Come Out", o único conto escrito por Michael Crichton, tem um detetive frustrado e edipiano, de modo que é como se Crichton escrevesse contra a tradição hard-boiled e o seu detetive durão. De modo semelhante, o mainstream americano já integrou a marginalidade sem necessariamente se definir como suspense ou thriller, e o conto de Laurie King, "Wearing the Dark", traz uma lésbica refugiada na zona rural com sua companheira em coma, confrontando plantadores de maconha que usam sua água e eletricidade, para conseguir um pouco da erva como terapia para a sua cegueira progressiva. Na novela "Up the Mountain Coming Down Slowly", Dave Eggers parece ter escolhido desconstruir os constituintes do conto de aventura africana.

Depois disso fui ler Dashiel Hammett, antes de voltar ao livro e enfrentar o ocasionalmente divertido "Chuck's Bucket", de Chris Offutt. É um tipo de FC recursiva (e portanto metaficcional), já que o autor é filho de um dos muitos desafetos de Harlan Ellison (que está no livro!). A certa altura, porém, Offutt decide pôr fé no enredo, e salva a história com suas idéias interessantes.

Outra novela, "The Case of the Nazi Cannary", do veterano da FC e fantasia Michael Moorcock, apresenta estilo distanciado, sem brilho, ao narrar uma aventura da série Detetive Metatemporal na Alemanha Nazista, envolvendo o episódio real da morte de uma sobrinha de Hitler. Essa história alternativa se liga ao multiverso em que aparece também Elric de Melniboné, o herói de alta fantasia criado por Moorcock. A novela não apresenta suspense ou incidentes que cativem a leitura.

Em "The Case of the Salt and Pepper Shakers", um detetive especialmente sensível é fascinado por um crime envolvendo marido e mulher, um assassino do outro, mortos no mesmo instante. Longe do hard-boiled e seu questionamento duro da vida quotidiana, o que temos é a observação irônica, sutil a ponto de inefável, de um sentimento de amor tão próximo que, por força de fatos triviais, transmutou-se em ódio homicida. Esse conto de Aimee Bender é puro mainstream.

"Ghost Dance", do nativo-americano Sherman Alexie, compensa com o horror na linha dos mortos-vivos, em que um perplexo agente do FBI acompanha o aparecimento de soldados da 7.ª de Cavalaria de Custer, matando quem encontram pelo caminho, desde o local do Massacre de Little Big Horn. Há um jogo sugestivo de imagens pertencentes à experiência dos nativo-americanos, que sugere a persistência da violência do passado, sobre o presente. O estilo não se preocupa em ser elegante, move-se para a frente em boa velocidade e tem imagens fortes, mas o final é fraco.

"Goodbye to All That" é típico Harlan Ellison. Crítica ao consumismo moderno, sob forma de sketches burlescos, identifica Xangri-Lá a uma espécie de franquia hoteleira. Xangri-Lá entrou no pulp pela tradição de mundo perdido, também satirizada por Ellison. "Private Grave 9", de Karen Joy Fowler, parte da corrente "humanista" do pós-modernismo na FC, é ambientado no contexto típico da ficção de aventura e fantasia pulps das décadas de 20 e 30: uma escavação arqueológica no Egito. O sítio é visitado por uma escritora de romances de mistério, em busca de inspiração. Em paralelo, o narrador, um fotógrafo, acredita ter encontrado evidência da aparição de uma deusa antiga, numa chapa. Um bom conto, mas aqui gênero literário é apenas um traço de certo contexto cultural que envolve a narrativa.

Muito elogiado nos EUA, "The Albertine Notes", do premiado Rick Moody, é uma novela ostensivamente dickiana sobre uma droga de memória e a investigação das suas origens por um jornalista vagabundo, Kevin Lee, que logo se vê enredado num imbróglio de causa e efeito, viagem no tempo, falsas memórias, terrorismo químico. O texto é às vezes intrigante, às vezes exasperante em sua qualidade retorcida, e Moody parece não saber o que fazer da situação étnica de Lee, um sino-americano, ao tirar resoluções do chapéu, alheias à caracterização do personagem até então.

O último texto, "The Martian Agent", é do próprio Chabon, mistura de steampunk e aventuras vernianas dos dime novels do século 19, que na verdade é apenas a primeira parte de uma obra maior, continuada em 0McSweeney's Enchanter Chamber of Astounding Stories.

Nesta antologia, parece que alguns autores de ficção de gênero, ao serem convidados por Chabon, consagrado no mainstream, resolveram escrever de forma "literária", e autores de ficção literária, ao aceitarem o desafio de escrever ficção de gênero, apegaram-se à idéia de que tema define gênero literário. Só isso não basta.

Aparte algumas boas histórias, destaca-se a instigante introdução de Chabon, não correspondida. O que é pulp, então, nesse contexto? Um símbolo desvinculado das características desse tipo de ficção, um lembrete de que literatura de gênero e mainstream podem se aproximar sem abandonar as características onipresentes do pós-modernismo, e de que nem sempre é fácil conjugar temas de ficção popular a enredos fortes e dinâmicos. Difícil entender, então, a observação do autor de FC Michael Swanwick: "gente demais (no livro) decidiu que 'enredo' é sinônimo de 'pulp'." Antes fosse.

E--scritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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